Especialistas falam sobre a importância de resgatar a “solidão positiva”, e explicam que a solitude, que é o tempo saudável consigo mesmo, pode fortalecer a saúde emocional em uma sociedade hiperconectada
Estar sozinho virou problema? (Freepik/Divulgação)
Em uma época marcada por notificações constantes, redes sociais e comunicação instantânea, o silêncio e o tempo sozinho parecem cada vez mais raros e, para muitas pessoas, até desconfortáveis. A ideia de estar só, muitas vezes associada a abandono ou tristeza, ganhou uma conotação negativa. No entanto, especialistas alertam que essa visão precisa ser revista. Em vez de um problema, o tempo consigo mesmo pode ser essencial para o equilíbrio emocional.
A psicóloga cognitivo-comportamental Adriana Botarelli observa que o fenômeno está cada vez mais presente na vida contemporânea. Segundo ela, embora as pessoas estejam permanentemente conectadas, muitas vezes se sentem distantes de si mesmas. “Na minha experiência como psicóloga clínica, tenho percebido com frequência um fenômeno muito característico da vida contemporânea: muitas pessoas estão permanentemente conectadas, mas cada vez mais distantes de si mesmas. Isso aparece no consultório na dificuldade de sustentar o silêncio, na necessidade constante de checar o celular e no incômodo diante de momentos sem interação. Em uma cultura que valoriza disponibilidade imediata, visibilidade e contato ininterrupto, estar sozinho passou, muitas vezes, a ser interpretado como sinal de abandono, rejeição ou fracasso afetivo.”
Essa percepção está ligada à dificuldade de diferenciar dois conceitos distintos: solidão e solitude. Enquanto a primeira costuma envolver sofrimento e sensação de desconexão, a segunda pode representar um momento saudável de contato consigo mesmo. “É importante diferenciar solidão de solitude. A solidão costuma estar associada a sofrimento, desconexão e desamparo. Já a solitude, quando é emocionalmente possível, pode ser uma experiência organizadora e até restauradora. É no tempo que muitas pessoas conseguem elaborar afetos, reconhecer necessidades e desenvolver um senso mais sólido de identidade.”
O paradoxo da vida digital é que a comunicação constante nem sempre significa presença real. Para Adriana, o excesso de estímulos pode dificultar a elaboração emocional. “Ao mesmo tempo, o excesso de conexão pode aprofundar o vazio interno. Muitas vezes, o celular funciona como um regulador rápido da angústia, uma forma de evitar o tédio, o silêncio ou pensamentos difíceis. E aí aparece um paradoxo muito importante: todo excesso pode trazer uma falta. O excesso de presença digital pode gerar falta de presença subjetiva; o excesso de comunicação pode gerar falta de escuta; e o excesso de estímulo pode gerar falta de elaboração emocional.”
Na prática clínica, esse comportamento também pode intensificar a dependência emocional e a insegurança nas relações. “Na prática clínica, também observamos que a necessidade constante de estar acompanhado ou validado pode aumentar a dependência emocional e a insegurança. Quando a pessoa passa a precisar do contato externo para se sentir minimamente estável, qualquer ausência pode ser vivida com intensidade excessiva. Na perspectiva da Terapia Cognitivo-Comportamental, isso muitas vezes se relaciona a crenças de desvalor, desamparo ou inadequação, que tornam o estar só mais ameaçador”, afirma Adriana.
Apesar disso, a psicóloga destaca que aprender a conviver consigo mesmo pode trazer benefícios importantes para a autonomia emocional. “Por outro lado, viver momentos de solitude de forma saudável pode fortalecer a autodeterminação. Quando a pessoa consegue estar consigo com menos angústia, ela passa a perceber com mais clareza o que realmente lhe faz bem, o que lhe agrada e o que faz sentido para sua vida. Isso é muito valioso do ponto de vista emocional, porque favorece escolhas mais autorais e menos guiadas apenas por expectativa externa, comparação ou necessidade de aprovação.”
