A oferta de medicamentos à base de semaglutida no Brasil acaba de ganhar um reforço: com as últimas duas aprovações da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), agora são sete novas canetas injetáveis com princípio ativo que ampliam as opções de tratamento para pessoas com diabetes mellitus tipo 2. Também usadas no tratamento para perda de peso, as novas medicações pertencem a uma classe de remédios que imitam a ação do hormônio GLP-1, responsável por ajudar no controle da fome e da glicose no sangue. A aplicação é feita uma vez por semana.
As cinco primeiras canetas – Owozy, Seemasun, Zempneo, Semavy e Orsema – foram registradas em 29 de julho. Os medicamentos têm semaglutida obtida por via sintética e foram aprovados por comparação com o Ozempic. Segundo a Anvisa, as canetas são destinadas a adultos com diabetes tipo 2 que não apresentam controle adequado da doença, além de complemento à dieta e à prática de exercícios.
Em 17 de agosto, a agência registrou mais duas opções: semaglutida genérica da EMS, que não terá nome comercial, e a Semaclique, similar produzida pela Germed. As últimas duas também são indicadas para adultos com diabetes tipo 2. Apesar de a semaglutida ter se tornado conhecida pelo efeito sobre a saciedade e perda de peso, as sete novas canetas não foram aprovadas para emagrecimento.
Diferenças e efeitos
O endocrinologista e coordenador da Residência Médica em Endocrinologia e Metabologia da Faculdade de Medicina de Rio Preto (Famerp), Antônio Carlos Pires, explica que a diferença entre as canetas aprovadas e as disponíveis no mercado, como o Ozempic destinado a tratamento de diabetes e o Wegovy indicado para emagrecimento, é a diversidade de doses. “Poderá ter canetas com dose máxima (2,4 miligramas) e canetas com dose mínima (1 miligrama) e sempre a semaglutida”, afirmou.
A semaglutida, segundo o especialista, foi estudada inicialmente para controle de diabetes. Os resultados de redução de peso foram um achado positivo relacionado ao efeito da medicação. “Grande parte dos pacientes com diabetes tipo 2 que usam essas drogas são obesos e, portanto, usando a molécula (semaglutida), promove a redução de peso e, consequentemente, a melhora do controle do diabetes”, explica.
O coordenador ressalta que os efeitos positivos vão além. “Melhora o colesterol e triglicerídeos elevados, melhora a qualidade de vida e melhora um grande problema que é a apneia do sono, que causa paradas respiratórias e é altamente deletéria para todas as células do organismo, além de não trazer sono adequado”, ressalta. O especialista também ressalta a importância da chegada de novas medicações, segundo ele, eficazes e seguras para tratar obesidade de forma sustentada, para evitar o chamado ‘efeito sanfona’, caracterizado pelo ganho do peso perdido após o fim do tratamento.
Segundo Antônio Carlos, o controle adequado do peso também é importante para reduzir o risco de doenças cardiovasculares. E, por fim, conclui: “chega uma droga extremamente efetiva que reduz peso? Isso foi um divisor de águas. E qual era o grande óbice? O custo! Com a chegada de novas marcas, a gente espera uma competição que reduza cada vez mais o preço e permita que mais pessoas tenham acesso a essas moléculas. Isso é importantíssimo”, analisa.
Contraindicações
O médico cirurgião do aparelho digestivo da Unimed Rio Preto, Marcial Barrionuevo da Silva, ressalta contraindicações que podem ocorrer com o uso de semaglutida: “história pessoal ou familiar de carcinoma medular de tireoide, síndrome de neoplasia endócrina múltipla tipo 2, hipersensibilidade grave prévia à semaglutida ou a componentes da formulação”, orienta.
Segundo o médico, a advertência sobre o tipo raro de câncer na tireoide que atinge as células que produzem o hormônio calcitonina foi observada em estudos com ratos. “Ainda não está estabelecido que esse risco ocorra em humanos, mesmo assim, a contraindicação permanece”, explica.
O cirurgião também ressalta que há ainda situações que não são necessariamente contraindicações absolutas, mas exigem atenção. “Como gastroparesia grave (estômago lento), a semaglutida retarda o esvaziamento gástrico e não é recomendada nesses pacientes”, afirma. “História ou suspeita de pancreatite, doença da vesícula biliar, uso concomitante de insulina ou sulfonilureias (pelo maior risco de hipoglicemia), retinopatia diabética, especialmente quando há rápida melhora do controle glicêmico”, também são alertas, segundo o médico.
Outras condições também exigem cuidado: “doença renal, principalmente se houver risco de desidratação, procedimentos cirúrgicos ou exames que envolvam anestesia geral ou sedação profunda, pois o retardo do esvaziamento gástrico pode aumentar o risco de aspiração pulmonar”, reforça.
Gravidez, segundo o médico, também merece atenção. “Para tratamento de perda de peso, a semaglutida deve ser suspensa quando a gravidez é reconhecida e, quando há planejamento de gravidez, a bula recomenda interrompê-la pelo menos 2 meses antes”, reforça. Segundo o médico, também é importante diferenciar Ozempic, utilizado principalmente no diabetes tipo 2, de Wegovy, cuja indicação inclui tratamento crônico da obesidade. “A molécula é a mesma, mas as indicações e doses aprovadas podem ser diferentes”, reforça.


