“A chave de casa” é o primeiro romance de Tatiana Salem Levy (1979-). Publicado originalmente em 2007, ele garantiu à autora o Prêmio São Paulo de Literatura, na categoria “Melhor Livro de Autor Estreante”, em 2008.
A narrativa, que conta com capítulos curtos e estilo fragmentado, traz a história de uma jovem – não nomeada no romance – neta, por parte de mãe, de um judeu, imigrante da Turquia, que construiu a vida e uma família no Brasil.
O título da narrativa se conecta diretamente à ascendência turca da narradora. É do avô que ela recebe a chave da antiga casa da família em Esmirna. E é para lá que a protagonista retornará com uma missão: procurar a casa de seus antepassados, experimentar a chave, abrir a porta.
Questões como identidade e pertencimento, porém, não ficam circunscritas às raízes turcas da personagem. A narradora, que cresceu no Rio de Janeiro, nasceu em Portugal, onde os pais viviam exilados devido à ditadura militar em curso no Brasil. Desse modo, o transitar por países e culturas é marcante na história da personagem.
O exílio, a violência em seus mais diversos âmbitos, a ditadura e a opressão são ainda recorrências temáticas da narração, que explora questões como memória familiar, perda e luto, corpo e doença, e o ato de escrever.
“A chave de casa” é uma narrativa não linear. Os capítulos não seguem uma ordem temporal definida. É necessário que o leitor trabalhe na composição de uma espécie de mosaico de vivências e tente, junto com a narradora, encontrar elos e construir uma história e uma identidade.
As experiências complexas vividas pela narradora, apesar de suas peculiaridades, refletem vivências, percepções e sensações cotidianas do leitor. Refiro-me a vários eventos narrados ao longo do texto, como a morte da mãe, o relacionamento abusivo no qual ela se envolve e a necessidade de reação face a situações que nos paralisam.
No caso da protagonista de “A chave de casa”, somente uma viagem a Istambul e a Esmirna, a título de cumprir a missão que lhe foi dada pelo avô, poderá reconectá-la (ou não...) ao passado. O movimento de volta às origens é a tentativa de restituição de um tempo silenciado e a ressignificação do presente.
Um dado relevante: “A chave de casa” se enquadra no que chamamos de autoficção, gênero dos mais instigantes e discutidos da literatura contemporânea. Nele, o autor ficcionaliza elementos de sua própria vida para construir a narrativa que nos é apresentada. Tatiana Salem Levy é descendente de sefarditas turcos, nasceu em Lisboa, em 1979, e chegou ao Brasil com os pais aos 9 meses de idade, quando eles retornaram ao país beneficiados pela Lei da Anistia.
“A chave de casa” é um romance interessante, com uma narração sofisticada. Sua leitura, uma experiência instigante. Recomendo!
