Em meio à correria cotidiana, à oferta abundante de alimentos ultraprocessados e às soluções rápidas que dominam prateleiras e aplicativos de entrega, cresce o interesse por um caminho oposto: o da chamada comida de verdade. Preparações simples, com poucos ingredientes, baseadas em alimentos in natura ou minimamente processados, voltam a ocupar espaço na mesa e no discurso de profissionais da saúde como estratégia concreta de cuidado, prevenção e equilíbrio.
Para a nutricionista Fabiane Oliveira, esse movimento não surge por acaso. “Está diretamente ligado ao aumento expressivo dos índices de sobrepeso e obesidade observado nos últimos anos, tanto no Brasil quanto no mundo. Esse crescimento caminha com um maior consumo de alimentos ultraprocessados, que são práticos e muito presentes na rotina, mas também ricos em açúcar, gorduras de baixa qualidade, sódio e aditivos, o que contribui para o ganho de peso e para o aumento das doenças crônicas não transmissíveis, como diabetes, hipertensão e doenças cardiovasculares”.
Segundo ela, diante desse cenário, há uma mudança de percepção. “As pessoas estão percebendo que comer bem não precisa ser complicado e que voltar a preparações simples, com poucos ingredientes e alimentos mais naturais, é uma forma eficaz de cuidar da saúde a longo prazo”.
Fabiane também observa uma transformação na forma como saúde e alimentação são compreendidas. “Ao mesmo tempo, vivemos uma fase em que a busca por saúde ainda se mistura muito com a busca pela magreza. Durante anos, saúde foi associada apenas ao peso corporal, e isso influenciou escolhas alimentares baseadas em restrição e controle. Hoje, percebo um certo amadurecimento: muitas pessoas estão cansadas de dietas extremas e promessas rápidas e começam a entender que cuidar da saúde passa por constância, equilíbrio e uma relação mais simples e sustentável com a comida”.
Do ponto de vista nutricional, a chamada comida de verdade tem definição clara. “Ela é composta principalmente por alimentos in natura ou minimamente processados, aqueles que a gente reconhece pela origem e pelo nome: arroz, feijão, legumes, verduras, frutas, ovos, carnes, grãos e azeite, por exemplo. São alimentos com poucos ingredientes, sem aditivos artificiais e que fazem parte da nossa cultura alimentar”, explica Fabiane.
Os benefícios, segundo ela, vão além do prato. “Esse tipo de alimentação oferece mais fibras, vitaminas, minerais, além de conter menos sódio e gorduras prejudiciais. Isso contribui para melhor saciedade, funcionamento intestinal, controle glicêmico e saúde cardiovascular, além de ajudar na prevenção de doenças crônicas como diabetes, hipertensão e doenças do coração”, alerta Fabiane.
Há ainda reflexos no comportamento alimentar. “Além disso, há um impacto importante no sistema de recompensa do cérebro. Quanto maior o consumo de alimentos ultraprocessados, maior tende a ser o desejo por esse tipo de alimento, criando um ciclo de busca por estímulos cada vez mais intensos. A comida de verdade, por outro lado, ajuda a regular esse sistema, favorecendo uma relação mais equilibrada com a comida e reduzindo a necessidade constante de estímulos alimentares”, afirma a nutricionista Fabiane.
A nutricionista integrativa Flávia Pinto Cesar reforça que a valorização da comida de verdade dialoga diretamente com o ritmo acelerado da vida moderna. "A vida moderna pede equilíbrio entre uma rotina corrida ao mesmo tempo, em que queremos mais qualidade de vida e longevidade saudável, para tanto; o retorno a comida de verdade nos pede praticidade e planejamento”.
Para ela, esse retorno também tem dimensão afetiva e cultural. “A valorização da chamada comida de verdade e do retorno ao simples, surge quase como uma resposta natural e necessária à saúde e resgate de relações saudáveis”.
Flávia destaca que falar de simplicidade é falar do básico. “Quando falamos em pratos simples, nos referimos ao que é básico como a volta do arroz e feijão, das verduras e legumes da horta, das carnes e proteínas e não carnes ultra processadas; também nos referimos ao doce sabor das frutas in natura em substituição aos produtos industrializados e açucarados”.
Segundo ela, esse resgate passa pela memória alimentar. "A volta ao simples se refere a voltar a comer comida que nossos avós comiam, na sua forma mais próxima ao natural, o que quer dizer minimamente processados, evitando-se a carga de corantes, acidulantes, conservantes, falta de fibras, excesso de açúcar, de sódio, de gorduras vegetais hidrogenadas, enfim, alimentos nutricionalmente empobrecidos”.
Para a nutricionista, o desafio não está na falta de tempo, mas na falta de organização. “E quanto mais corrido é o dia a dia, maior é a necessidade de receitas práticas, fáceis de executar, ao mesmo tempo, que fujam dos produtos alimentícios instantâneos”. Ela reforça que o planejamento é a chave para comer de forma saudável, mesmo se tratando de preparo de pratos simples. “Definir do cardápio básico da semana, elaborar a lista de compras, deixar legumes, frutas e verduras pré-higienizados e muitas vezes até pré-preparados”.
Ao alertar sobre erros comuns, Flávia chama atenção para confusões frequentes. "Um erro comum é quando as pessoas confundem simplicidade com viver a base da improvisação ou de preparações alimentícias instantâneas." Segundo ela, a promessa de praticidade pode esconder armadilhas. " Ao querer simplificar, um grande equívoco é substituir a comida de verdade por produtos ultra processados que prometem rapidez, mas entregam pouco em termo de nutrientes."


