SaúdeNeoplasia cervical: entenda o câncer que afastou Luis Roberto da Copa
O narrador foi diagnosticado com tumor no pescoço e ficará fora da cobertura esportiva; especialistas explicam sintomas, fatores de risco, diagnóstico, tratamentos e prevenção
O narrador esportivo Luís Roberto é uma das vozes mais conhecidas do jornalismo esportivo da TV Globo (Instagram/Reprodução)
O diagnóstico de uma neoplasia na região cervical fez com que o narrador esportivo Luis Roberto se afastasse da cobertura da Copa, chamando atenção para tipos de câncer que costumam ser diagnosticados tardiamente no Brasil: os tumores de cabeça e pescoço. As neoplasias da região cervical podem atingir boca, garganta, laringe e glândulas salivares e têm como principais fatores de risco o tabagismo, o consumo de álcool e a infecção por HPV. Especialistas ouvidos pela Bem-Estar listam sintomas que merecem investigação rápida para um diagnóstico precoce e com mais chances de cura.
A médica oncologista de cabeça e pescoço do Hospital de Base de Rio Preto, Beatriz Dobbert, explica que “neoplasia cervical” é um termo amplo utilizado para se referir ao crescimento celular anormal e desordenado que resulta em tumores malignos ou benignos em regiões como boca, garganta, cordas vocais, laringe e glândulas salivares. Entre os tipos de câncer mais comuns, segundo a especialista, está o carcinoma espinocelular: “É o tipo histológico mais frequente, correspondendo a aproximadamente 90% dos casos diagnosticados.”
Sintomas
O cirurgião oncológico Sérgio Carvalho enumera os sinais de tumores na região cervical que merecem avaliação médica imediata: “Ferida na boca que não cicatriza, rouquidão por mais de duas ou três semanas, dor ou dificuldade persistente para engolir, caroço no pescoço que não desaparece, perda de peso sem explicação e sangramento oral ou nasal sem causa evidente”, cita. Segundo o cirurgião, quanto mais rápido houver atendimento médico, maiores são as chances de um tratamento bem-sucedido. “O diagnóstico precoce aumenta muito a chance de cura e reduz as sequelas do tratamento”, ressalta.
A médica oncologista do Centro Oncológico da Unimed Rio Preto, Carla Ferreira, ressalta que o crescimento progressivo do nódulo, com características endurecidas, fixo, sem mobilidade e sem dor, com tamanho acima de 1,5 a 2 cm, associado aos sinais citados anteriormente, também aumenta as suspeitas de tumor. Segundo a médica, a maioria dos nódulos cervicais em crianças e jovens está relacionada a infecções e costuma regredir espontaneamente. “Já em adultos, principalmente acima dos 40 anos, nódulos cervicais são mais incomuns. Portanto, existe uma maior preocupação quanto ao diagnóstico de câncer”, alerta.
Fatores de risco
As neoplasias da região cervical, especialmente os tumores na garganta, amígdalas, cordas vocais, língua, gengiva, boca e céu da boca, segundo Sérgio Carvalho, estão fortemente associadas a uma série de hábitos prejudiciais à saúde. “Tabagismo, consumo de álcool, infecção pelo HPV (papilomavírus humano), exposição ocupacional, má higiene bucal, doença periodontal, imunossupressão e exposição à radiação são fatores de risco bem estabelecidos”, alerta o especialista.
A médica especialista do HB ressalta que o cigarro e o álcool são os maiores vilões, sendo responsáveis por cerca de 75% dos casos. “As substâncias cancerígenas presentes na fumaça do tabaco causam danos diretos às células da mucosa oral e do trato respiratório superior, aumentando significativamente o risco”, explica. Cigarro e álcool juntos elevam ainda mais os riscos. “Eles apresentam um efeito sinérgico, aumentando ainda mais o risco de desenvolvimento do câncer”, alerta.
No caso do HPV, segundo Beatriz Dobbert, a doença geralmente se manifesta em pacientes mais jovens, “sem histórico de exposição excessiva ao álcool e ao tabaco”, destaca.
