Com a chegada das férias escolares, as salas de cinema voltam a se encher de crianças, mas não só delas. Pais, jovens adultos e até espectadores sem filhos ocupam as poltronas para assistir a produções originalmente pensadas para o público infantil. O que poderia ser apenas entretenimento leve ganhou outra camada: animações e filmes para crianças têm se consolidado como verdadeiros espelhos emocionais para os adultos, despertando reflexões sobre sentimentos, vínculos, amadurecimento e escolhas da vida.
Em janeiro, estreias como “Tom & Jerry: Uma Aventura no Museu”, “Monarcas: O Conto das Borboletas” e “O Menino e o Panda” reforçam essa tendência. São produções que conquistam o público e a crítica justamente por equilibrar humor, fantasia e temas universais, capazes de atravessar gerações e provocar conversas que continuam depois dos créditos finais, muitas vezes dentro de casa.
Para entender por que essas histórias seguem tocando quem já passou da infância, a reportagem ouviu três adultos na casa dos 30 anos, convidados a contar qual filme infantil marcou suas vidas e por que ele ainda faz sentido hoje. Os relatos mostram que essas narrativas ajudam a elaborar emoções profundas, revisitar memórias e até compreender processos pessoais da vida adulta.
A influenciadora digital Denise Galviolli, 35 anos, carrega uma relação afetiva intensa com “A Bela e a Fera”. Para ela, o filme sempre foi mais do que um clássico da Disney. “A Bela e a Fera sempre foi meu filme infantil favorito porque ele fez parte de quem eu fui e de quem eu continuo sendo. Quando eu era criança, eu me enxergava muito na Bela. Ela tinha cabelo escuro como o meu, mas principalmente porque ela era diferente, sonhadora, curiosa e parecia não caber totalmente no lugar onde vivia. Aquilo falava comigo de um jeito que eu nem sabia explicar”, relata.
Segundo Denise, mesmo na infância era possível perceber que a história ia além da estética. “Eu amava a história, a magia, o castelo, os detalhes, mas o que mais me prendia era ver os personagens mudando, crescendo, evoluindo. Mesmo pequena, eu sentia que não era só um desenho bonito. Tinha algo mais ali.”
Hoje, adulta, a leitura é ainda mais profunda. “A Bela continua sendo alguém que escolhe ver além da aparência, que acredita na transformação e que não abre mão de quem é. E a Fera me lembra que todo mundo tem camadas, dores e processos, e que o amor de verdade transforma, mas só quando vem com respeito e evolução.” Para ela, o impacto atravessa o tempo: “Talvez seja por isso que ‘A Bela e a Fera’ nunca saiu do meu coração. Porque não marcou só a minha infância. Ele marcou a minha forma de sentir, de enxergar as pessoas e de acreditar que a gente pode evoluir, mudar e amar de um jeito mais profundo, em qualquer fase da vida.”
Já o jornalista e influenciador Rafael Brumato, 35 anos, aponta dois títulos que seguem emocionando: “Dumbo” e a saga “Toy Story”. “Dois filmes marcaram muito a minha infância e me emocionam até quando eu assisto hoje em dia. O primeiro é ‘Dumbo’. Este foi o primeiro filme da Disney que assisti na vida, ainda VHS e me encanta até os dias atuais. O segundo é a saga ‘Toy Story’.”
No caso de “Dumbo”, a identificação ganhou contornos pessoais ao longo do tempo. “Ao olharmos para ‘Dumbo’, um elefante com grandes orelhas, totalmente diferente do habitual e é hostilizado por muito tempo por ser diferente dos demais. Quando ele entende que aquilo que o torna diferente é o que transforma ele em um ser singular, ele se desabrocha para o mundo. Isso me remete muito ao fato de quando comecei a me descobrir homossexual.”
Brumato conta que cresceu em um ambiente religioso e enfrentou conflitos internos e externos. “Fui criado em um meio religioso, onde isso é considerado errado e por muitas vezes sofri essa hostilização, até conseguir me aceitar como sou e transformar isso a meu favor.” Já “Toy Story” representa outro pilar emocional. “É nitidamente sobre a importância da amizade. Sempre considerei a amizade um amor incondicional e a saga deixa isso muito claro. O mais interessante é que assim como em nossa vida, as fases e os ambientes em que vivemos podem mudar, porém, a necessidade de ter bons amigos e poder ter com quem contar, permanecem sendo essenciais.”
A forma de assistir animações também mudou para Brumato. “Claro que ao assistir essas histórias hoje, tem um tom muito mais nostálgico e reflexivo do que quando criança e sigo apaixonado por animação. Atualmente assistir produções mais atuais como Divertidamente, Encanto, já tem mais um efeito reflexivo e de olhar para uma autorreflexão do que para entreter.”
Assim como Denise, a criadora de conteúdo Fabiane Facondini, 34 anos, conta que o filme infantil que mais marcou foi “A Bela e a Fera”. Mais do que uma lembrança da infância, a animação segue fazendo sentido na vida adulta por abordar temas como amor, amizade e a capacidade de enxergar além das aparências. “Sempre me tocou a forma como a história mostra que a verdadeira beleza está no caráter e na sensibilidade, não no exterior”, conta.
Segundo Fabiane, rever o filme hoje provoca reflexões sobre empatia, amadurecimento emocional e escolhas, mostrando como histórias feitas para crianças também ajudam adultos a compreender sentimentos profundos e olhar para si com mais delicadeza.
