SaúdeMalformações cardíacas afetam cerca de 30 mil recém-nascidos por ano
Especialistas em cardiologia destacam a importância do diagnóstico precoce, ainda durante o pré-natal, e testes de triagem para salvar vidas e reduzir complicações
Baby visiting the doctor for a checkup (rawpixel.com / Roungroat)
A cada ano, de acordo com o Ministério da Saúde (MS), cerca de 30 mil crianças nascem no Brasil com algum tipo de cardiopatia congênita. Segundo os dados, aproximadamente 40% delas necessitam de cirurgia nos primeiros 12 meses de vida. A condição, considerada uma das principais causas de mortalidade infantil, pode levar até 6% dos bebês a óbito antes de completar o primeiro ano. Para especialistas do coração, as cardiopatias congênitas estão entre os principais desafios da saúde infantil no País.
Apesar dos avanços médicos, milhares de famílias enfrentam, todos os anos, a realidade de um diagnóstico de cardiopatia congênita exige atenção imediata e acompanhamento. Por isso, informações sobre a condição e diagnóstico precoce são aliados fundamentais para salvar vidas.
A pediatra, cardiologista e professora da Faculdade de Medicina Faceres, Marília Maroneze Brun, explica que a cardiopatia congênita é uma malformação no coração presente desde o nascimento. "Pode variar de defeitos simples, que não necessitam de tratamento imediato, até casos graves que exigem cirurgia precoce", alerta. A médica afirma que o impacto da condição é importante. "Porque além da alta incidência, pode comprometer seriamente o desenvolvimento e a qualidade de vida da criança", afirma.
Sinais como dificuldade para mamar, ganho de peso insuficiente, suor excessivo, coloração azulada nos lábios ou nas extremidades, cansaço frequente e dificuldade respiratória merecem atenção especial dos pais para sintomas que podem ser de malformação do coração. "Esses são alertas importantes que não devem ser ignorados. Ao perceber qualquer um deles, é fundamental procurar atendimento médico imediato”, orienta a pediatra.
Diagnóstico
O diagnóstico da cardiopatia congênita pode ser realizado ainda durante a gestação por meio do ecocardiograma fetal – um exame que pode ser feito a partir das 24 semanas, preferencialmente entre a 24ª e a 28ª semana de gestação. O ginecologista, obstetra e professor da Faceres, Gabriel Dumbra, destaca a importância do pré-natal para este diagnóstico precoce. "Durante o acompanhamento gestacional, o ultrassom é essencial para avaliar o desenvolvimento do feto. Em alguns casos, a cardiopatia pode ser identificada já no ultrassom morfológico, mas o exame de maior precisão é o ecocardiograma fetal, fundamental para essa investigação", reforça.
O médico alerta para gestantes com condições como diabetes, as quais devem manter o controle da doença mesmo antes da gravidez. "Para garantir uma gestação mais saudável e com menor risco para o bebê", explica. Já depois do nascimento, o chamado 'teste do coraçãozinho', com oximetria de pulso, também é um exame simples e acessível capaz de indicar alterações que sugerem problemas cardíacos. "Quanto mais cedo identificamos a cardiopatia, maiores são as chances de sucesso no tratamento", reforça a pediatra Marília Maroneze Brun.
Tratamento começa ainda na gestação
O tratamento de crianças portadoras de cardiopatia congênita deve se iniciar já durante a gestação com uma equipe multidisciplinar, com parto programado, idealmente entre 38 e 39 semanas de gestação e em serviço especializado, “como a CardioPedBrasil no Hospital da Criança e Maternidade de Rio Preto”, orienta o cardiologista do Hospital da Criança e Maternidade (HCM) de Rio Preto Carlos Henrique De Marchi.
O especialista alerta que logo ao nascer, além dos cuidados de rotina, muitas das crianças com a condição vão precisar de medicação de infusão venosa para manter aberta a estrutura da circulação fetal chamada de ducto arterial. “Assim ficará estável para realizar os exames necessários e o procedimento cirúrgico ou hemodinâmico (por cateterismo) de acordo com cada caso”.
Casos, por exemplo, em que as grandes artérias do coração (aorta e pulmonar) nascem 'trocados de lado', como na chamada transposição das grandes artérias, ou casos em que uma valva ou câmara cardíaca não se formaram adequadamente, necessitam de cirurgia. “Esses procedimentos cirúrgicos necessitam de abertura do tórax e a maioria deles do auxílio da 'circulação extracorpórea' que funciona como um coração artificial durante a operação”, destaca Carlos Henrique.
Alguns casos, segundo o especialista, podem ser tratados pelo cateterismo cardíaco, "casos de dilatação de valvas pulmonar ou aórtica estenóticas (muito rígidas e apertadas)”, detalha. Crianças portadoras de cardiopatias mais graves, de acordo com o especialista, terão que passar por novos procedimentos durante a vida. "Casos em que um ventrículo (câmara cardíaca que bombeia o sangue) não se formou, irão necessitar de pelo menos dois procedimentos durante a vida", reforça. “Em geral, os resultados são muito bons, com alta taxa de sobrevida e excelente qualidade de vida”, complementa.
Alterações genéticas e hábitos maternos estão entre os fatores de risco
Diário da Região
Os fatores de risco para cardiopatia congênita incluem alterações genéticas, infecções durante a gestação, uso de determinados medicamentos, consumo de álcool ou drogas, além de doenças maternas como diabete. Por isso, o pré-natal é essencial na prevenção e no acompanhamento.
“Embora não possamos evitar todos os casos, medidas como manter o controle de doenças crônicas, evitar substâncias nocivas e realizar os exames recomendados reduzem bastante os riscos”, orienta o obstetra e professor da Faceres, Gabriel Dumbra.
O obstetra reforça ainda que o grande objetivo do pré-natal é justamente detectar precocemente patologias e proporcionar um ciclo gestacional seguro para mãe e a criança. “Os exames laboratoriais, os hábitos de vida saudáveis, o acompanhamento ultrassonográfico e os testes de triagem permitem diagnósticos oportunos e ajudam na escolha do melhor local de nascimento. Isso possibilita a articulação entre as equipes de obstetrícia e pediatria, assegurando desfechos mais positivos e seguros para a mãe e o bebê”, alerta Gabriel.
Apoio
O diagnóstico de cardiopatia congênita compromete a saúde da criança e impacta diretamente na rotina familiar, impondo desafios emocionais e estruturais.“O diagnóstico traz medo e insegurança, e muitas vezes o acesso a serviços de alta complexidade é difícil", afirma Marília Maroneze Brun, pediatra, cardiologista e professora da Faceres.
Por isso, o acompanhamento multidisciplinar é importante. "Envolvendo pediatra, cardiologista, psicólogo, nutricionista, entre outros, é essencial para o bem-estar da criança e da família, conclui Marília.