Procedimento que valoriza o olhar requer higiene rigorosa e atenção a coceira, vermelhidão, inchaço e dor; falta de cuidado pode favorecer complicações
Extensão de cílios: beleza que exige cuidado (Magnific/Divulgação)
Elas emolduram o olhar, alongam os fios e dispensam parte da maquiagem no dia a dia: as extensões de cílios se tornaram um dos procedimentos mais procurados nos salões de beleza, mas, por trás da praticidade, há cuidados que vão muito além da estética. Cola, vapores, resíduos de maquiagem e oleosidade podem provocar irritações e inflamações quando não há técnica e falta higiene durante e após o procedimento.
Isso porque os cílios naturais têm uma função crucial na proteção dos olhos. O médico oftalmologista Rafael Antonio Barbosa Delsin explica que os cílios funcionam como uma barreira altamente eficiente na proteção dos olhos. “Criam um escudo contra poeira, partículas em suspensão, vírus e bactérias, além de ativarem o reflexo de piscar”, afirma. “Quando algo interfere nessa estrutura, seja cola ou produtos tóxicos, o equilíbrio natural da superfície ocular se rompe”, complementa.
Dentro desse mecanismo natural, o oftalmologista afirma que as reações alérgicas são uma das complicações mais frequentes relacionadas às extensões. “A cola utilizada pode irritar a pele da pálpebra, principalmente se a pessoa tem histórico de alergia, e, além disso, o adesivo pode inadvertidamente estar em contato direto com a superfície ocular e causar inflamação”, alerta.
Entre as inflamações mais comuns está a blefarite. “Isso ocorre porque o acúmulo de resíduos impede o funcionamento das glândulas que ficam nos folículos dos cílios. Essa obstrução pode causar vermelhidão, coceira e favorecer o aparecimento de terçol”, esclarece. Por isso, segundo Rafael Delsin, é essencial saber a qualidade e a procedência da cola utilizada. “Algumas liberam formaldeído, um composto reconhecidamente cancerígeno”, orienta.
Ácaros
A extensão de cílios não cria ácaro. No entanto, uma das complicações do procedimento é o desequilíbrio do Demodex folliculorum – um ácaro microscópico que vive naturalmente nos folículos dos pelos e faz parte da microbiota da pele. “O problema pode surgir quando há aumento da população desses organismos, situação associada à blefarite por Demodex. A condição pode provocar coceira, vermelhidão, ardência e descamação na raiz dos cílios”, explica Rafael Delsin.
Olho seco
O uso contínuo da extensão pode provocar olho seco? “Pode piorar o olho seco, principalmente em quem já tem alguma predisposição”, afirma oftalmologista Carlos Eduardo Cury Junior. “Quando há extensões muito grandes, pesadas ou volumosas, elas podem interferir um pouco no piscar normal e na distribuição da lágrima”, esclarece.
Além do olho seco, o médico ressalta que outro problema recorrente com extensão é a falta de higiene por medo de estragar os fios. “Com isso, começam a acumular resíduos, maquiagem e oleosidade na borda das pálpebras, o que pode favorecer blefarite e piorar os sintomas de olho seco”, alerta. “Então não quer dizer que toda pessoa que coloca extensão vai ter olho seco, mas quem já sente ardência, olho vermelho ou sensação de areia precisa ter mais cuidado”, reforça Carlos Eduardo.
Cuidados antes, durante e depois
Cuidados antes, durante e depois (Magnific/Divulgação)
O primeiro cuidado para evitar complicações com a extensão de cílios, segundo o oftalmologista Carlos Eduardo, é fazer a escolha correta da profissional e do local onde o procedimento será feito. “Higiene e qualidade dos produtos fazem muita diferença”, afirma. Em seguida, o médico afirma que, durante a aplicação, o olho deve permanecer bem fechado. “E a cola não deve entrar em contato com a superfície ocular”, orienta.
Depois do procedimento, é imprescindível manter a higiene das pálpebras. “Muita gente acha que não pode lavar a região, mas isso não é verdade. A limpeza deve continuar, só que de forma delicada”, recomenda. Extensões muito pesadas também devem ser evitadas. “Não esfregar os olhos e nunca tentar retirar os cílios em casa usando produtos inadequados”, recomenda.
