Acordei feliz
sem ter acontecido nada.
Felicidade boba é assim:
chega de repente,
não pede licença
e não sabe explicar seu nome.
Olhei meu sorriso no espelho.
O tamanho dele dizia tudo.
Lá fora, o dia corre,
com suas pressas,
suas notícias,
suas coisas importantes.
Eu fico.
Degusto cada minuto
como quem toma café devagar
e sabe que a manhã
não volta para buscar o que deixou.
Abro um livro.
Fica mais sábio quem lê.
Não porque passa a saber mais,
mas porque descobre
o tamanho do que ainda não sabe.
Leio para não cegar.
Para alargar os olhos,
desconfiar das certezas,
dar nome ao que sinto
e enxergar beleza
onde antes era só costume.
E então penso:
talvez a felicidade
não seja uma coisa grande.
Talvez seja só isso
uma manhã qualquer,
um livro aberto,
o coração sem pressa
e a vida,
por alguns minutos,
inteira
dentro de um sorriso.
Juciele Hipólito
Jornalista e escritora

