Com a queda das temperaturas e a baixa umidade do ar, a pele e os lábios ficam reféns de uma das queixas mais frequentes: o ressecamento. O problema pode ser agravado pelo vento, uso de ar-condicionado, banhos quentes e até hábitos aparentemente inofensivos, como passar a língua nos lábios ou lavar o rosto em excesso. Especialistas alertam que manter a barreira de proteção da pele íntegra é fundamental para evitar rachaduras, descamação, coceira e até inflamações.
A dermatologista, mestre e doutora em dermatologia pelo Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP), Bhertha Tamura, explica que, quando o ressecamento traz descamação, deixa a pele fina, esbranquiçada e com coceira, é necessária avaliação. “Se o uso de hidratante não trouxer melhora, já é o primeiro sinal de que precisamos procurar um dermatologista”, alerta. Vermelhidão, manchas ou muita coceira não devem ser minimizados; “certamente há necessidade de avaliação”, orienta.
A dermatologista pós-graduada pelo Hospital Federal de Bonsucesso, Camila Sampaio, explica que a pele possui uma barreira natural para impedir a perda excessiva de água, mas alguns fatores, como tempo seco e frio, comprometem a proteção, “deixando a região mais sensível, áspera e propensa a descamação”, afirma. No caso dos lábios, o cuidado precisa ser ainda mais específico. “Essa região possui uma pele mais fina e com menor quantidade de glândulas sebáceas, o que reduz sua capacidade de produzir a oleosidade necessária para manter a hidratação”, explica.
Por isso, Camila Sampaio reforça que é comum o surgimento de rachaduras, ardência, descamação e sensação de ‘pele repuxando’. E, quando isso acontece, um dos erros comuns, segundo a dermatologista, é tentar amenizar passando a língua. “Apesar da sensação momentânea de melhora, a saliva evapora rapidamente e pode agravar o ressecamento”, alerta. “Também é importante evitar retirar pelinhas soltas, pois esse hábito pode causar pequenas lesões e inflamações”, orienta.
No caso da pele, uma recomendação importante, segundo Camila Sampaio, está relacionada ao banho e à limpeza da pele. “Banhos muito quentes e demorados removem a camada de gordura natural que protege a pele, favorecendo a perda de hidratação”, explica. Já o uso de sabonetes agressivos também pode alterar o equilíbrio da pele, segundo a médica. “Por isso, produtos suaves e indicados para cada tipo de pele são os mais recomendados”, reforça.
A exposição solar também deve ser levada em conta, segundo Camila Sampaio, mesmo em dias frios ou nublados. “Os raios ultravioleta contribuem para o envelhecimento precoce e podem intensificar o processo de ressecamento”, afirma. “Por isso, o protetor solar continua sendo indispensável durante todo o ano”, recomenda. A médica também reforça a importância do consumo de água. “Manter uma ingestão adequada de água, ter uma alimentação equilibrada e observar sinais persistentes de alteração na pele são atitudes que ajudam a preservar a saúde cutânea”, orienta.
Pele oleosa
A médica pós-graduada em dermatologia estética, cirurgia dermatológica e estética avançada, Natasha Veloso, afirma que pele oleosa também pode sofrer nesta época. “Oleosidade e hidratação da pele não são sinônimos, porque podemos produzir um sebo de baixa qualidade pelas glândulas sebáceas, que não contém quantidade suficiente de lipídios e outros componentes capazes de manter a integridade da barreira cutânea e preservar a hidratação adequada da pele”, explica.
É muito comum, segundo Natasha Veloso, pacientes com pele oleosa e, ao mesmo tempo, desidratada. “Muitas vezes, isso está relacionado a hábitos inadequados, como lavar o rosto em excesso”, alerta. A pele leva, segundo a médica, em média, cerca de 12 horas para restabelecer sua barreira natural. “Pessoas que realizam duas ou três lavagens ao dia podem comprometer esse processo”, destaca. O uso de sabonetes antibacterianos para eliminar bactérias e impurezas, também não é benéfico. “Além do uso inadequado de ácidos, retinoides e produtos que contenham peróxido de benzoíla.”
Maquiagem
Uso de maquiagem em excesso pode prejudicar a pele? “Isso realmente acontece, principalmente quando falamos de produtos com formulações de longa duração e alta resistência”, orienta Natasha Veloso. Mas nem todo produto que promete longa duração, possui fixação e acaba funcionando como barreira para perder água. Já produtos verdadeiramente de longa duração, como batons matte, segundo a médica, favorecem a evaporação da água, “contribuindo para o ressecamento”, alerta.
O mesmo pode acontecer com produtos de skincare com retinoides e alfa e beta-hidroxiácidos. “Quando utilizados de forma correta, eles oferecem benefícios importantes para a pele. No entanto, o uso excessivo, prolongado ou em concentrações inadequadas pode causar ressecamento e irritação”, orienta. O ideal, segundo a médica, é remover completamente a maquiagem com demaquilantes suaves, limpeza delicada e hidratação adequada. “No caso dos lábios, que possuem uma pele extremamente sensível, recomenda-se o uso regular de produtos com ativos reparadores, como lanolina, manteiga de karité, ceramidas, ceras e óleos vegetais”, observa.
Tipos de pele
Nas crianças, especialmente nos primeiros anos de vida, segundo Natasha Veloso, a barreira cutânea ainda está em desenvolvimento. “Em geral, a pele produz lipídios naturais de boa qualidade, razão pela qual não há necessidade de utilizar muitos produtos”, afirma. Como essa proteção ainda não está totalmente madura, a pele pode perder água e ficar mais suscetível a irritações. “Por isso, utilizar produtos suaves, hidratantes específicos para a idade e reduzir o tempo de banho”, afirma.
Nos idosos, o processo é inverso. “Com o envelhecimento, a pele torna-se mais fina, frágil e vulnerável; além disso, ocorre uma redução natural da produção de lipídios, da retenção de água e da capacidade de regeneração cutânea”, afirma. Isso favorece o ressecamento, coceira, fissuras e aumenta o risco de infecções. “Nestes casos, hidratantes mais potentes e oclusivos, ricos em ceramidas”, orienta. “Em algumas situações, a ureia em baixa concentração pode ser uma boa opção, além de produtos com glicerina, manteigas vegetais e outros agentes emolientes”, reforça.
Pacientes com diabetes também podem apresentar ressecamento mais intenso devido às alterações na barreira da pele e na circulação. “Nos idosos, esse quadro pode ser agravado pela diminuição da sudorese, que reduz ainda mais a hidratação natural da pele”, afirma Natasha Veloso. Já no hipotireoidismo, a redução dos hormônios da tireoide compromete a renovação celular e a produção de oleosidade. “A pele torna-se mais seca, fria, áspera e sem viço, agravando ainda mais o ressecamento.”


