SaúdeHPV bucal: o que é preciso saber para prevenir
Especialistas explicam como ocorre o diagnóstico, quais são os riscos reais de evolução para câncer e por que a vacinação é uma estratégia essencial de proteção
HPV bucal: o que é preciso saber para prevenir (Freepik/Divulgação)
O HPV (papilomavírus humano) é um vírus que afeta a pele e as mucosas, sendo a infecção sexualmente transmissível mais comum no mundo. Ele é conhecido por sua relação com o câncer de colo do útero, mas sua atuação vai além do trato genital. O vírus pode se alojar também na cavidade oral e na orofaringe, região que compreende estruturas como amígdalas e base da língua. Nos últimos anos, o aumento dos casos de câncer de orofaringe associado ao HPV tem chamado a atenção da comunidade médica.
Recentemente, um caso ganhou repercussão e acendeu o alerta sobre os riscos silenciosos do HPV. Anthony Perriam, morador de Cardiff, no País de Gales, relatou nas redes sociais que esteve prestes a perder a língua após descobrir que um pequeno caroço sob a mandíbula era, na verdade, um câncer. Ao perceber o nódulo no pescoço, ele procurou seu clínico geral. Poucas semanas depois, recebeu o diagnóstico de câncer de cabeça e pescoço associado ao HPV.
Anthony não apresentava outros sintomas além do inchaço cervical, não sentia dor, dificuldade para engolir ou alterações na voz. Ainda assim, exames complementares revelaram a gravidade do quadro. Uma tomografia computadorizada, seguida de biópsia e ressonância magnética, confirmou o diagnóstico em março de 2023.
O caso reforça a importância de investigar qualquer alteração persistente na região do pescoço, mesmo na ausência de outros sinais clínicos. Christiana Vanni, médica especialista em cabeça e pescoço, oncologia e cirurgia robótica, explica que, na prática clínica, não se realiza rastreamento de rotina para HPV oral em indivíduos assintomáticos. Diferentemente do colo do útero, não existe exame validado para triagem populacional do câncer de orofaringe.
O diagnóstico da infecção na região oral ocorre, basicamente, em dois contextos. “O primeiro é quando há lesões benignas visíveis, como papilomas ou verrugas na mucosa. Nesses casos, o diagnóstico é feito por avaliação clínica especializada, seguida de biópsia e exame anatomopatológico. A tipagem viral por PCR pode ser realizada em situações específicas, mas não é rotina para lesões benignas, pois raramente modifica a conduta”.
O segundo cenário, conforme a médica, é a suspeita de câncer de orofaringe, por exemplo, diante de uma lesão infiltrativa na amígdala ou base de língua, ou na presença de linfonodo cervical aumentado sem causa aparente. “Nesses casos, realiza-se biópsia da lesão primária ou punção aspirativa do linfonodo, com estudo anatomopatológico. A pesquisa de p16 por imuno-histoquímica é utilizada como marcador substituto de infecção por HPV oncogênico. Em alguns centros, a confirmação pode ser feita por PCR ou hibridização in situ para DNA do HPV.”
A vacina contra o HPV também protege contra as manifestações bucais associadas aos subtipos de alto risco. “A vacina atual cobre os principais tipos oncogênicos, especialmente o HPV-16, responsável pela maioria dos cânceres de orofaringe relacionados ao vírus. Embora os estudos iniciais tenham sido direcionados ao câncer cervical, evidências acumuladas demonstram redução significativa da infecção oral por HPV-16 em indivíduos vacinados e impacto esperado na diminuição futura da incidência de câncer de orofaringe. Trata-se de uma estratégia de prevenção primária com sólida base científica”, afirma Christiana.
A vacinação contra o HPV é oferecida gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Atualmente, meninos e meninas de 9 a 14 anos recebem a vacina. O cirurgião-dentista Aloizio Premoli Maciel, mestre e doutor em estomatologia e radiologia, afirma que, além da vacina, é importante a conscientização sobre hábitos de higiene básica e a realização de sexo com proteção, utilizando preservativos masculinos ou femininos, incluindo a prática de sexo oral com camisinha, um hábito sexual não praticado no Brasil. “O exame clínico odontológico de rotina, assim como as consultas periódicas ao ginecologista, é uma medida preventiva e de diagnóstico inicial importante e que salva vidas”.
