É possível nascer e morrer bilhões de vezes a cada instante? Segundo monja Coen, o principal nome do zen budismo no Brasil, não só é como é algo natural de nossa existência na terra. Aos 77 anos, ela é autora de mais de dez livros e um fenômeno editorial e nas redes sociais. Em sua mais recente obra, lançada pela Editora Planeta, monja Coen traz reflexões sobre o envelhecimento, a finitude da vida e suas próprias vivências com a vida e com a morte.
Em “A cada instante nascemos e morremos bilhões de vezes”, Coen, que nasceu Claudia Batista de Souza, se inspirou em uma frase do Buda histórico, proferida há 2.600 anos, para dar título a uma de suas obras mais autobiográficas. No livro, ela conta detalhes da morte do pai, José Soares de Souza, funcionário público e ex braço direito de Adhemar de Barros, que foi governador de São Paulo por duas vezes e prefeito da capital entre 1957 e 1961. José, que era apaixonado por livros, teve suas cinzas depositadas dentro de um exemplar feito de cobre após falecer, aos 90 anos, e nele permanecem até hoje dentro do templo Taikozan Tenzuizenji, criado em 2001 pela monja na residência onde viveu com a família, no bairro do Pacaembu.
Coen, que enfrentou recentemente um câncer de pele, traz no novo livro ensinamentos de como evitarmos a cultura do desperdício, a importância de se apreciar o agora e que nossa mente não se aposenta, mesmo com o envelhecimento do corpo. “As ideias não se aposentam. Vamos morrer sabendo pouco”, diz a religiosa, que passou por um longo caminho até se encontrar dentro do zen budismo, no início dos anos 1980. Antes da dedicação total a ele, trabalhou como jornalista e viveu a psicodelia nos anos 1960 e 1970, chegando a ser presa na Suécia por tráfico de LSD. A monja, que é prima dos irmãos Sergio e Arnaldo Batista, da banda Os Mutantes, também enfrentou problemas com álcool e conta ter bebido até dentro de mosteiros.
Com a descoberta do zen, que significa estar atento, reescreveu sua história. Na entrevista a seguir, ela conta sobre a relação com a vida e a morte dentro da religião, detalhes de seu novo livro e histórias curiosas de sua trajetória.
Confira a seguir:
BE – Como o zen budismo enxerga a morte?
Monja Coen – A vida e a morte não andam separadas e tudo está em constante transformação, o tempo inteiro. No entanto, é preciso saber que a vida humana tem começo, meio e fim e quando a pessoa está para morrer, o zen budismo prega que ela deve ter consciência de que vai partir, saiba de que está morrendo e que pode se arrepender de coisas que não tenha feito ou de suas faltas e erros. Assim que a pessoa morre, fazemos um ritual chamado reza do travesseiro, no qual fazemos orações antes de mexerem no corpo para o velório e dizemos: você morreu, entrou no reino da morte. Nesse ritual, usamos um sutra entoado quando Buda (aquele que desperta), aos 80 anos, entrou em estado de Parinirvana, pois no zen budismo, não se fala que Budas morrem. Um pouco antes de partir, ele faz seu último sermão, dizendo: “Não se lamentem. Tudo que invariavelmente começa, termina. Não é meu corpo que vocês amam, mas os ensinamentos. Façam dos ensinamentos do seu mestre que eu vivo para sempre”.
BE – Quais são os rituais feitos no velório e enterro de alguém que segue o zen budismo?
Monja Coen – Nós seguimos uma ordem de rituais para cada momento da morte da pessoa. Fazemos preces diferentes para cada etapa, como a de vestir o corpo, para se colocar dentro do caixão, para que ele seja conduzido. Durante o velório, são feitas outras preces, assim como no momento da cremação e na saída das cinzas do crematório. Além disso, são feitos memoriais seguindo as tradições do budismo tibetano, que é rezar pela pessoa que morreu a cada sete dias, dizendo: esteja bem e vá em paz. Há uma recomendação que eu faço e defendo que é: não se lamentar pela pessoa que partiu, deixe a ir, não puxe uma energia que está se dispersando no universo. A morte faz parte da natureza, fica de boa, está tudo bem.
