O café faz parte da rotina e da identidade cultural do brasileiro. Presente desde o início da manhã até os encontros entre amigos e familiares, a bebida atravessa gerações como símbolo de acolhimento e convivência. Mas, nos últimos anos, um novo olhar sobre o consumo de café vem ganhando espaço: o interesse pelos cafés artesanais e especiais, produzidos com foco na qualidade dos grãos, na origem da produção e na experiência sensorial proporcionada ao consumidor.
A mudança de comportamento acompanha um mercado cada vez mais atento aos processos de produção. Em vez do café excessivamente torrado, utilizado muitas vezes para mascarar imperfeições, os cafés especiais apostam em torras equilibradas, capazes de destacar características naturais dos grãos. O resultado são bebidas mais aromáticas, doces e complexas, com notas que remetem a chocolate, frutas, castanhas e flores.
Nesse cenário, cafeterias e torrefações artesanais têm investido em processos cuidadosos, seleção rigorosa e relacionamento direto com produtores rurais. Mais do que comercializar café, os estabelecimentos buscam aproximar o consumidor da história que existe por trás de cada xícara.
A Dona Sete Café, localizada na Vila Bancário, em Rio Preto, é um exemplo desse movimento. Desde 2017, a marca mantém uma torrefação artesanal própria, responsável por torrar e moer os cafés semanalmente. A proposta é garantir frescor e preservar ao máximo as características naturais dos grãos. Além da torra, a empresa realiza triagem manual para retirada de imperfeições e oferece moagem personalizada conforme o método de preparo escolhido pelo cliente.
Os grãos utilizados pela marca vêm da Fazenda da Mata, em Garça, região reconhecida pela tradição na cafeicultura e que recebeu, em 2022, o selo de Indicação de Procedência (IP) concedido pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). O reconhecimento destaca a reputação histórica e a qualidade dos cafés produzidos na região, conhecida pelos grãos encorpados, de acidez equilibrada e notas de chocolate amargo, castanhas e avelãs.
Segundo o proprietário da Dona Sete Café, Renato Vieira, o cuidado artesanal em todas as etapas faz diferença no resultado final da bebida e também na percepção do consumidor sobre qualidade e frescor. "O café artesanal valoriza cada detalhe do processo, desde a escolha do grão até o momento em que ele chega fresco à xícara do consumidor”, afirma o proprietário, que trabalha em parceria com as filhas Taís e Tassia.
Outro empreendimento que aposta na valorização do café especial é a Ow! Café, localizado na Vila São Joaquim, próximo à avenida Potirendaba. Além da cafeteria, o espaço também mantém torrefação própria e um clube de assinaturas voltado aos apreciadores da bebida. A proposta da marca é incentivar uma relação mais próxima entre o consumidor e o café, apresentando diferentes origens, perfis sensoriais e métodos de preparo.
Com a popularização dos cafés especiais, cafeterias passaram a desempenhar também um papel educativo, ajudando o público a identificar aromas, sabores e características que antes passavam despercebidos no consumo tradicional da bebida. O interesse crescente por métodos filtrados e preparos personalizados acompanha esse movimento.
Na avaliação Leonardo Carvalho, da Ow! Café, o consumidor tem demonstrado cada vez mais curiosidade sobre a procedência do café e os impactos que o processo de torra e extração exercem no sabor final da bebida. "Quando o consumidor entende a origem do café e experimenta diferentes métodos de preparo, ele passa a perceber a bebida de uma forma completamente diferente."
A Ow! Café também aposta na experiência como parte central do consumo de cafés especiais. O objetivo é apresentar ao público a diversidade de aromas, sabores e características que um café pode oferecer quando há cuidado em todas as etapas, da torra à extração. Com torras semanais realizadas na microtorrefação da marca, a cafeteria busca preservar o frescor dos grãos e ampliar as possibilidades sensoriais percebidas pelos consumidores.
A marca também trabalha para desmistificar a ideia de que “café é tudo igual”. Segundo Leonardo Carvalho, muitos consumidores tiveram contato apenas com cafés excessivamente torrados, sem rastreabilidade ou preparados de forma inadequada, o que interfere diretamente no sabor da bebida. “A Ow! Café procura aproximar o público das múltiplas nuances presentes no café especial, explorando perfis sensoriais, métodos de preparo e origens variadas dos grãos.”
A proposta de transformar o café em experiência também faz parte do conceito do Day Off Café, localizado na Avenida Juscelino Kubitschek de Oliveira. O espaço une cafeteria, gastronomia e métodos variados de extração em um ambiente pensado para permanência e convivência. A marca destaca o trabalho humano em todas as etapas, desde a escolha dos produtores até o preparo final servido ao cliente.
O estabelecimento trabalha com cafés especiais produzidos por fornecedores selecionados, priorizando produtores que respeitam os processos artesanais e o manejo sustentável das lavouras. A equipe também orienta os consumidores sobre os diferentes métodos de preparo e as características sensoriais de cada grão, reforçando a ideia de consumo mais consciente e desacelerado.
Para o Day Off Café, o crescimento do segmento está diretamente ligado ao desejo das pessoas por experiências mais afetivas e personalizadas no dia a dia. "O café especial também é sobre conexão: com quem produz, com quem prepara e com o momento vivido em volta da xícara”, afirma o gerente Guilherme Matar.

