Com o aumento da expectativa de vida no Brasil, cada vez mais pessoas com 60 anos ou mais permanecem ativas no mercado de trabalho ou à frente de um negócio. A ocupação nem sempre é por necessidade; é também por escolha, qualidade de vida e propósito. Último levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgado em 2025, mostra que 24,4% dos 34,1 milhões de idosos estavam ocupados em 2024, ou seja, cerca de 1 a cada 4 pessoas idosas permanecia ativa. Os números fazem parte do estudo ‘Síntese de Indicadores Sociais’ e mostram um recorde no nível de ocupação na terceira idade desde 2012, quando o levantamento começou.
Mais pessoas ativas no mercado de trabalho exigem, por outro lado, mais inclusão, adaptação das empresas e quebra de paradigmas sobre envelhecimento e produtividade. Dinâmica que mostra que o envelhecimento da população brasileira (em 2012, a população idosa era de 22 milhões), somado a mais saúde e longevidade, garante que profissionais seniores sigam ativos por mais tempo nas empresas e passem a ocupar espaços que antes eram vistos como exclusivos de gerações mais jovens.
O superintendente de gente e desenvolvimento do Grupo Rodobens, Bruno Moretti, analisa que a presença de pessoas idosas ativas, em especial aquelas que continuam no mercado por escolha, está diretamente ligada a uma mudança no perfil do envelhecimento no País. “Dados do IBGE de 2024 mostram que o Brasil ampliou cerca de 15% a expectativa de vida nas últimas décadas, e isso significa mais qualidade de vida, uma população economicamente ativa por mais tempo e, naturalmente, um aumento da presença de profissionais seniores no mercado”, afirma.
Ao mesmo tempo, segundo o superintendente, há uma necessidade de as empresas começarem a reconhecer o valor da diversidade de gerações. “Acreditamos que a diversidade geracional fortalece os negócios e profissionais mais experientes agregam repertório, visão de longo prazo e maturidade na tomada de decisão”, defende.
Profissionais 60 +, segundo Moretti, geralmente estão ocupados em setores de vendas, varejo, atendimento, funções administrativas, consultoria e mentorias. “São atividades em que a experiência acumulada, a maturidade emocional e a capacidade de relacionamento fazem muita diferença no dia a dia dos negócios”, analisa. Profissionais também com estabilidade. “Com maior comprometimento, menor rotatividade e uma contribuição extremamente relevante para equipes multidisciplinares”, afirma.
Etarismo
Apesar dos avanços, a discriminação por idade ainda é uma realidade, segundo Moretti, e segue como barreira para inclusão de profissionais seniores. “O etarismo ainda existe no mercado de trabalho e continua sendo um desafio relevante”, afirmou. Na visão do superintendente, apesar de o tema estar cada vez mais em debate, nem todas as organizações conseguem, na prática, garantir ambientes inclusivos para todas as idades. “Especialmente aqueles acima dos 60 e 70 anos”, diz.
Discriminação que, segundo Moretti, impacta diretamente a empregabilidade na maturidade. “Impacta ao limitar oportunidades e desconsiderar competências como experiência, maturidade e visão de longo prazo”, ressalta. Mesmo assim, há movimentos corporativos para mudar esse cenário. No Grupo Rodobens, segundo o superintendente, o preceito é de que gerar valor e propósito independe da idade. “Como reflexo, uma das empresas do grupo conta com o Programa VemSer 50+ da GVC, voltado à valorização e contratação de profissionais de maior maturidade”, destaca.
Capacitação digital
Se, por um lado, a experiência é valorizada, por outro, a transformação digital ainda pode ser um desafio significativo para pessoas 60+. A diretora social da Associação dos Profissionais e Empresas de Tecnologia da Informação (Apeti), Yonei Scotelari, afirma que o principal obstáculo está na velocidade das ondas de inovação. “Não dá mais para aprender e usar o que aprendeu. É preciso seguir aprendendo e se ajustando às novas exigências de um mercado cada vez mais competitivo”, afirma.
A diretora afirma que o contato tardio com a tecnologia também gera inseguranças. “Desenvolvem medos que vão desde a possibilidade de danificar o dispositivo até de cair em golpes”, ressalta. Yonei Scotelari também cita a falta de paciência de pessoas no entorno como barreira. “Os principais obstáculos são medo, ansiedade, vergonha, limitações físicas e cognitivas, falta de apoio e de treinamento e os preconceitos”, reforça.
Apesar das barreiras, a adaptação digital é caminho essencial para permanência no mercado, segundo a diretora. “A adaptação à tecnologia para o público 60+ é crucial para a permanência ou reinserção no mercado de trabalho, pois promove autonomia, combate o etarismo e permite a atualização de habilidades”, cita.
Mais do que domínio técnico, segundo a diretora, competências como maturidade, resiliência, empatia, comprometimento e respeito têm feito os empresários olharem para profissionais 60+ com outro olhar. “Saber usar as ferramentas digitais é importante, mas não é tudo”, afirma. Apesar das competências, a diretora ressalta: “Cabe aos seniors ter disposição de se tornar aluno novamente e a humildade de aprender com os jovens, pois a troca será vantajosa para todos”, diz.
Do lado das empresas, iniciativas de inclusão vêm ganhando espaço. As empresas que já perceberam a importância de um time heterogêneo e intergeracional saem na frente, segundo a diretora. Entre as iniciativas da Apeti está o programa Tech Sênior para capacitar pessoas idosas. “Empresas investem em treinamentos para atualizar as habilidades digitais desses colaboradores e criam programas de mentoria reversa, nos quais os mais novos auxiliam os mais velhos com tecnologia, enquanto os sêniores compartilham experiência em gestão e estratégia. Todos ganham!”, conclui.