Devido à antecipação da atividade sexual e ao aumento progressivo dos casos de câncer relacionados ao vírus, o SUS iniciou, em 2014, o programa de vacinação contra o HPV. “Inicialmente, o grupo-alvo eram meninas de 9 a 11 anos; atualmente, a vacinação foi estendida para meninos e meninas de 9 a 14 anos (com esquemas de resgate até os 19 anos) em dose única”, afirma.
Para indivíduos imunossuprimidos, como transplantados, pessoas vivendo com HIV e pacientes oncológicos, a vacinação ocorre em três doses. “A vacina quadrivalente disponibilizada pelo SUS protege contra os tipos 6 e 11 (responsáveis por cerca de 90% das verrugas genitais) e os tipos 16 e 18 (de alto risco oncogênico)”, afirma a cirurgiã-dentista Reyna Aguilar Quispe, doutora em estomatologia.
Saiba mais:
O diagnóstico pode ser realizado por meio de biópsia na cavidade bucal e por citologia esfoliativa nos casos uterinos. A remoção completa das lesões é recomendada. Para definir a variante viral, é necessário realizar análises moleculares do material genético do vírus, como o exame de PCR (Reação em Cadeia da Polimerase). Esses procedimentos são geralmente realizados por cirurgiões-dentistas, no caso da boca e orofaringe, e por ginecologistas ou urologistas, quando manifestadas nas genitálias.
Fonte: Aloizio Premoli Maciel e Reyna Aguilar Quispe
HPV além do estigma: o que realmente aumenta o risco de câncer
HPV além do estigma: o que realmente aumenta o risco de câncer (Freepik/Divulgação)
A informação qualificada, aliada à vacinação e ao acompanhamento médico regular, é hoje a principal ferramenta para reduzir o impacto do HPV na saúde da população.
A cirurgiã-dentista Reyna Aguilar Quispe explica que o vírus do HPV é capaz de se alojar em diversos órgãos e tecidos. “As infecções relacionadas ao HPV acometem a pele, principalmente nos dedos das mãos, e as mucosas vaginais, anais, penianas e bucal. Por atingir as regiões íntimas, o HPV carrega o estigma de ser transmitido somente por atos sexuais; porém, apesar de ser considerada uma Infecção Sexualmente Transmissível (IST), também pode ser transmitido por meio de superfícies contaminadas, como talheres e brinquedos, ou pelo contato com lesões ativas.”
O cirurgião-dentista Aloizio Premoli Maciel afirma que a manifestação do HPV ocorre por meio de uma ou várias verrugas. O vírus possui mais de 200 variações. “Dentre esses tipos, alguns podem causar câncer de colo do útero e de orofaringe. As principais variantes associadas ao câncer de colo do útero são os tipos 16, 18, 31, 33, 35, 39, 45, 51, 52, 56, 58, 59, 66 e 68. Já em relação ao câncer de orofaringe, os tipos mais relacionados são o 16 e o 18.”
Câncer
É fundamental esclarecer que nem toda infecção por HPV bucal evolui para câncer. A grande maioria das infecções é transitória e eliminada espontaneamente pelo sistema imunológico em meses. “A progressão para malignidade depende de múltiplos fatores, especialmente da persistência da infecção por subtipos oncogênicos, sobretudo o HPV-16, além de carga viral sustentada e suscetibilidade imunológica individual. A simples presença do vírus não determina evolução maligna”, afirma Christiana Vanni.
Os fatores que aumentam o risco de desenvolvimento de câncer incluem infecção persistente por HPV de alto risco, múltiplos parceiros sexuais ao longo da vida, início precoce da vida sexual, tabagismo, que, mesmo nos tumores HPV-positivos, piora prognóstico, e imunossupressão. “Vale destacar que o perfil epidemiológico mudou nas últimas décadas: muitos pacientes com câncer de orofaringe associado ao HPV não são fumantes e não apresentam o perfil clássico relacionado a álcool e tabaco”, revela a médica.
