A menopausa é frequentemente associada às ondas de calor, mas os primeiros sinais podem surgir muito antes desse sintoma desagradável. Mudanças de humor, irritabilidade, lapsos de memória e cansaço emocional são manifestações comuns da chamada perimenopausa, que em média pode começar entre 4 e 8 anos antes da menopausa (interrupção definitiva da menstruação).
Para a ginecologista Márcia de Faria Pádua, a ideia de que a perimenopausa passa despercebida é, muitas vezes, um equívoco. “Esse é um período de transição, que pode trazer uma ampla gama de sintomas, muitos dos quais passam despercebidos ou não são reconhecidos como parte desse processo. É hora de reconhecer que a perimenopausa não é invisível, apenas não estamos acostumados a chamá-la pelo nome”, explica. Segundo ela, muitas mulheres acreditam não sentir nada, quando, na verdade, já convivem com alterações de humor, irritabilidade, lapsos de memória e um cansaço emocional persistente.
Esses sinais iniciais, frequentemente atribuídos à sobrecarga da rotina, podem mascarar o início de uma transformação biológica complexa. A médica e pesquisadora Fabiane Berta, especialista em menopausa, destaca que a perimenopausa é marcada por oscilações intensas e imprevisíveis de estrogênio e progesterona, decorrentes da redução gradual da função ovariana. “Diferentemente do que se imagina, não se trata de uma queda linear dos hormônios, mas de flutuações intensas e imprevisíveis, capazes de afetar diversos sistemas do corpo, especialmente o cérebro”.
De acordo com a especialista, estudos internacionais descrevem essa etapa como uma transição neurológica comparável, em magnitude biológica, à puberdade, mas em sentido inverso. “Muitos dos sintomas mais comuns da perimenopausa têm origem cerebral. Regiões como o hipotálamo e o hipocampo, responsáveis pela regulação da temperatura corporal, do sono, da memória e das emoções, são altamente sensíveis às variações do estrogênio. Essas alterações hormonais interferem diretamente em neurotransmissores como serotonina, dopamina e noradrenalina, o que ajuda a explicar sintomas frequentes como irritabilidade, ansiedade, lapsos de memória, dificuldade de concentração e alterações de humor”, explica.
Entre os sinais mais conhecidos estão os fogachos, que atingem cerca de 80% das mulheres. Fabiane esclarece que esses episódios são fenômenos essencialmente cerebrais. “A queda do estrogênio compromete o centro de controle térmico do cérebro, provocando sensações súbitas de calor e sudorese, muitas vezes acompanhadas de taquicardia e mal-estar. Quando ocorrem à noite, os fogachos fragmentam o sono e desencadeiam um ciclo de cansaço persistente, piora cognitiva e maior vulnerabilidade emocional. Estudos associam a frequência desses episódios a maior risco cardiovascular, pior desempenho de memória e maior incidência de sintomas depressivos”, ressalta.
Ao mesmo tempo, Márcia chama atenção para o risco de abordagens simplistas. Ela critica tanto a banalização da terapia hormonal quanto sua demonização indiscriminada. “O equilíbrio está em avaliar cada caso, com responsabilidade e evidência científica”, pontua. Para ela, compreender o que está acontecendo no corpo é um passo decisivo para evitar sofrimento desnecessário. “Quando entendemos o que está acontecendo, conseguimos agir com autonomia e evitar sofrimento desnecessário”.
A médica também observa que muitas pacientes chegam ao consultório dizendo estar “apenas cansadas”, sem perceber que já enfrentam as consequências das oscilações hormonais. Falar sobre o tema, defende, é uma forma de ampliar a autonomia feminina. “Quanto mais cedo a mulher reconhece os sinais, mais preparada estará para atravessar essa fase”, afirma. Especialistas concordam que o envelhecimento saudável não depende exclusivamente de hormônios. Qualidade do sono, prática regular de exercícios, alimentação equilibrada e conexão social são pilares importantes nesse processo. A longevidade feminina, reforça Márcia, não acontece por acaso. “Não é sobre prolongar a juventude, mas sobre viver com plenitude e consciência.”
Em um contexto em que cada vez mais mulheres buscam informação e protagonismo sobre a própria saúde, o debate sobre a perimenopausa, ainda muitas vezes invisibilizada, ganha força. Reconhecer seus sinais, compreender seus mecanismos e ampliar o acesso à orientação baseada em evidências são passos fundamentais para transformar essa transição em uma etapa de cuidado, e não de silêncio.
Saúde mental
Dados epidemiológicos reforçam esse cenário: o risco de depressão pode aumentar de duas a cinco vezes durante a perimenopausa, em comparação com os períodos anteriores e posteriores. Ainda assim, como observa a especialista, “esses sintomas ainda são frequentemente atribuídos apenas ao estresse, à sobrecarga de trabalho ou a questões emocionais, o que contribui para atrasos no diagnóstico e no tratamento.”
A escuta clínica atenta torna-se, portanto, peça-chave. Márcia ressalta que gerações anteriores não tiveram tempo ou informação para observar o próprio corpo. “Gerações anteriores não tinham tempo ou informação para se observar. Hoje, as mulheres buscam qualidade de vida e precisam de orientação adequada”. Como não há um exame específico capaz de confirmar a perimenopausa, “o diagnóstico é clínico, baseado no histórico menstrual, na análise dos sintomas e na exclusão de outras condições, como distúrbios da tireoide ou deficiências nutricionais”, conclui.
