Iluminação, cores, organização e elementos afetivos ajudam a compor ambientes mais confortáveis; especialistas explicam a relação entre os espaços domésticos e as emoções
Como a casa pode influenciar o bem-estar (Magnific/Divulgação)
Quando você chega na sua casa, depois de um dia intenso de trabalho, você fica feliz e consegue relaxar? Ou seu lar é composto por elementos que te deixam estressado? Independentemente da resposta, a ideia desta reportagem é alertar sobre a importância da sua casa ser um espaço de descanso e convivência. Ou seja, um local para recuperar as energias, receber amigos, acompanhar o crescimento dos filhos e brincar com os animais de estimação. E o mais importante: ser feliz.
A relação entre os espaços e as emoções é um dos campos de interesse da neuroarquitetura, área que investiga como as características dos ambientes se relacionam com a percepção, a atenção e o comportamento humano. A organização dos espaços, as condições de iluminação e o conforto ambiental são alguns dos aspectos que podem influenciar a experiência das pessoas dentro de casa. Ambientes funcionais e elementos que transmitam familiaridade contribuem para uma rotina mais confortável e para a sensação de bem-estar.
A proposta não é estabelecer uma fórmula de decoração capaz de melhorar o humor de todas as pessoas, mas compreender como as características físicas dos ambientes podem contribuir para a qualidade de vida no dia a dia. A iluminação natural, por exemplo, é um dos fatores ambientais importantes para o funcionamento do organismo. A exposição à luz durante o dia participa da regulação do ritmo circadiano, sistema biológico que organiza os períodos de sono e vigília.
A intensidade e o horário da exposição à luz artificial também merecem atenção, especialmente à noite, quando uma iluminação muito intensa pode dificultar a preparação do organismo para dormir. “Na prática, aproveitar a luz natural durante o dia, evitar reflexos excessivos e escolher uma iluminação adequada à atividade realizada são medidas que podem melhorar o conforto dos ambientes. Na sala e no quarto, por exemplo, uma luz mais suave pode contribuir para criar uma atmosfera de descanso”, afirma o arquiteto e urbanista Cristian Lisboa.
As cores também participam da percepção dos espaços, embora seus efeitos não sejam iguais para todos. “Tons suaves e elementos naturais podem transmitir serenidade a algumas pessoas, enquanto cores intensas podem ser utilizadas para criar ambientes mais expressivos. Tons quentes, como vermelho e laranja, são mais estimulantes. Por outro lado, cores como azul e verde, tendem a acalmar e favorecer a criatividade. O projeto de um ambiente precisa considerar não apenas a estética, mas também a forma como as pessoas vivem e utilizam aquele espaço”, afirma Lisboa.
A desorganização pode se tornar uma fonte de incômodo quando dificulta a realização de tarefas, compromete a circulação ou faz com que os moradores tenham dificuldade para encontrar o que precisam. Muitas vezes, excesso de objetos e desordem dificultam a concentração e aumentam a sensação de cansaço mental, segundo o arquiteto.
Isso não significa que uma casa precise estar sempre impecável para proporcionar bem-estar. “Mais importante do que seguir um padrão estético é encontrar soluções que facilitem o cotidiano. Manter objetos de uso frequente em locais acessíveis, liberar áreas de circulação e adaptar os espaços às necessidades da família são medidas simples”, afirma o arquiteto Cristian Lisboa.
Dicas práticas no streaming
Confira algumas séries que abordam organização, decoração e relação das pessoas com os espaços de casa, combinando entretenimento e dicas práticas. As produções apresentam diferentes estilos e mostram como pequenas mudanças podem transformar os ambientes.
The Home Edit – A Arte de Organizar
Onde assistir: Netflix
As especialistas transformam ambientes de celebridades e famílias com soluções práticas de organização. A série combina funcionalidade e estética, com caixas, divisórias e objetos separados por cores.
Ordem na Casa com Marie Kondo
Onde assistir: Netflix
A especialista japonesa apresenta seu método de organização, que incentiva a manter objetos que tenham utilidade ou significado pessoal. As mudanças ajudam a repensar o acúmulo de pertences e a criar uma rotina mais organizada.
Casa em Ordem com Cas Aarssen
Onde assistir: HBO Max
A especialista em organização ajuda famílias a enfrentar a bagunça e encontrar soluções para aproveitar melhor os espaços. A série apresenta estratégias práticas para categorizar objetos, reduzir a desordem e manter a casa organizada.
Restaurando Casas com Dave e Jenny
Onde assistir: Prime
O casal reforma casas antigas e transforma os ambientes de acordo com as necessidades dos moradores. A produção traz referências de decoração, aproveitamento dos espaços e combinações de materiais para criar casas funcionais e acolhedoras.
Da Decoração ao Makeover
Onde assistir: Netflix
Os designers renovam casas de famílias com diferentes necessidades e preferências. A produção traz referências de cores, móveis, iluminação e aproveitamento dos espaços, com destaque para ambientes acolhedores e contemporâneos.
O espaço e as emoções
Como a casa pode influenciar o bem-estar (Magnific/Divulgação)
A psicologia contribui para compreender como as pessoas percebem esses espaços e como o contexto doméstico se relaciona com suas experiências emocionais. A sensação de segurança, a privacidade, a convivência e a possibilidade de ter momentos de tranquilidade são aspectos importantes nessa relação.
A psicóloga clínica Renata Mendes afirma que um espaço no qual a pessoa consegue descansar, ter privacidade e se sentir segura pode favorecer a sensação de conforto emocional. “Ao mesmo tempo, é importante lembrar que o humor não depende apenas da casa: fatores como relações familiares, condições de trabalho, preocupações financeiras e saúde mental também influenciam como nos sentimos.”
No entanto, a presença de elementos naturais, por exemplo, pode tornar os ambientes mais agradáveis. “Plantas, jardins e vistas para áreas verdes podem aproximar os moradores da natureza, mesmo em casas em centros urbanos. Esses recursos podem contribuir para uma percepção de maior conforto. Elementos sensoriais como sons e aromas também influenciam o sistema nervoso”, afirma Renata.
Tornar a casa mais confortável não depende obrigatoriamente de grandes investimentos. Antes de trocar móveis ou iniciar uma reforma, vale observar quais situações provocam incômodo na rotina e quais mudanças estão ao alcance dos moradores. A psicóloga orienta ainda os moradores a reservar momentos de descanso e construir pequenos rituais de bem-estar, como ouvir música ou manter um espaço para atividades prazerosas, como pintura ou fazer um bolo do sabor preferido.
Criar um espaço para leitura, descanso ou trabalho também pode ajudar, mesmo quando é necessário compartilhar o mesmo cômodo para diferentes atividades. “A ideia não é transformar a casa em um ambiente perfeito, nem atribuir a ela a responsabilidade pelo estado emocional de seus moradores. É reconhecer que os espaços fazem parte da vida cotidiana e que o conforto físico, a funcionalidade e a identificação com o lugar podem contribuir para uma experiência doméstica mais agradável”, afirma a psicóloga.
Valorizar o estilo pessoal na decoração, segundo Renata, também pode contribuir para a sensação de bem-estar. Seja em ambientes modernos, aconchegantes, coloridos ou com características de uma casa de campo, a presença de elementos com significado afetivo ajuda a tornar os espaços mais pessoais. “Um porta-retrato com a foto da família em uma viagem especial ou flores da estação, por exemplo, acrescentam cor, memória e personalidade aos ambientes”, afirma.