“Conviver com dor todos os dias muda completamente a forma como você enxerga a vida. Eu acordava cansada, com o corpo travado, sem saber como seria o resto do dia.” O relato é da corretora de seguros Gabrieli Dantas, 52 anos, diagnosticada com fibromialgia há 12 anos. Durante muito tempo, ela precisou lidar não apenas com as dores crônicas, mas também com o cansaço extremo, as noites mal dormidas e a sensação constante de incompreensão. “O Pilates foi um divisor de águas para mim. Não curou a doença, mas me devolveu movimento, autonomia e, principalmente, esperança”, conta.
A experiência de Gabrieli reflete a realidade de milhões de brasileiros que convivem com a fibromialgia – uma síndrome crônica, invisível aos olhos, mas profundamente incapacitante. Estima-se que entre 6 e 7 milhões de pessoas vivam com a condição no Brasil, a maioria mulheres entre 30 e 60 anos. Caracterizada por dor musculoesquelética difusa, fadiga intensa, distúrbios do sono, alterações cognitivas e impacto emocional significativo, a doença afeta diretamente a qualidade de vida, a rotina profissional e as relações pessoais.
Em julho de 2025, esse impacto passou a ser oficialmente reconhecido. O Senado aprovou o Projeto de Lei nº 3.010/2019, que equipara pessoas com fibromialgia — assim como aquelas com síndrome da fadiga crônica e síndrome complexa de dor regional às Pessoas com Deficiência (PcD). A medida garante acesso a direitos como cotas em concursos públicos e isenção de IPI na compra de veículos, reforçando o entendimento de que essas condições crônicas limitam de forma significativa a vida do cidadão. No caso das mulheres, os prejuízos se estendem também à saúde ginecológica e ao bem-estar emocional.
Para a fisioterapeuta Luciana Geraissate, especialista em reabilitação funcional, dor crônica e Pilates clínico, o cuidado precisa ir além do controle da dor. “Durante muito tempo, o tratamento se concentrou apenas no sintoma físico. Hoje sabemos que a fibromialgia está profundamente ligada a fatores emocionais, como estresse, ansiedade e esgotamento mental. Por isso, a abordagem deve ser integrativa e, acima de tudo, humanizada”, explica.
Nesse contexto, cuidar da saúde mental tem se destacado como um importante aliado. Dados da Faculdade de Medicina da USP indicam que cerca de 30% dos pacientes com fibromialgia desenvolvem quadros de ansiedade ou depressão. “É uma dor que não aparece em exames e, muitas vezes, não é validada socialmente. A escuta ativa e o acolhimento são fundamentais para que o paciente se sinta respeitado e para que o tratamento funcione”, reforça a fisioterapeuta.
Segundo o médico Marcelo Jerez, diretor do One Day Hospital e da Clínica Alphaview, a fibromialgia pode ser confundida com outras doenças justamente por não apresentar marcadores laboratoriais específicos. “Dor constante, fadiga extrema e distúrbios do sono são sinais de alerta que não devem ser ignorados. Quanto mais cedo o diagnóstico é feito, maiores são as chances de controlar os sintomas”, afirma. Ele destaca ainda a importância do tratamento multidisciplinar: “O paciente precisa de um plano individualizado para retomar suas atividades diárias com menos dor e mais qualidade de vida”.