É claro que em rituais assim existe a tristeza, diferente do que muita gente acha que, quando morre um japonês, o pessoal faz festa. A verdade é que os ritos fúnebres significam uma reunião familiar e de amigos para honrar aquela vida que se foi. Há roupas próprias para este momento, uma tradição que tem se perdido no Brasil. No Japão, os homens vestem terno e gravata preta, e as mulheres vestem quimonos com o brasão da família. O defunto fica em um palco, onde são oferecidos itens do mundo material, como alimentos, dinheiro e uma chave, para o caso de ele precisar abrir algum caminho no mundo da morte. Há uma distância entre o caixão e as pessoas que deve ser mantida.
BE – O que é feito após o fim dos rituais fúnebres?
Monja Coen – Existe uma particularidade dentro do budismo, herdada tanto da China quanto do Japão, que é a produção de um Ihai, uma peça vertical de madeira onde se escreve o nome da pessoa, idade que tinha ao morrer e data do nascimento e falecimento. O Ihai é colocado em um altar, como o que temos aqui no templo. No Japão, é comum as casas terem altares familiares para honrar e agradecer aos ancestrais pela vida, e isso é passado de geração em geração. A pessoa que partiu deve ser honrada pois ela é vista como um protetor da família, alguém que pode ajudá-la a se manter unida com o passar do tempo.
É importante reforçar que não são todas as pessoas que são cremadas ou é feito um Ihai no zen budismo. Depende da vertente que se segue. Eu sigo a tradição japonesa e nela é feita a cremação e a preservação das cinzas dos ancestrais. Lá, há também a questão do pouco espaço disponível no país, o que impacta para enterrar pessoas, além dos riscos da contaminação do solo. Por isso, prefere-se cremar, como no sistema indiano. Apenas cristãos costumam ser enterrados na ilha, por conta da crença religiosa.
Lá, as cinzas costumam ser guardadas em pequenas urnas e em compartimentos verticais de cemitérios, como é o caso do Columbário de Ruriden, em Tóquio, onde cada morto é representado por um pequeno Buda de vidro. Na região de Hokkaido, onde é frio boa parte do ano, as cinzas das famílias costumam ser depositadas e misturadas em um lugar só, como forma de aquecer e unir.
BE – E porque temos tanto medo da morte aqui, por que ela é um tabu para muitos?
Monja Coen – Uma das razões seria que o cristianismo ensina que é preciso vencer a morte, como fez Jesus e como se ela fosse algo medonho. O problema é que nenhum de nós vence a morte. Ela é algo que existe e devemos aceitá-la, pois nossos ancestrais passaram por isso, não é preciso ter medo. Talvez o que preocupe as pessoas é o sofrimento que antecede a morte. Um ensinamento que levo é de um professor que dizia: “na hora de viver, vivemos, e na hora de morrer, morremos”.
Assim, acredito que podemos desmistificar a morte, torná-la menos distante de nossas conversas, da vida humana. Morrer não é ruim, os que morrem vivem em nós, na presença do DNA de muitas gerações que vivem na gente.
Quando meu pai morreu, aos 90 anos, após uma cirurgia para se tentar drenar um coágulo no cérebro por conta de uma queda, eu estava com ele em um quarto na Santa Casa de São Paulo. Havia uma luz vindo da janela e disse para ele: agora acabou, você vai para a luz eterna, você foi uma ótima pessoa, te amamos e vá em paz. Ele não tinha religião, mas me apoiou muito no meu caminho dentro do zen budismo. Decidi cremá-lo e manter suas cinzas comigo, algo que não foi feito com minha mãe, Branca, que era muito católica e foi enterrada quando faleceu, aos 96 anos. Eu falo sobre a partida deles, mas sem apego, dor.
BE – O que mais você indica para quem teme a morte ou não gosta da ideia de abordá-la?
Monja Coen – É preciso vermos a pessoa que morreu, o defunto. O corpo do morto é importante, e os rituais são importantes para que se faça a despedida, tanto emocionalmente como juridicamente, como no caso da realização de um atestado de óbito e um testamento. Não adianta fugir e dizer que quer ter a memória da pessoa viva. É preciso dissociar a vida e a morte, os dois momentos fazem parte da construção humana. Sem isso, você corre o risco de “matar” as pessoas sempre ao lembrar delas e não aceitar que já morreram. Tudo o que nasce morre, como acontece com todas as formas de vidas que existem no planeta.
BE – Como você vê o tratamento à morte aqui no Brasil?
Monja Coen – A questão da morte não é muito trabalhada por aqui. Um exemplo é que os necrotérios são lugares mais escondidos aqui, como se lá fosse feito algo de errado, que ninguém pudesse ver. Assim como é o processo de retirada de um morto de um hospital, como se fosse alguém que possui uma doença contagiosa.
