A cada seis minutos, em média, uma pessoa morre no Brasil vítima de um "assassino" silencioso: o acidente vascular cerebral, também conhecido como AVC, isquemia ou derrame. Dados do Centro de Registro Civil apontam que o AVC é responsável por 235 mortes no País todos os dias. Em 2025, segundo os números, 85.857 brasileiros morreram por AVC, um "assassino" que conta com "cúmplices" como hipertensão, obesidade, diabetes e colesterol alto. Ele ocorre, principalmente, de forma súbita e, em muitos casos, silenciosa.
O AVC é uma alteração no fluxo sanguíneo cerebral que compromete a circulação de sangue em uma região do encéfalo composto pelo cérebro, cerebelo e tronco encefálico. O AVC isquêmico, responsável por cerca de 85% dos casos, ocorre quando há falha na irrigação sanguínea do cérebro, geralmente causada por um coágulo ou pela obstrução de um vaso por acúmulo de placas.
A cardiologista e mestre em Ciências da Saúde, Natasha Casteli, explica que, nestes casos, geralmente, o AVC ocorre de forma súbita e silenciosa. “Representa a consequência de um processo silencioso que se desenvolveu ao longo de muitos anos, antes mesmo dos primeiros sintomas”, alerta. Segundo a cardiologista, é comum encontrar pacientes com AVCi que acreditavam estar saudáveis por falta de sintomas. “Esse é um dos aspectos mais desafiadores”, destaca.
Condições de saúde como hipertensão arterial, diabetes, colesterol elevado e algumas arritmias cardíacas são causas silenciosas de AVCi, segundo a especialista. “Doenças que podem evoluir de forma silenciosa, promovendo danos progressivos aos vasos sanguíneos e aumentando o risco de complicações graves”, diz Natasha Casteli.
Entre as comorbidades mais ameaçadoras de AVCi, segundo a cardiologista, está a pressão alta. “Ainda hoje, permanece como uma das condições mais negligenciadas no cotidiano, justamente por permanecer assintomática durante anos”, ressalta. Segundo Natasha Casteli, muitas pessoas descobrem a pressão alta apenas após uma complicação. “Em alguns casos, o AVC acaba sendo esse primeiro sinal de alerta.”
Já o AVC hemorrágico é uma condição mais rara, porém mais grave, e que pode levar o paciente ao coma. Nestes casos, há, em geral, uma ruptura de pequenas artérias por conta também de pressão alta ou malformação vascular. “Os hemorrágicos representam aproximadamente 20%”, explica o neurocirurgião Orlando Maia.
Sintomas de emergência
Os sintomas de emergência de um AVC incluem fraqueza ou formigamento no rosto, braço ou perna, especialmente de um lado do corpo; boca torta ao conversar; confusão mental, alteração da fala ou fala enrolada; embaçamento ou visão dupla, em um ou nos dois olhos; tontura, falta de equilíbrio para andar e dor de cabeça intensa. Sintomas que exigem atendimento médico imediato. “Ligue imediatamente para o 192 (Samu) ou para o serviço de ambulância de emergência”, orienta a neurologista vascular e especialista em AVC, Maramelia Miranda.
Quando um familiar ou amigo levar a pessoa até o atendimento médico, a recomendação é ir direto a um hospital. “Não adianta levar a pessoa com suspeita de um AVC a uma UBS, postinho de saúde ou UPA. Tem que ir a um local com estrutura de atendimento ao AVC”, ressalta a neurologista.
Sequelas
O Acidente Vascular Cerebral (AVC), segundo a Sociedade Brasileira de AVC (SBAVC) é a segunda doença que mais mata no Brasil e a principal causa de incapacidade no mundo. “Aproximadamente 70% das pessoas não retornam ao trabalho após um AVC devido às suas sequelas e 50% ficam dependentes de outras pessoas no dia a dia”, alerta Maramelia Miranda.
Para reduzir sequelas e salvar vidas, é necessário atendimento rápido. “Em até 4,5 horas do início dos sintomas, o trombolítico, que dissolve o coágulo, pode ser dado aos pacientes com AVC isquêmico, o tipo mais comum de AVC, diminuindo a chance de sequelas”, ressalta a neurologista. “Se houver um trombo em uma grande artéria do cérebro, a trombectomia (retirada do trombo por cateterismo) pode ser realizada!”
Prevenção
O neurocirurgião Orlando Maia alerta que pessoas fisicamente ativas têm 33% menos risco de sofrer um AVC. “Mais de um terço dos AVCs acontecem em indivíduos que não praticam atividade física regular”, afirma. Segundo o médico, exercícios moderados entre 20 e 30 minutos, cinco vezes por semana, reduzem o risco de AVC. “Quem se movimenta, além de fortalecer o corpo, mantém o cérebro mais saudável. O tabagismo também é um dos principais fatores de risco”, ressalta.
Na prática, a cardiologista Natasha Casteli afirma que a prevenção se constrói nos cuidados contínuos do dia a dia: “controlar a pressão arterial, acompanhar a saúde metabólica, manter atividade física regular, não fumar e valorizar o acompanhamento médico antes que as complicações apareçam”, reforça. “O AVC raramente começa no momento da emergência. Na maioria das vezes, ele é a manifestação aguda de um processo silencioso que se desenvolveu ao longo de muitos anos”, alerta.