Um pilar da saúde
A preocupação com a solidão tem ganhado destaque mundial. O psicólogo e professor de terapia cognitivo comportamental e neurociências Armando Ribeiro lembra que o tema está diretamente relacionado ao conceito de saúde social. “A OMS chamou a ‘saúde social’ de ‘o pilar perdido da saúde’.”
A ideia central é simples. A saúde se sustenta em três pilares: saúde física, saúde mental e saúde social. Segundo ele, a saúde social está relacionada à qualidade das conexões humanas e os dados globais mostram um cenário preocupante: uma em cada seis pessoas no mundo se sente sozinha.
Mas o conceito vai além da ausência de solidão. “Mas ‘saúde social’ não é apenas solidão. É: relações de qualidade, comunidade, pertencimento, conexões reais. E esse tema também impacta os negócios, pois pessoas mais conectadas são mais engajadas, produzem melhor e permanecem mais tempo nas empresas.”
A cientista social Kasley Killam e autora do livro “Saúde social: A arte e a ciência da conexão humana” (2026), afirma que "Conexão não é um luxo da vida moderna. É uma necessidade humana básica."
Estudos recentes indicam que o isolamento social prolongado pode afetar não apenas o bem-estar emocional, mas também a saúde física. Armando cita pesquisas amplamente discutidas na área da saúde pública. “Diversas pesquisas, incluindo estudos de destaque endossados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e meta-análises conduzidas por pesquisadores como Julianne Holt-Lunstad, indicam que a solidão crônica e o isolamento social têm um impacto prejudicial à saúde física equivalente ao consumo de 15 cigarros por dia”, afirma Ribeiro.
Estar só não é sentir-se só
Para o psicólogo, a chave para compreender o tema está em distinguir entre dois estados diferentes. “Vou te contar como eu costumo explicar para meus pacientes: existe uma diferença fundamental entre estar só e sentir-se só. A solidão que faz mal é aquela que vem acompanhada de sofrimento. É quando a pessoa está sozinha e sente angústia, vazio, ou uma sensação de que falta algo essencial. Tem um componente de involuntariedade — você não escolheu estar ali daquele jeito, e há uma dor de pertencimento não atendido. É a solidão que grita ‘ninguém se importa’ ou ‘não existo para o outro’.”
Por outro lado, existe a solitude, uma experiência que pode trazer descanso e clareza. “Já a solidão saudável, que prefiro chamar de solitude, é aquela que você consegue escolher e usar a seu favor. Tem uma qualidade diferente: há conforto no próprio silêncio, há espaço para respirar sem pressa. A pessoa sai dela revigorada, não exaurida. É como se você conseguisse ser boa companhia para si mesmo.” O paradoxo, segundo Ribeiro, é que quem nunca aprende a estar consigo tende a buscar nos outros um alívio que só de dentro pode vir. “E aí o risco é se perder nas relações, ou se tornar dependente demais.”
O incômodo do silêncio
Estar sozinho virou problema? (Freepik/Divulgação)
O desconforto diante do silêncio também pode revelar algo mais profundo sobre a relação que cada pessoa tem consigo mesma. “Esse incômodo que você menciona, ansiedade, inquietação, aquela vontade de pegar o celular ou ligar a TV só pra preencher o vazio, ele me diz muito sobre a relação que a pessoa tem consigo mesma”, afirma Ribeiro.
O psicólogo explica que, na sua experiência, quando a própria companhia causa mal-estar, é porque ali dentro tem algo que a pessoa está evitando encarar. “Pode ser um pensamento recorrente de autocrítica, uma culpa que não cicatrizou, uma tristeza que foi empurrada com a barriga. Ficar sozinho, nesses casos, é como entrar num cômodo escuro e saber que os fantasmas vão aparecer.”
