Prática realizada em salas aquecidas a 40 °C combina posturas, respiração e movimento. Especialistas explicam como a temperatura pode tornar a experiência mais intensa e ampliar a percepção sobre o próprio corpo
A prática do hot yogafavorece a liberação de endorfinas e a sensação de bem-estar (Divulgação)
Respiração, concentração, movimento e calor. No hot yoga, a prática tradicional do yoga ganha um elemento a mais: a temperatura da sala, mantida em torno de 40 °C. A proposta é realizar as posturas em um ambiente aquecido, com baixa iluminação e trilha sonora relaxante. Em todo o Brasil, a modalidade tem ganhado adeptos que buscam bem-estar, autocuidado e saúde física e mental. A prática é uma modalidade dinâmica e fluida, em que os movimentos são realizados de forma ritmada e sem uma sequência fixa.
Ana Carolina Pimentel, proprietária do Vidya Studio, afirma que o hot yoga não é simplesmente um yoga praticado em uma sala aquecida. “Parece simples falando assim, mas a experiência muda completamente. No Vidya, você tem toda a essência do yoga, que é: respiração, posturas, equilíbrio e concentração. Só que o calor deixa tudo mais intenso e faz você ficar muito presente ali. Eu sempre falo que é difícil explicar hot yoga, tem que experimentar mesmo. “Você entra de um jeito e sai de outro”, explica.
O calor interfere diretamente na maneira como o corpo responde à atividade. Maria Binelli, instrutora de yoga e pilates, afirma que o ambiente aquecido pode favorecer uma sensação de maior mobilidade e conforto durante os movimentos, principalmente porque o aumento da temperatura corporal tende a reduzir a sensação de rigidez dos tecidos e tornar o corpo mais disponível para a prática. “Isso pode fazer com que algumas posturas pareçam mais acessíveis.”
Ao mesmo tempo, Maria afirma que é importante não confundir essa sensação de maior flexibilidade com a possibilidade de ultrapassar os limites do corpo. “No hot yoga, a percepção corporal é fundamental: o calor pode facilitar o movimento, mas a postura continua precisando ser construída com controle, estabilidade, respiração e respeito à amplitude individual. Mais do que ‘ir mais longe’, buscamos aprender a nos mover melhor dentro daquele ambiente”, explica
A combinação entre movimento, concentração e calor promove inúmeros benefícios. “Você trabalha força, mobilidade, flexibilidade, equilíbrio e transpira bastante. Então tem aquela sensação maravilhosa de que você realmente se movimentou. Mas eu acho que o mais legal é a mistura do físico com o mental. Durante a aula, você precisa estar ali, prestar atenção na respiração, no seu corpo. Não dá muito espaço para ficar pensando nos 300 problemas do dia, sabe? “É uma hora muito sua”, afirma Ana Carolina.
Resposta do organismo
A prática do hot yoga também favorece a liberação de endorfinas e a sensação de bem-estar. Maria afirma que, assim como outras formas de exercício físico, uma prática de yoga com intensidade suficiente pode participar de respostas neuroquímicas relacionadas à sensação de prazer, relaxamento e bem-estar. “Costumamos falar muito em endorfinas, mas hoje sabemos que essa resposta é mais complexa e envolve diferentes sistemas do organismo. No hot yoga existe ainda um desafio adicional de termorregulação: o corpo trabalha para dissipar calor, aumenta a sudorese e há uma percepção bastante intensa das sensações corporais. Somados à respiração consciente, à concentração e ao movimento, esses estímulos podem contribuir para aquela sensação de presença e bem-estar que muitas pessoas relatam após a aula”, explica.
Primeira aula exige adaptação
Para quem está disposto a experimentar, a primeira aula é mais sobre entender como o próprio corpo reage ao calor, ao movimento e à respiração (Divulgação)
Para quem nunca praticou, o primeiro contato com o hot yoga pode ser mais desafiador justamente pela combinação entre exercício e temperatura elevada. A instrutora Maria afirma que a primeira aula costuma ser uma experiência muito sensorial. “Antes mesmo de começar a sequência de posturas, o aluno percebe que está entrando em um ambiente diferente e que o corpo precisa responder não apenas ao exercício, mas também ao calor. É comum suar bastante, sentir a frequência cardíaca aumentar e perceber o esforço de uma maneira diferente.”
