O Brasil avança de fases na Copa do Mundo 2026 e, junto com a emoção das arquibancadas, bares e salas de estar por cada lance e gol, está um detalhe importante: os riscos para a saúde da voz. Especialistas alertam que gritar, cantar e falar alto por horas podem causar rouquidão, dor na garganta, inchaço e irritações. Embora a maioria dos quadros seja temporária, o abuso pode causar lesões sérias, como nódulos, pólipos e até sangramentos. A boa notícia é que medidas simples, como hidratação e períodos de descanso, protegem a voz sem deixar a paixão pelo futebol de lado.
O otorrinolaringologista Henrique Furlan explica que as pregas vocais são estruturas musculares recobertas com mucosa que vibram em diversas frequências para produzir a voz. “Quando gritamos repetidamente, especialmente com intensidade e em frequências mais altas ou mais graves do que o habitual, submetemos esse tecido a um trauma mecânico contínuo”, alerta. Com isso, podem surgir problemas imediatos na saúde vocal, como edemas (inchaços), “reversíveis em alguns dias com repouso”, afirma.
O risco maior, conforme o médico, está na repetição. “Gritos intensos ao longo de uma ou mais partidas podem evoluir para hemorragia intracordal (sangramento dentro da prega vocal) ou, com o tempo, para o surgimento de nódulos vocais, lesões fibrosas que, diferentemente do edema, podem exigir tratamento fonoaudiológico prolongado ou até microcirurgia”, ressalta. Em pessoas com a voz saudável, no entanto, segundo o médico, o risco de sequela permanente é baixo. “O problema aparece quando o esforço é repetido sem recuperação adequada”, complementa.
Mas quando a rouquidão passa a ser um sinal de alerta? Henrique Furlan destaca que a rouquidão pós-jogo, por si só, não é alarmante; o alerta é quando persiste. “Qualquer rouquidão que dure mais de três semanas deve ser investigada”, afirma. Em casos de dor ao falar ou engolir, sensação de corpo estranho na garganta, engasgos, perda súbita da voz, presença de sangue ao expectorar ou qualquer dificuldade para respirar, há necessidade de ajuda imediata. “Esses sintomas podem indicar hemorragia intracordal ou outra lesão que piora com o uso continuado da voz e, quanto antes tratada, menor a chance de evolução para algo permanente”, complementa o especialista.
Fatores de risco
A fonoaudióloga da Unimed MultiTEA de Rio Preto, Paula Sizenando Sanches, lembra que ambientes barulhentos, com apitos, cornetas e sons em volume alto, favorecem o uso maior da voz, sem a pessoa perceber. “O álcool também pode piorar esse quadro por favorecer a desidratação e reduzir a percepção do esforço vocal”, reforça. Já a baixa ingestão de água deixa a mucosa das pregas vocais menos lubrificada. “O que aumenta o impacto durante a fala ou o grito”, alerta a médica.
O médico otorrinolaringologista da Unimed Rio Preto, Atilio Maximino Fernandes, acrescenta as comidas gordurosas como fator de risco. “Geralmente essas comemorações estão associadas ao uso abusivo de álcool e muitas vezes, a alimentos gordurosos, fritos, aperitivos, o que faz com que aumente o refluxo fisiológico. Outro fator que pode agravar e causar uma agressão à mucosa da prega vocal”, explica. Associações que, somadas aos gritos, podem causar lesões. “Esse conjunto muitas vezes danifica de forma aguda a estrutura da prega vocal como um todo”.
Cuidados
A hidratação é de grande importância na hora de torcer pela seleção. “As pregas vocais precisam, portanto, estar bem lubrificadas para vibrar com mais facilidade e menos atrito”, orienta a fonoaudióloga Paula Sizenando. O ideal, segundo Paula Sizenando, é não esperar ter sede para se hidratar. “Beber água ao longo do dia ajuda a manter a voz mais confortável, principalmente se a pessoa vai falar, cantar ou gritar bastante”, reforça. Outra dica é intercalar água com bebida alcoólica. “A voz responde melhor quando o corpo inteiro está bem hidratado”.
O fonoaudiólogo e especialista em voz Marcelo Brim Gomes acrescenta outros cuidados. “É possível também fazer inalação e neutralização com soro fisiológico para aqueles que conseguem e observar esse excesso de grito”.
Outra recomendação do médico é o cuidado com a mudança brusca de temperatura nesses dias frios. “Procurar assistir aos jogos dentro de casa, num ambiente mais acolhedor e mais aconchegante”, orienta. Em ambientes abertos, se possível, usar toucas. “Pois a neblina é muito grande, estamos num período de frio, quando os vírus estão atormentando toda a população”, complementa.


