Dizer “não” pode parecer uma resposta simples, mas, para muitas pessoas, envolve culpa, medo de decepcionar, receio de conflitos e até a sensação de estar sendo egoísta. A dificuldade em estabelecer limites pode aparecer nas relações familiares, afetivas, nas amizades e também no ambiente profissional, especialmente entre aqueles que aprenderam a colocar as necessidades dos outros sempre à frente das próprias.
A psicóloga e sexóloga Walkíria Fernandes, especialista em terapia cognitivo-comportamental e terapia comportamental Integrativa para casais, afirma que estabelecer limites não significa ignorar o outro. Ao contrário, é uma forma de reconhecer as próprias necessidades sem desrespeitar as pessoas ao redor. “Dizer ‘não’ não é egoísmo. É uma forma de reconhecer os próprios limites e assumir responsabilidade por eles. Ser individualista é considerar apenas as próprias necessidades, ignorando sistematicamente as do outro. Colocar limites é diferente: significa cuidar de si sem desrespeitar o outro.”
A especialista explica que parte dessa dificuldade está relacionada ao aprendizado construído ao longo da vida. Muitas pessoas associam disponibilidade permanente a amor, generosidade ou bondade e passam a evitar conflitos e a necessidade de decepcionar alguém. “Muitas pessoas foram ensinadas a agradar, evitar conflitos e não decepcionar. Por isso, quando começam a se posicionar, sentem culpa.”
A psicanalista e especialista em reprogramação mental, Elainne Ourives, também relaciona a dificuldade de dizer “não” a experiências emocionais construídas desde a infância. “Há pessoas que aprenderam, desde muito cedo, que, para receber amor, precisavam agradar. Outras descobriram que ser obediente, não contrariar, não causar problemas ou atender às necessidades dos outros era uma maneira de receber aprovação. Existem ainda aquelas que cresceram em ambientes nos quais expressar uma vontade diferente gerava conflito, crítica, afastamento ou punição.”
Esse aprendizado pode permanecer na vida adulta e fazer com que uma pessoa aceite compromissos, pedidos e situações que ultrapassem sua capacidade ou seus desejos. Para Elainne, por isso, não basta ensinar alguém a simplesmente se impor: é preciso compreender o que o “não” representa emocionalmente para cada indivíduo. “Diante de uma pessoa que não consegue dizer ‘não’, não basta ensinar uma frase pronta. Precisamos perguntar: ‘O que esse não representa emocionalmente para ela?’. Para alguém, dizer ‘não’ significa correr o risco de ser rejeitado. Para outro, significa sentir culpa. Para outro, significa deixar de ser considerado uma ‘boa pessoa’. Para outro, significa enfrentar um conflito que passou a vida evitando.”
A culpa depois do ‘não’
Mesmo quando a pessoa reconhece que precisa estabelecer um limite, o sentimento de culpa pode aparecer. “Primeiro, é importante entender que sentir culpa não significa necessariamente ter feito algo errado. Quem passou muito tempo buscando aprovação pode sentir culpa simplesmente por começar a se posicionar. O desconforto faz parte do processo de mudança", afirma Walkíria.
A especialista Walkíria chama a atenção para uma diferença importante: desagradar alguém não é o mesmo que fazer algo errado. “Em vez de perguntar apenas ‘como faço para não me sentir culpado?’, vale perguntar: ‘Eu fiz algo errado ou apenas fiz algo que o outro não queria?’ Essa diferença é fundamental.” Também é preciso aceitar que, às vezes, colocar um limite vai decepcionar alguém. “E isso não significa que o limite esteja errado. Não somos responsáveis por impedir que todos ao nosso redor sintam frustração. Relacionamentos maduros precisam sobreviver ao ‘não’.”
Para Elainne, a reação emocional diante de um limite também pode revelar padrões antigos. Ela explica que existe diferença entre compreender racionalmente a necessidade de dizer “não” e conseguir agir de acordo com esse entendimento. “Porque existe uma diferença enorme entre saber racionalmente alguma coisa e estar emocionalmente programado para agir de acordo com esse conhecimento.”
Elainne resume a contradição em situações comuns. “Quantas vezes sabemos exatamente o que deveríamos fazer e, mesmo assim, fazemos o contrário? Sabemos que deveríamos descansar, mas continuamos trabalhando. Sabemos que determinada relação nos faz mal, mas permanecemos nela. Sabemos que deveríamos estabelecer um limite, mas, quando chega o momento de falar, alguma coisa dentro de nós trava.”