Por isso, a primeira aula não deve ser encarada como um teste de resistência. “A orientação é observar o corpo, diminuir a intensidade quando necessário, fazer pausas e permitir que a adaptação aconteça. Existe também algo muito interessante nisso: o calor exige presença. Ele faz com que seja difícil praticar de maneira automática, porque precisamos estar atentos à respiração e aos sinais que o corpo oferece o tempo inteiro”, diz Maria.
A adaptação ao calor não ocorre da mesma maneira para todos. Ela acontece progressivamente e depende de fatores como frequência das aulas, condicionamento físico, hidratação e características individuais. “Fisiologicamente, exposições repetidas ao exercício no calor podem produzir adaptações ao longo de aproximadamente uma a duas semanas, mas isso não significa que todos estarão completamente confortáveis nesse período. "Por isso, começar gradualmente é tão importante", afirma Maria.
Para quem está disposto a experimentar, a primeira aula é mais sobre entender como o próprio corpo reage ao calor, ao movimento e à respiração. “Eu acho que a principal coisa é: vai sem medo e sem achar que você precisa saber fazer yoga. Não precisa ser flexível, não precisa conhecer as posturas, não precisa chegar preparado. É justamente para isso que existe a primeira aula. No começo você vai sentir o calor, vai entender a dinâmica, vai conhecer seu corpo naquele ambiente e vai fazendo o que conseguir. Se precisar parar, para. Se precisar respirar, respira. Ninguém está ali competindo com ninguém. E eu sou suspeita porque sou apaixonada pelo conceito, mas realmente acho que hot yoga é uma daquelas coisas que você precisa viver pelo menos uma vez”, afirma proprietária do Vidya Studio, espaço recém-inaugurado em Rio Preto.
Cuidados
Para pessoas com condições de saúde ou orientações médicas específicas, a recomendação é conversar com um profissional de saúde antes de iniciar a hot yoga, assim como qualquer atividade física.
Em um artigo publicado no site do Einstein Hospital Israelita, a cardiologista Luciana Janot revela que práticas em ambientes muito quentes trazem dois riscos combinados: o do exercício intenso e o da temperatura extrema. “Em um ambiente quente e úmido, como o da hot yoga, a gente tem uma vasodilatação, e isso faz com que a gente tenha aumento de frequência cardíaca e queda da pressão arterial. Quem já é hipotenso [tem pressão baixa] ou sensível ao calor, num ambiente desse, vai ter grande chance de passar mal. Todo mundo passa mal? Não. Tem gente que se acostuma? Sim, mas tem que ter alguns cuidados”, explica Janot.
Ana Carolina reforça que a sensação de calor não deve ser confundida com uma autorização para aumentar a amplitude dos movimentos. “O corpo fica aquecido e você pode sentir uma facilidade maior em alguns movimentos e na mobilidade. Só que não é aquela coisa de ‘ah, estou quente, então vou me esticar até onde der’. É justamente o contrário: você vai aprendendo a entender seu corpo e o seu limite. E isso é muito gostoso porque cada aula é diferente. Tem dia que o corpo responde de um jeito, tem dia que responde de outro”, afirma.
Saiba mais
A hidratação deve começar antes da aula.
Não é interessante chegar desidratado e tentar compensar tomando uma grande quantidade de água imediatamente antes ou durante a prática;
O ideal é manter uma boa ingestão de líquidos ao longo do dia e, durante a aula, beber conforme a necessidade. Como há maior perda de água e eletrólitos pelo suor, especialmente em pessoas que transpiram muito, esse equilíbrio também merece atenção;
Outro ponto importante é evitar refeições muito pesadas próximo ao horário da prática e comunicar ao professor qualquer condição de saúde relevante;
Tontura, náusea, fraqueza, dor de cabeça, confusão ou mal-estar não devem ser interpretados como sinais de que é preciso ‘aguentar mais’: são sinais para interromper ou reduzir a prática, sair do calor quando necessário e se recuperar.
Fonte: Maria Binelli, instrutora de yoga e pilates
Benefícios
Aponte a câmera e descubra os benefícios da yoga para o corpo e a mente (Reprodução)
Quem quiser conhecer outros benefícios da prática de yoga para a saúde pode consultar conteúdo produzido pelo Hospital Israelita Albert Einstein, que reúne informações sobre efeitos da atividade no estresse, flexibilidade, dores, condicionamento físico, concentração e outros aspectos. Acesse: