Faltando poucos dias para a virada de 2026, vitrines iluminadas, notificações de ofertas no celular e a promessa de um novo começo se misturam a um sentimento silencioso e perigoso para o bolso: o de que ainda dá tempo de compensar tudo o que não foi vivido ao longo do ano. É nesse cenário que compras impulsivas encontram terreno fértil. Não apenas pelos descontos ou pelas facilidades de pagamento, mas por um emaranhado de emoções que vão da euforia à culpa, passando pela sensação de merecimento. A decisão de comprar, muitas vezes, deixa de ser racional e passa a ser emocional, especialmente nos últimos dias de dezembro e durante as férias.
A terapeuta integrativa Andrezza Ferrari, especialista em psicologia junguiana, o fim do ano ativa um mecanismo psicológico profundo ligado à sensação de fechamento e urgência. “Fim do ano, como a própria palavra sinaliza, traz a sensação de finitude, que algo está finalizando e não tem como voltar atrás. Ficamos com a sensação de que faltam poucos dias para viver tudo o que não foi possível alcançar durante todo o ano. Este sentimento se apodera da nossa mente e entramos no modo automático de sobrevivência (instinto), fazendo qualquer coisa para ‘reparar este dano’. É neste momento que nossa cabine de comando é bombardeada por todo o tipo de atrativos, sobrecarregando nosso circuito responsável por tomadas de decisões e, muitas vezes, saímos comprando qualquer coisa que possa trazer uma sensação de realização no final de tudo”.
A indústria do consumo conhece bem esse estado emocional e sabe como explorá-lo. Promoções-relâmpago, campanhas com discurso de pertencimento e mensagens que reforçam a ideia de inadequação ou atraso pessoal são comuns nessa época do ano. “Em um mundo hiperestimulante como o nosso, não faltam propagandas de como temos feito tudo de errado, e, de como necessitamos urgente comprar um curso, mudar comportamentos, fazer parte do que todo mundo está aderindo, verdade ou não. As tradições familiares, pequenos rituais individualizados vão abrindo espaço para a urgente necessidade de se camuflar, se fundir com a coletividade por um bem maior”.
O consumo deixa de atender a uma necessidade concreta e passa a funcionar como um atalho emocional, uma tentativa de silenciar desconfortos internos, ainda que temporariamente. Andrezza relata o caso de uma cliente que associava descanso e alívio à ideia de ‘ir para a praia’, mesmo sem gostar, de fato, da experiência. “Lembro-me de uma cliente que sempre que estava cansada dizia que precisava de mar, de areia, de ir à praia. Em uma determinada sessão, falando sobre a praia, ela me contou que não gostava muito do sol forte, da maresia ‘grudenta’, da areia que lhe causava alergias nas unhas dos pés”.
O processo terapêutico revelou que o desejo não estava ligado ao destino, mas à emoção evocada por uma imagem publicitária. “Então, num processo de tornar consciente aquela sensação de ‘mar’, ela lembrou-se de um comercial onde a água do mar batia calmamente nos pés de uma modelo, trazendo uma sensação de tranquilidade e silêncio. Ao tomar consciência da emoção que lhe faltava, foi mais fácil encontrar lugares ou tarefas que pudessem realmente proporcionar a ela, de forma individual, este sentimento de silêncio interno e calmaria, de que tanto necessitava”.
O mesmo mecanismo se repete nas compras de fim de ano: o produto se torna um símbolo emocional — de pertencimento, descanso, sucesso ou reconhecimento, ainda que não entregue, de fato, o que promete.
Para a especialista Andrezza, o desafio está em equilibrar a necessidade individual com a vida em sociedade, sem perder o senso de identidade. “Não devemos esquecer de que somos seres individuais que necessitam de trocas coletivas num ambiente social para sentir-se seguro e confortável para finalizar ciclos, iniciar novos projetos e mesmo manter a constância (rotina) em nossas vidas. Então, ter consciência de quem se é (tradições, rituais, família, raiz, fonte geradora, o que lhe torna único) e onde é o seu lugar (sua tribo, seu coletivo) é primordial para se manter em equilíbrio diante de tantos estímulos, que fazem parecer que, cada escolha, significa ‘perder’ outras milhões de oportunidades. E ninguém quer perder, não é mesmo?”