Para ilustrar esse processo, o psicólogo costuma propor uma reflexão simples aos pacientes. “Tem uma pergunta que eu faço com frequência: ‘Se você se sentasse agora numa cadeira, sem distração nenhuma, por 20 minutos, o que começaria a surgir na sua cabeça que te faria querer sair correndo?’ A resposta costuma ser reveladora. Muitas vezes a pessoa não desenvolveu o que a gente chama em neurociência de capacidade de autorregulação emocional. Quando a gente não aprendeu ainda a se acalmar sozinho, a se acolher, qualquer momento só vira um gatilho, porque o cérebro interpreta a ausência de estímulo externo como perigo”, afirma Ribeiro.
Como resgatar a solitude
Embora possa parecer difícil para quem não está acostumado, desenvolver uma relação saudável com o tempo sozinho é um processo possível e gradual. “Na prática, o que eu oriento é que a gente não pula do ‘não suporto ficar sozinho’ para ‘vou meditar duas horas por dia’. Isso só gera frustração. É um processo gradual, e envolve mais construção do que simplesmente ‘aguentar’.”
Armando Ribeiro reforça a importância de transformar o tempo sozinho em experiências com intenção. “Criar rituais, não apenas preencher tempo. A diferença entre passar três horas rolando no feed e passar uma hora fazendo algo com intenção é brutal para o cérebro. Cozinhar algo que você gosta, arrumar um espaço da casa do seu jeito, sair pra caminhar sem fone de ouvido, essas coisas sinalizam pro seu sistema nervoso que esse tempo é seu, não um vácuo a ser tampado.”
Como transformar a solitude em algo positivo:
Estar sozinho virou problema? (Freepik/Divulgação)
Usar o corpo como âncora
Ansiedade de ficar sozinho costuma ser muito mental – é a mente que dispara pensamentos catastróficos. Técnicas simples de respirar, prestar atenção nas sensações do corpo, andar descalço, segurar algo com textura… isso parece besta, mas tem base neurocientífica: você desativa um pouco a amígdala (centro de alarme) e ativa o córtex pré-frontal (que ajuda a colocar as coisas em perspectiva)
Fazer perguntas em vez de fugir
Quando vem o desconforto, ao invés de já buscar distração, a gente tenta nomear: "o que tem aqui agora que me incomoda tanto?" Não pra remoer, mas pra reconhecer. Muita coisa perde força quando a gente para de tratá-la como inimiga e começa a tratá-la como informação
Construir uma relação de confiança consigo
Isso é o mais demorado, mas o mais transformador. É aprender a cumprir pequenas promessas que você faz pra si mesmo. Se você diz “vou tirar 10 minutos pra ler", você tira. Isso vai ensinando seu cérebro que você é confiável para si. E quando você confia na sua própria companhia, a solitude deixa de ser ameaça
Estar bem sozinha
As pessoas que conseguem estar bem sozinhas não são aquelas que "não precisam de ninguém". São as que, paradoxalmente, se relacionam melhor com os outros, porque chegam inteiras, não desesperadas por colo
Se você tem sentido esse desconforto, vai com calma
Começa com dez minutos sem celular. E vai observando, como quem aprende um novo idioma - o idioma da sua própria presença
Fonte: Armando Ribeiro, psicólogo e professor de terapia cognitivo-comportamental e Neurociências
Algumas mudanças simples podem ajudar nesse processo:
Estabelecer pequenos intervalos do dia sem recorrer ao celular
Diminuir o uso automático das redes sociais
Sustentar breves momentos de silêncio sem preenchê-los imediatamente e criar experiências de prazer
que não dependam o tempo todo de interação
Uma caminhada, uma leitura, uma pausa consciente, ouvir música com presença ou até fazer uma refeição com mais atenção podem ser formas de reconexão consigo
Aprender a estar só de maneira saudável não empobrece os vínculos. Pelo contrário: fortalece a identidade, amplia a autonomia emocional e qualifica as relações
A capacidade de estar bem consigo é uma base importante para vínculos mais maduros, mais livres e menos marcados pela urgência da validação