Antraz: entenda a doença que voltou a causar mortes na Ásia
Após três décadas sem registros, a Tailândia voltou a notificar casos de antraz em humanos, incluindo uma morte. O episódio reacendeu o alerta das autoridades de saúde, especialmente após a Organização Mundial da Saúde (OMS) também emitir comunicado sobre um surto suspeito da doença na República Democrática do Congo, na África. Embora a situação cause apreensão, especialistas explicam que o risco de uma epidemia é bastante baixo.
“O antraz (em português existe outra doença com nome muito parecido) é uma zoonose, doença que afeta animais e eventualmente é transmitida para seres humanos, causada por uma bactéria que não é transmitida de pessoa para pessoa, razão pela qual a possibilidade de uma epidemia é ínfima. Ela pode ser grave, podendo afetar a pele ou os pulmões”, explica o infectologista Renato Grinbaum, consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia.
Segundo Grinbaum, os casos da doença costumam ocorrer de forma isolada ou em pequenos surtos, geralmente em áreas rurais com baixa fiscalização sanitária. “A identificação é feita por profissionais de saúde, mediante quadro característico. Especialmente na Ásia, ocorrem surtos eventuais. Como é uma zoonose, as medidas para contenção da doença não incluem isolamento, máscaras, mas medidas de contenção com investigação de focos e controle em veterinária. Não existe razão para medo de uma pandemia. A situação da Tailândia está dentro da normalidade para o perfil desta doença, e merece ser investigada e contida.”
O Antraz, também chamado de carbúnculo, é uma doença causada por uma bactéria chamada Bacillus anthracis, produtora de uma toxina altamente potente. “Quase sempre fatal para os animais, é transmitida aos seres humanos pelo contato com animais infectados ou seus produtos”, explica o infectologista Irineu Maia.
Segundo o especialista, como a doença se manifesta nos humanos varia conforme a via de entrada da bactéria no organismo. “A apresentação clínica da doença nos humanos vai depender da via pela qual o agente foi introduzido. Por isso, nós temos a forma cutânea, que é uma lesão direta na pele; a forma gastrointestinal, que ocorre pela ingestão de carne contaminada; e a forma pulmonar, causada pela inalação de esporos do bacilo, que se depositam nos alvéolos pulmonares, levando a uma infecção pulmonar grave.”
A bactéria é um patógeno que afeta mamíferos, mas tem a capacidade de sobreviver por longos períodos no solo. “Os humanos são infectados acidentalmente pelo contato com animais infectados ou seus produtos. Atualmente, os casos humanos são raros, mas a doença continua sendo uma ameaça em potencial. Esse agente continua sendo ligado ao bioterrorismo e à guerra biológica”, afirma Irineu Maia.
O infectologista lembra um episódio marcante ocorrido nos Estados Unidos. “Para você ter uma ideia, em 2001, nos Estados Unidos, ocorreram 22 casos de antraz, porque os indivíduos foram expostos aos agentes por inalação. Eles recebiam uma carta pelo correio e, na hora que abriam esse envelope, havia um pó que era inalado, levando o indivíduo ao óbito.”
Sobre os sintomas, Maia detalha. “A forma cutânea começa com uma pápula pequena, indolor, vermelha acastanhada que evolui para uma vesícula ou bolha, seguida de uma erosão que resulta numa úlcera necrótica com uma crosta enegrecida por cima dela.” Já a forma pulmonar se inicia com sintomas inespecíficos, como febre, dor no corpo e mal-estar. “Após cinco dias, os pacientes pioram rapidamente, com falta de ar, queda da concentração de oxigênio, a chamada hipoxemia, podendo evoluir para choque.” A forma gastrointestinal, por sua vez, pode causar úlceras em todo o trato gastrointestinal, além de hemorragias, dor abdominal, náuseas e vômitos.
Apesar do alto potencial de gravidade, o médico tranquiliza a população. “Felizmente o antraz não é comum no Brasil, aliás, faz muito tempo que não há casos descritos. Mas, quando diagnosticado precocemente, tem tratamento, feito com antibióticos potentes, emprego de antitoxina e principalmente cuidados intensivos, frequentemente em UTI”, afirma Maia.
Diante do recente surto, a Organização Mundial da Saúde (OMS) autorizou uma nova rodada de vacinação em rebanhos, uma vez que o antraz afeta principalmente ruminantes como bois, cabras e ovelhas.
Equipes de saúde seguem investigando a origem dos casos e o modo como a infecção tem se espalhado, além de garantir atendimento médico às pessoas contaminadas e aos que tiveram contato direto com elas.
Existem vacinas tanto para animais quanto para humanos. A imunização veterinária é amplamente utilizada para prevenir a disseminação entre os animais, enquanto as vacinas destinadas a humanos são reservadas para casos específicos, geralmente em situações de risco elevado ou exposição comprovada.
Tratamento
O artigo "Antraz - Doenças infecciosas", publicado no Manual MSD, escrito por Larry M. Bush, MD, e Maria T. Vazquez-Pertejo, e revisado por Brenda L. Tesini, aborda aspectos clínicos, epidemiológicos e terapêuticos da doença, com foco na transmissão, formas clínicas e tratamento, que é feito com antibióticos, outros medicamentos e drenagem do líquido pleural. “Se o tratamento do antraz for atrasado (geralmente porque o diagnóstico é omitido), o risco de morte é maior.”