Falta de rastreamento reforça importância da atenção aos sintomas
A médica Beatriz Dobbert afirma que é importante destacar que não existe rastreamento específico para neoplasias cervicais e que a prevenção é a melhor estratégia. “A redução da exposição aos principais fatores de risco pode reduzir significativamente a incidência do câncer de cabeça e pescoço”, reforça. Além disso, a oncologista alerta também para a importância da atenção aos sintomas iniciais. “Eles são fundamentais para um diagnóstico precoce, melhor prognóstico e maiores chances de tratamento bem-sucedido”, ressalta.
O cirurgião Sérgio Carvalho reforça que, no Brasil, infelizmente, o diagnóstico ainda ocorre, em muitos casos, em fases avançadas da doença, por diversos motivos. “Os sintomas iniciais podem ser inespecíficos e muitas pessoas os interpretam como algo benigno”, afirma. A demora para a avaliação médica, a dificuldade de acesso a especialistas e aos exames diagnósticos também prejudicam o diagnóstico precoce. “Filas no sistema público, atraso nos encaminhamentos, no diagnóstico definitivo e o baixo nível de informação da população sobre os sinais de alerta também contribuem”, complementa.
A médica oncologista Carla Ferreira explica que o diagnóstico passa, inicialmente, por uma avaliação clínica detalhada. “O médico realiza uma anamnese completa, avaliando idade, hábitos de vida, como tabagismo e etilismo, histórico prévio de doenças e histórico familiar. Posteriormente, é feito o exame físico, que é extremamente importante e inclui a palpação do pescoço e a avaliação da cavidade oral, orofaringe, laringe e outras estruturas da região”, detalha.
Em seguida, o diagnóstico envolve exames complementares. “Muitas vezes é realizada uma nasofibrolaringoscopia, exame feito com uma câmera fina introduzida pelo nariz, permitindo visualizar áreas profundas da garganta e da laringe”, explica. Exames como a ultrassonografia cervical também são utilizados para avaliar nódulos no pescoço e linfonodos suspeitos, além da punção aspirativa por agulha fina (PAAF), que “coleta células do nódulo para análise citológica”, afirma Carla.
Tomografia computadorizada, para avaliar o tamanho e a abrangência do câncer, bem como ressonância magnética e PET-CT também podem ser solicitados. “O PET-CT é utilizado em casos selecionados para pesquisa de disseminação da doença”, detalha a oncologista da Unimed.
A biópsia, por fim, segundo Carla, é o exame definitivo. “A biópsia é fundamental porque somente a análise anatomopatológica consegue confirmar se a lesão é benigna ou maligna e definir o tipo do tumor”, explica.
Tratamento precoce aumenta chances de cura
Neoplasia cervical (Divulgação)
O tratamento é individualizado e depende de uma série de fatores, segundo explica a oncologista Carla Ferreira. Cirurgia, radioterapia, quimioterapia, imunoterapia e terapia-alvo estão entre os tratamentos disponíveis. Já o prognóstico, segundo a especialista, depende do estágio em que a doença é diagnosticada, da localização do tumor, do tipo histológico e das condições clínicas do paciente. “De forma geral, quanto mais precoce o diagnóstico, maiores são as chances de cura e menores as sequelas do tratamento”, reforça.
Em profissionais que usam a voz como ferramenta de trabalho, como narradores, existe risco de sequelas, segundo Carla Ferreira. “Principalmente quando o tumor acomete a laringe ou estruturas próximas às cordas vocais. No entanto, os tratamentos atuais buscam preservar ao máximo a função vocal, com técnicas menos invasivas”, ressalta.
Prevenção
A prevenção, de acordo com o cirurgião Sérgio Carvalho, é baseada em três pilares. O primeiro deles é parar de fumar. “O tabagismo é o principal fator evitável. Parar de fumar reduz progressivamente o risco ao longo dos anos. Mesmo quem fumou por muito tempo se beneficia ao interromper”, alerta.
O segundo é reduzir ou evitar o consumo de álcool. “O álcool é carcinogênico e aumenta muito o risco, principalmente quando associado ao cigarro. A redução tem impacto direto na prevenção”, reforça.
Outro pilar é a vacinação contra o HPV. “A vacina é altamente eficaz para prevenir infecções persistentes por HPV de alto risco e tem impacto direto na redução de cânceres associados ao vírus”, orienta.
Manter uma boa saúde bucal, tratar doenças da gengiva e dos dentes, realizar acompanhamento odontológico, ter uma alimentação equilibrada, rica em frutas e vegetais, usar preservativos e evitar múltiplos parceiros também ajudam na prevenção.