BE – De que forma você vê a sua morte? Como a imagina?
Monja Coen – No Japão, dizemos que somos um saco de pele. Que importância esse saco de pele tem? Nós damos muita importância a ele. Minha mãe dizia: “quantas vidas em uma só vida, quantas experiências nós temos”. Penso que, se na minha existência, eu cheguei ao ponto de entender alguma coisa, de poder transmitir algo para as pessoas, minha missão foi cumprida. Não me importa se vou morrer lúcida ou não, tanto faz. Vamos morrer sabendo pouco.
A finitude faz parte de nós. Atualmente, olho minhas mãos e penso: como elas estão grandonas, elas não eram assim, com as veias saltadas. Me olho no espelho e vejo as marcas do tempo no meu rosto. São sinais de velhice, e isso é legal. Ao invés de reclamar sobre isso, vamos conviver bem com elas, assim como o momento de partir, independentemente de como a partida for.
BE – E como é viver como zen budista no Brasil?
Monja Coen – É algo que não é comum. Em um país de maioria cristã-judaica, há dificuldade em conseguir apoio financeiro e participação mais comprometida com as práticas Zen. Há curiosidade, interesse, mas é difícil conseguir doações e comprometimentos maiores do que apenas simpatizantes. O que mantém a comunidade são as palestras para empresas, escolas, universidades ou feitas em teatros e cursos online.
Nós temos maneiras de ser e de falar que são diferentes a outras crenças dentro do Brasil. O zen budismo não fala em alma e imortalidade e sim, em espíritos, e que não há nada eterno neste mundo, tudo está em transformação e movimento.
Recentemente, nossa comunidade comprou um terreno em Campos do Jordão, com recursos obtidos através de cursos. Nosso desafio de momento é conseguir doações para construir o templo lá e manter nossa casa operando em São Paulo, já que ela é necessária para quem vive e trabalha na cidade. O templo no interior do estado deverá servir mais para retiros e atividades especiais de meditação e ensinamentos.
BE – Dos livros que escreveu até hoje, este é o que você traz mais passagens autobiográficas. Que ensinamentos você gostaria de passar para as pessoas que o estão lendo ou querem ler?
Monja Coen – O que aprendemos com a existência? A gente se despede de muitas pessoas, embora um pouco delas fica em mim e um pouco de mim nelas. O dia que minha mãe morreu, é como se eu tivesse ouvido algo que fosse ela me dizendo para abrir seu armário. Nele, havia um rosário budista que eu havia dado a ela muitos anos atrás. Depois disso, nunca mais tive esta sensação da presença dela.
A morte é uma viagem, todos vamos fazê-la um dia. Quando chegar o seu bilhete, você vai embarcar e ver o que é. Muitas pessoas desejam saber o que existe após a morte, como ela é. Eu prefiro me concentrar em falar com os vivos, sem esquecer de honrar os que já se foram. Uma coisa que gosto de ensinar é que nós devemos controlar nossas emoções, pois elas podem ser perigosas. A ansiedade é algo perigoso. É preciso conhecer a si.
BE – Quais histórias pode contar para o leitor que quer conhecer a monja Coen fora do dia a dia do templo zen budista que você vive e lidera?
Monja Coen – Quando eu era moça, estava na Suécia jogando vôlei e havia uma moça árabe muito bonita, com cabelos longos e que jogava no outro time. Minha mãe nunca permitiu que eu deixasse o cabelo crescer e eu tinha um problema com isso. Todo amigo era amigo dela, e em uma jogada, eu dei uma cortada com raiva para atingi-la. Na hora, ela pegou a bola, veio até mim e perguntou o porquê de eu ter feito aquilo, pois dentro de alguns anos, eu não lembraria nem seu nome, nunca mais vamos nos ver. Aquilo foi uma lição que me desmoronou. Em uma época da minha vida, vivi em um mosteiro no Japão e um dos cozinheiros era um homem que gostava de beber. E havia sempre saquê para colocar nas receitas. Um dia, ele passou por nós no refeitório, com aquela cara de ressaca, e eu comentei com um monge ao lado: o nosso Kenzo hoje! O monge me olhou sério e disse: “o que você tem a ver com isso? Como é que está você hoje? Pare de se preocupar com os outros”.
Isso também foi uma lição para mim e que levo para a vida, de evitar criticar o outro, de se ter uma postura correta para o mundo.
