Você já ouviu falar sobre a ‘superbactéria’ KPC, uma das infecções hospitalares mais preocupantes? A sigla se refere a Klebsiella resistente a carbapenêmicos, uma variante da bactéria Klebsiella pneumoniae resistente a antibióticos até de última linha (mais fortes). A KPC, como outras ‘superbactérias’, pode causar infecções em diferentes partes do corpo e pode surgir, segundo especialistas, por uso desnecessário de antibióticos, longas internações, imunidade baixa e falta de medidas simples de combate, como a higienização das mãos. Campanhas como o Maio Cristalino alertam para as medidas simples e eficazes de prevenção (leia mais ao lado).
O médico infectologista e membro da Sociedade Brasileira de Infectologia Vitor Dantas Muniz afirma que a KPC é uma enzima que quebra a eficácia de antibióticos da classe dos carbapenêmicos – medicamentos utilizados principalmente em hospitais. “Essa enzima foi inicialmente identificada na bactéria Klebsiella pneumoniae, contudo, sabe-se que outras bactérias também podem obter o gene que produz essa enzima (resistente)”, explica. Ou seja, outros tipos de bactérias também podem criar a mesma resistência da KPC.
Bactérias multirresistentes, segundo o médico, podem viver tanto em colonização (sem causar doenças) como podem causar infecções. “Quando coloniza, a bactéria convive nas superfícies do paciente sem causar infecção. Quando causa infecção, pode ser infecção em qualquer sítio: pneumonia, infecção urinária, infecção de pele ou partes moles, infecção após cirurgia abdominal, entre outros, e é necessário o uso de antibióticos para o tratamento”, afirma.
O médico Vitor Dantas ressalta ainda que, apesar de serem identificadas predominantemente em ambiente hospitalar, bactérias multirresistentes, como a KPC, estão cada vez mais comuns na comunidade. “Isso é preocupante, pois existem poucas opções de antibióticos para o tratamento adequado das infecções causadas por essas bactérias. Com poucas opções, a tendência é de menor sucesso terapêutico”, alerta.
Multirresistentes
O médico infectologista Renato Ferneda de Souza reforça que a KPC é uma bactéria que pertence a uma classificação que, atualmente, inclui outras bactérias multirressistentes chamadas de gram negativas. “A denominação mais atual é CPE (Enterobactérias produtoras de carbapenemase), que abrange as bactérias Klebsiella pneumoniae, Escherichia coli e Acinetobacter baumannii”, explica ao se referir a bactérias que podem causar pneumonias, infecções urinárias, infecções no sangue e em feridas, entre outras formas.
Segundo Renato Ferneda, o termo ‘superbactéria’ é muitas vezes superestimado, já que todas as bactérias podem desenvolver resistência. “Basta ela ser exposta a algum antibiótico por vezes e períodos inadequados”, alerta. A principal diferença, segundo o infectologista, está na quantidade e na complexidade dos mecanismos de defesa das bactérias, que variam entre grupos bacterianos, e permitem que escapem tanto de antibióticos simples quanto mais avançados. “A Klebsiella e suas ‘irmãs’ produtoras de carbapenemase foram descobertas em 2009 no Brasil e já possuem hoje mecanismos de resistência às classes de antibióticos mais novos que os carbapenêmicos”, ressalta.
Transmissão
A transmissão de bactérias multirresistentes ocorre, segundo o infectologista Renato Fernerda, principalmente por contato. “Em especial em ambientes de saúde, principalmente hospitais e unidades de terapia intensiva”, afirma. O contato direto é a forma principal. “Por meio de mãos contaminadas de profissionais da saúde sem higienização adequada”, ressalta. Já a transmissão indireta, segundo o médico, se dá por superfícies ou objetos contaminados. “Grades de leitos, móveis, equipamentos médicos como estetoscópios, termômetros, ventiladores, dispositivos invasivos, como cateteres venosos, sondas e cânulas de ventilação mecânica”, explica.
Fatores de risco
Os principais riscos de infecção, segundo Renato Fernerda, incluem vários fatores: “uso anterior recente ou prolongado de antibióticos, internação longa e maior manipulação de pacientes graves por equipes, condições de imunossupressão e procedimentos invasivos”, cita. Segundo o infectologista, a Klebsiella pneumoniae que originou as primeiras bactérias multirresistentes pode ficar colonizada no intestino por meses, sem infecções. “A transmissão ocorre pelo contato com fezes contaminadas quando não manipuladas com higiene adequada após as evacuações”, explica.