Cuidados
A lash designer e micropigmentadora, Patricia Bordinhão, explica que os cuidados no salão para extensão de cílios começam antes da aplicação. “Primeiro analisamos os fios naturais, depois higienizamos com shampoo próprio e pincel para a remoção de maquiagem, poeira, oleosidade e depois finalizamos a higiene, primer e isolamos os cílios”, afirma.
Depois da higienização e isolamento dos fios naturais, Patrícia afirma que inicia o procedimento de aplicação. “Acoplamos os fios paralelos aos fios naturais com uma distância de mais ou menos 0,5 a 1 mm da pálpebra para não agredir a pele”, afirma. A lash designer afirma que também verifica se o olho está totalmente fechado, “para evitar ardência ou contato com o adesivo na córnea”, ressalta.
Depois da aplicação, segundo Patrícia, há outros cuidados. “Após o procedimento, utilizamos o nano mister ou ventilador para fazer a polimerização da cola e aplicamos ao final o finalizador, que acelera a cura do adesivo”, reforça. Ao sair do salão, a cliente precisa seguir uma rotina de cuidados para preservar tanto a extensão quanto a saúde dos fios naturais. “Evitar molhar nas primeiras 24 horas, higienizar diariamente com shampoo neutro infantil ou o shampoo específico e, para maior durabilidade, não deve usar produtos oleosos ou demaquilantes”, afirma.
Pentear os fios diariamente com a escovinha própria, fazer a manutenção a cada 15 ou 20 dias também são recomendações, além da higiene contínua. “Muitas clientes ficam com medo de lavar, pois acham que os fios caem e assim podem juntar resíduos (maquiagem, poeira) e causar proliferação de ácaros e muitas vezes infecções”, alerta. Segundo Patrícia, produtos oleosos derretem a cola e fazem os fios caírem mais rápido. “Esfregar ou coçar os olhos pode arrancar os fios naturais”, conclui.
Quando procurar atendimento médico?
Quando procurar atendimento médico? (Magnific/Divulgação)
É importante diferenciar uma sensibilidade passageira dos sintomas que indicam que algo pode estar errado. “Um pouco de sensibilidade logo depois da aplicação pode acontecer, mas dor, ardência forte, vermelhidão intensa, coceira persistente, inchaço importante das pálpebras ou sensação de areia no olho não são sinais para ignorar”, orienta o oftalmologista Carlos Eduardo Cury Junior.
Além de dor intensa, sensibilidade à luz, visão embaçada, secreção ou qualquer queda da visão, também exigem atendimento médico. “Nesses casos, pode existir uma irritação mais importante da superfície ocular ou até algum comprometimento da córnea”, alerta Carlos Eduardo.
O especialista também alerta contra a automedicação. “Não sair usando colírio por conta própria, especialmente os que têm antibiótico ou corticoide”.
Principais riscos:
Irritação e alergia
Blefarite (inflamação das pálpebras)
Olho seco
Conjuntivite e ceratoconjuntivite
Pequenas erosões na córnea
Terçol
Acúmulo de resíduos e oleosidade
Desequilíbrio do ácaro Demodex
Sintomas:
Coceira persistente
Vermelhidão intensa
Ardência forte
Inchaço das pálpebras
Sensação de areia nos olhos
Secreção
Dor
Sensibilidade à luz
Visão embaçada ou redução da visão
Cuidados:
Procure profissional qualificada
Verifique higiene do local e dos materiais
Certifique-se da procedência do adesivo
Os olhos devem permanecer totalmente fechados
A cola não deve entrar em contato com os olhos
Evite extensões muito pesadas ou volumosas
Pós-extensão
Higienize os cílios diariamente
Use produto adequado e de forma delicada
Evite produtos oleosos
Não esfregue nem coce os olhos
Não tente retirar a extensão em casa
Penteie os fios com escovinha própria
Faça a manutenção regularmente
Fontes: Rafael Antonio Barbosa Delsin e Carlos Eduardo Cury Junior (médicos oftalmologistas)