Com a chegada de um novo ano, surgem também as tradicionais listas de resoluções, metas ousadas e a expectativa de que a mudança no calendário traga, automaticamente, equilíbrio emocional. No entanto, a experiência clínica revela um padrão que ajuda a contextualizar o alerta proposto pelo Janeiro Branco: grande parte dessas promessas é abandonada ainda nas primeiras semanas, não por falta de empenho, mas por uma compreensão equivocada do que é possível cumprir ou mesmo manter a longo prazo.
Segundo o psicólogo clínico Luti Christóforo, é comum que as pessoas imaginem que o sofrimento emocional pode ser superado apenas com decisão ou força de vontade. “No consultório, escuto com frequência frases como ‘achei que depois do Ano Novo a ansiedade iria diminuir’ ou ‘pensei que, se eu me esforçasse mais, esse vazio ia passar’. Isso revela uma expectativa irreal, porque emoções não obedecem decretos, elas pedem compreensão, escuta e cuidado contínuo”.
Entre as resoluções mais comuns estão compromissos como “não se estressar mais” ou “pensar positivo o tempo todo”. Na prática, conforme explica psicóloga Ana Flávia Ferreira Zaura, esse tipo de expectativa tende a gerar ainda mais culpa quando emoções como tristeza e estresse surgem inevitavelmente. “É como alguém com dor crônica decidir ignorar o sintoma em vez de investigar a causa. Na saúde física, sabemos que isso não funciona. Na saúde emocional, insistir nesse caminho apenas prolonga o sofrimento”, compara.
Yngrid Mozer, psicóloga especialista em Terapia Comportamental Dialética (DBT) complementa que metas factíveis são importantes. “Às vezes, colocamos metas muito utópicas, o que consequentemente a dificuldade e, por vezes, nos estimula a chutar o balde. É importante estabelecer um certo desafio, mas que seja possível de ser realizado, e também estabelecer um prazo. Não existe meta sem prazo. Uma data nos coloca em movimento, nos tira de um espaço de estagnação. Pensar num checklist de verificação e comemorar as pequenas conquistas”, orienta. “Então, vamos considerar que uma meta tem um ano para acontecer, se estamos pensando em resoluções para o próximo ano. Assim, por que não colocar pequenas vitórias e comemorar as conquistas em 2025? Isso também tem um fator importante na hora de não desistirmos das metas”.
De acordo com a professora do curso de Psicologia da Universidade Positivo, Janete Knapik, para que as metas sejam alcançadas, é importante que elas sejam específicas e alcançáveis. “Diante de um mundo em constante mudança e desafios, é fundamental ter metas palpáveis que realmente se cumpram e sejam realistas de acordo com a realidade e objetivo de cada pessoa, além de mapear as possíveis barreiras que podem ser encontradas durante esse caminho de conquistas. Nem todos são previsíveis; um grande exemplo disso ocorreu nos últimos anos, nos quais vivemos em função da pandemia”, explica.
A neurocientista e psicóloga Anaclaudia Zani, especialista em comportamento humano com 30 anos de pesquisa na área, ajuda a entender o porquê isso acontece e como evitar a autossabotagem. Não é falta de disciplina, é o cérebro operando em modo de autoproteção, priorizando hábitos antigos e atalhos mentais já consolidados.
“O cérebro é um processador de informações. Somos nós que mandamos nele, então depende muito de como interpretamos o mundo e vamos narrando pra ele e assim ele vai reagindo. É assim que funciona. Nesse sentido, a procrastinação para o cérebro está muito ligada à crítica da pessoa. O medo da frustração de não sair tão bem feito faz com que ela nem faça. Isso é a tal procrastinação e o que as pessoas precisam entender é que é melhor dar o primeiro passo sem necessariamente ser perfeito, pois tudo tem um processo”, explica Anaclaudia, que é criadora da EITA Mentora Virtual, primeira IA que ajuda as pessoas a racionalizar as emoções.
Janeiro Branco
A proposta da campanha Janeiro Branco vai justamente na contramão da lógica imediatista. Mais do que estabelecer metas superficiais, a iniciativa que visa a saúde mental, convida a um processo genuíno de autoconhecimento. Luti observa que muitos pacientes chegam ao consultório frustrados por não conseguirem manter promessas feitas na virada do ano. “Quando aprofundamos a escuta, aparecem histórias de sobrecarga emocional, lutos não elaborados, relações adoecidas ou anos de negligência com a própria saúde psíquica. Nenhuma dessas questões se resolve da noite para o dia”.
Dentro desse contexto, o Janeiro Branco propõe substituir a promessa pelo compromisso. “Buscar psicoterapia não é sinal de fraqueza, é um ato de responsabilidade emocional. Muitos pacientes descobrem que não precisam se transformar em outra pessoa para viver melhor, precisam apenas se compreender de forma mais profunda e humana”, afirma Luti.
Para este começo de ano, o psicólogo sugere uma reflexão mais cuidadosa. “Talvez a pergunta mais importante não seja ‘o que eu vou mudar?’, mas ‘o que dentro de mim precisa de cuidado agora?’. Quando essa reflexão é feita com seriedade, as mudanças deixam de ser frágeis e passam a ser escolhas sustentáveis”, conclui.
