A felicidade é treinável? Sim! Apesar de não ser um estado permanente e de não eliminar os momentos difíceis da vida, a felicidade, segundo especialistas, pode ser treinada e cultivada por meio do bem-estar emocional. Ao abordar a relação entre cérebro, emoções, hábitos e qualidade de vida, profissionais da saúde afirmam que atividade física, estímulos mentais, contato com novas experiências, sono adequado, vínculos afetivos e autoconhecimento estão entre as estratégias que podem, sim, contribuir para uma vida emocionalmente saudável e feliz.
O neurocirurgião e professor de Neurocirurgia da Faculdade de Medicina de Rio Preto (Famerp), Eduardo Silva, afirma que o cérebro pode ser estimulado em diferentes fases da vida para uma rotina de bem-estar e felicidade. “Os treinamentos podem ser realizados em todas as fases da vida, desde um bebê até um idoso de 100 anos”, defende. Os exercícios físicos e mentais para estimular sentidos, atenção, concentração, memória e criar novas conexões cerebrais que geram alegria e bem-estar são reunidos na chamada Neuróbica Cerebral.
O conjunto de treinos, segundo o neurocirurgião da Famerp, tem o poder de estimular a produção de neurotransmissores, como a serotonina, dopamina e gaba, responsáveis pelo bem-estar e pela felicidade. “Neurotransmissores que são fundamentais para proporcionar energia, motivação, sono restaurador, relaxamento, motivação, bem estar, alegria e paz interior”, afirma. “Ao produzir os neurotransmissores serotonina, dopamina, gaba, ocitocina e endorfinas, atuam como uma verdadeira farmácia para o corpo e cérebro”, completa o especialista.
A Neuróbica utiliza os cinco sentidos e propõe, portanto, mudanças na rotina como forma de estimular diferentes áreas cerebrais. Entre as práticas estão experimentar alimentos novos, utilizar a mão não dominante para atividades cotidianas, mudar trajetos, aprender idiomas, desenvolver hobbies, ler conteúdos diferentes, praticar atividade física e ter contato com a natureza. “Se a pessoa tiver um estilo de vida com alimentação saudável, sono restaurador, controle das emoções e atividade física e mental, ela não precisará usar medicamentos”, defende Eduardo Silva.
Felicidade não é obrigação
Na psicologia, porém, a ideia de “treinar para ser feliz” exige uma ressalva. A psicóloga auditora em saúde da Unimed Rio Preto, Vanessa Dores Renesto, explica que o objetivo de treinar a felicidade não é eliminar as emoções negativas ou buscar uma felicidade permanente, mas desenvolver recursos para lidar melhor com as diferentes experiências da vida. “Felicidade não é um estado permanente, mas o bem-estar pode ser cultivado ao longo da vida”, afirma.
A psicóloga reforça os hábitos que podem favorecer o bem-estar: reservar tempo para atividades prazerosas, manter vínculos afetivos, praticar exercícios físicos, cuidar do sono, estabelecer limites, reconhecer conquistas e desenvolver o autoconhecimento. Para Vanessa Dores, entretanto, tristeza, medo, frustração, ansiedade e luto também fazem parte de uma vida emocional saudável. “Lembrando que podemos cultivar comportamentos e hábitos que aumentem nosso bem-estar, mas isso não significa controlar todas as nossas emoções”, ressalta.
Vanessa também chama atenção para a diferença entre participar ativamente da construção do próprio bem-estar e acreditar que cada pessoa é responsável por permanecer feliz. “Diante de uma separação, perda ou dificuldade profissional, por exemplo, não é necessário, nem saudável tentar estar bem o tempo inteiro. Uma emoção difícil não significa que algo está errado com você, ela pode ser uma resposta natural a uma situação que realmente é difícil”, orienta.
A psicóloga também alerta para a necessidade de reconhecer que nem tudo está sob nosso controle. “Relacionamentos, condições financeiras e sociais, saúde, ambiente de trabalho, acontecimentos inesperados e experiências de vida influenciam diretamente o bem-estar”, afirma. Ter uma rede de apoio, cultivar relações saudáveis e aprender a dizer ‘não’ diante de situações que ultrapassam nossos limites também são formas de cuidar da saúde emocional, “mas não eliminam as circunstâncias externas”, reforça.
Já a psicóloga Deise Silveira, do Instituto Gilberto Kocerginsky e especialista em Terapia Cognitiva Comportamental, destaca outro aspecto: a maneira como cada pessoa interpreta as experiências pode influenciar diretamente suas emoções. “A forma como interpretamos o que vivemos influencia diretamente nossas emoções e a maneira como nos sentimos diante da vida”, orienta.
Para Deise Silveira, desenvolver maior flexibilidade diante dos pensamentos e ampliar a forma de enxergar as situações pode ajudar na construção de uma relação mais positiva com a própria vida. “Quando aprendemos a flexibilizar nossos pensamentos e ampliar nosso olhar sobre as experiências, também desenvolvemos nossa capacidade de cultivar a felicidade”, diz.
