A morte da maquiadora Roseli Fernandes de Oliveira Romeiro Vieira, de 48 anos, após realizar um preenchimento nos glúteos com PMMA, em São Paulo, reacendeu o alerta sobre os riscos envolvidos em procedimentos estéticos com a substância. O caso, ocorrido no final de maio, soma-se a outros relatos recentes de complicações graves relacionadas ao uso do polimetilmetacrilato, principalmente em aplicações corporais como glúteos, rosto e lábios.
Classificado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) como substância de classe IV, categoria de risco máximo, o PMMA possui indicação médica bastante restrita. Ainda assim, especialistas afirmam que o produto acabou sendo banalizado como alternativa para aumento corporal e remodelamento estético.
Segundo o cirurgião plástico Josué Montedonio, o grande problema está justamente na falsa percepção de segurança em torno do procedimento. “O PMMA existe e pode ser utilizado em situações muito específicas, por profissionais habilitados e em pequenos volumes. O problema é que ele acabou sendo banalizado como se fosse uma solução simples, rápida e definitiva para aumento corporal, principalmente de glúteo, lábios e outras regiões”, explica.
Diferentemente de substâncias absorvíveis utilizadas em preenchimentos modernos, o PMMA permanece no organismo de forma permanente. E é justamente essa característica que torna as complicações mais complexas e difíceis de tratar. “O fato de ele não ser absorvido é que torna esse tema tão controverso. Quando surge uma complicação, não estamos falando de algo que vai desaparecer com o tempo. O produto permanece no organismo e pode causar um problema complexo, de difícil tratamento”, afirma Montedonio.
Entre as complicações mais graves associadas ao uso do PMMA estão inflamações crônicas, formação de granulomas, endurecimento dos tecidos, dores persistentes, infecções, deformidades, necrose e migração da substância para outras regiões do corpo.
Em alguns casos, os problemas podem surgir anos depois da aplicação. “O organismo pode tolerar o PMMA durante anos e, de repente, após uma alteração imunológica, um trauma ou uma infecção, começar a reagir contra aquela substância. Por isso muitas pessoas acreditam que deu tudo certo, mas as complicações aparecem muito tempo depois”, explica o cirurgião plástico.
Alerta
Outro risco importante é a possibilidade de desenvolvimento de hipercalcemia, excesso de cálcio no sangue, e insuficiência renal. Segundo o cirurgião plástico Fernando Amato, isso acontece devido ao processo inflamatório provocado pela substância. “Os preenchedores definitivos, como é o caso do PMMA, por serem substâncias estranhas ao corpo, podem causar formação de biofilme e inflamação local crônica, além de aumentar a possibilidade de infecção, que, se não tratada adequadamente, pode levar a complicações mais graves”, explica.
O especialista detalha que o organismo pode produzir uma enzima que aumenta a conversão da vitamina D, elevando os níveis de cálcio no sangue. “Essa vitamina D convertida pode ocasionar a hipercalcemia, que é o excesso de cálcio no sangue que será absorvido pelo intestino e o cálcio retirado dos ossos. Esse aumento do cálcio pode interferir no funcionamento adequado dos rins, com formação de cálculos, podendo evoluir até para a insuficiência renal”, alerta Amato.