A importância do diagnóstico precoce das lesões orais por HPV
A cirurgiã-dentista Bruna Thaís de Almeida explica que a informação e o acompanhamento regular são aliados importantes na prevenção e no controle das manifestações orais do HPV. O tratamento odontológico das lesões causadas pelo HPV na cavidade oral começa com o diagnóstico clínico detalhado. Diante da suspeita, o cirurgião-dentista pode indicar a realização de biópsia excisional, procedimento em que a lesão é removida por completo para análise laboratorial e confirmação do diagnóstico, além da avaliação do grau de comprometimento. Na maioria dos casos, as lesões são indolores.
O tratamento, segundo Bruna, é, principalmente, local e cirúrgico. A remoção pode ser feita por meio de bisturi convencional, laser, eletrocautério ou crioterapia. Além de eliminar a lesão visível, o procedimento tem como objetivo confirmar o diagnóstico e reduzir a carga viral presente na região. Após a intervenção, alguns cuidados são fundamentais para garantir boa recuperação, como manter higiene oral adequada, utilizar antissépticos bucais à base de clorexidina 0,12%, controlar as infecções e realizar acompanhamento periódico com o profissional.
Em situações com múltiplas lesões ou quando há comprometimento do sistema imunológico, pode ser necessário tratamento sistêmico, segundo Bruna. Nesses casos, o paciente pode ser encaminhado para avaliação médica, incluindo infectologista ou dermatologista, além de passar por monitoramento imunológico. Embora não exista antiviral específico capaz de eliminar o HPV, o próprio sistema imunológico pode controlar o vírus.
O papel do cirurgião-dentista, de acordo com a cirurgiã-dentista Bruna Thaís, é fundamental em todas as etapas do cuidado. Cabe a ele o diagnóstico precoce, a identificação de lesões suspeitas, a realização de biópsias e a remoção das alterações. O profissional também atua na prevenção, orientando sobre práticas seguras, como o uso de preservativo durante o sexo oral, e no acompanhamento contínuo para monitorar possíveis recidivas.
Bruna afirma ainda que as primeiras manifestações da infecção pelo HPV surgem, aproximadamente, entre 2 a 8 meses, mas pode demorar até 20 anos para aparecer algum sinal da infecção. As manifestações costumam ser mais comuns em gestantes e em pessoas com imunidade baixa. O diagnóstico do HPV é atualmente realizado por meio de exames clínicos e laboratoriais. Geralmente, as lesões se manifestam na cavidade oral, por isso, é importante avaliação com um dentista. Depois, a infecção se manifesta na genitália, sendo necessário acompanhamento com ginecologista fazendo exame Papanicolau e Urologista quando acometido em meninos ou homens. O índice de HPV aumenta 45% após o Carnaval pela troca de beijo e sexo oral sem camisinha, segundo a Agência Nacional de Saúde.
Conscientização: quatro pilares estratégicos
O primeiro é compreender que vacinação é a prevenção de câncer. A vacina é segura, eficaz e representa medida concreta de redução de risco oncológico.
-O segundo é a orientação sobre sexo seguro. O HPV é transmitido principalmente por contato direto pele-mucosa durante atividade sexual, incluindo sexo oral. Não é necessária penetração para ocorrer contaminação; o contato íntimo é suficiente para transmissão. O uso de preservativos e barreiras de proteção reduz significativamente o risco, embora não o elimine completamente, já que o vírus pode estar presente em áreas não cobertas. Falar sobre práticas sexuais seguras deve ser parte natural das estratégias de saúde pública.
O terceiro ponto é reduzir o estigma. O HPV é uma das infecções sexualmente transmissíveis mais comuns no mundo, e a maioria das pessoas terá contato com o vírus ao longo da vida. Trata-se de uma condição frequente, ligada à dinâmica natural da vida sexual, e não a comportamentos específicos.
Por fim, o diagnóstico precoce impacta diretamente o prognóstico. Sintomas persistentes como dor ao engolir, sensação de corpo estranho, alteração vocal ou aumento de linfonodos cervicais devem ser avaliados precocemente. O câncer de orofaringe associado ao HPV, quando diagnosticado em estágios iniciais, apresenta altas taxas de controle e melhor preservação funcional.
Fonte: Christiana Vanni, médica especialista em cabeça e pescoço