Mesmo quando há um pedido de desculpas, nem toda dor encontra fechamento. Algumas feridas seguem abertas, reaparecem em novas situações e continuam impactando o presente emocional de quem as carrega. Entender por que isso acontece e quais caminhos terapêuticos ajudam a transformar mágoas em aprendizado é fundamental para quem deseja iniciar 2026 com mais leveza e liberdade emocional.
O professor de psicologia e psicoterapeuta Armando Ribeiro, afirma que o perdão racional nem sempre acompanha o ritmo do corpo e do cérebro. “Um pedido de desculpas endereça o evento social, mas não necessariamente a ferida neurobiológica. Mágoas profundas muitas vezes envolvem uma quebra de segurança que ativa a amígdala (o centro do medo), mantendo o sistema nervoso em estado de alerta. A psicologia e a neurociência explicam que traumas ou mágoas intensas criam “redes de memória isoladas”. Mesmo que o córtex pré-frontal entenda o perdão racionalmente, o sistema límbico continua reagindo como se a ameaça ainda estivesse presente. É fundamental reconhecer que sua dor é fisiológica, não apenas vontade própria. Tente listar quais valores seus foram feridos, além do fato em si”.
Identificar a origem da dor é um dos passos centrais no processo de ressignificação emocional. Para Armando Ribeiro, a intensidade da reação costuma ser um indicativo importante. “O segredo está na desproporcionalidade. Se a sua reação emocional a um evento pequeno é de uma intensidade 10, enquanto o fato em si mereceria um 3, você provavelmente está vivendo um ‘sequestro emocional’ por uma memória de base. Na terapia cognitivo-comportamental (TCC), chamamos isso de esquemas inadaptados remotos ou disfuncionais. Experiências passadas moldam ‘lentes’ pelas quais vemos o presente. Se você sente um abandono desmedido hoje, é sua criança interior reagindo a uma negligência antiga que nunca foi processada. Ao sentir uma emoção forte, pergunte-se: ‘Qual é a idade dessa dor que estou sentindo agora?’. A resposta costuma ser reveladora”, explica.
Carregar ressentimentos ao longo do tempo não afeta apenas o bem-estar emocional, mas também a saúde física e a qualidade dos relacionamentos. “Manter o ressentimento é como viver em um estado de estresse crônico. Isso eleva os níveis de cortisol, o que prejudica o sistema imune e a plasticidade cerebral, dificultando a criação de novos laços saudáveis. A Psicologia Positiva demonstra que a falta de perdão (o ‘ruminar’) consome recursos cognitivos preciosos. Nos relacionamentos, isso gera o ‘viés de confirmação negativa’, no qual você passa a projetar a traição ou o erro passado em pessoas que nada têm a ver com a história original. Escolher uma mágoa para ‘deixar em 2025’ através de uma carta de liberação (que não precisa ser entregue), focando no que você aprendeu sobre seus próprios limites, pode ajudá-lo a se libertar da dor e transformá-lo”, afirma Armando.
Heloísa Capelas, palestrante, escritora e especialista na metodologia Hoffman, aborda o perdão como um processo de consciência e amadurecimento emocional em seu livro “Perdão, a revolução que falta: O ato de inteligência que vai curar a sua vida”. Na obra, a autora propõe uma reflexão gradual sobre o tema, afastando a ideia de que perdoar esteja relacionado à bondade ou à superioridade moral. Para ela, o perdão está ligado à inteligência emocional e à saúde psíquica. “Perdoar é, na realidade, uma questão de inteligência. Não como uma medida de proteção contra as pessoas e acontecimentos que foram culpados por seu sofrimento, mas por oferecer a você uma possibilidade única de conquistar uma vida mais leve, plena, saudável, feliz e bem-sucedida, pessoal e profissionalmente.”
Da mágoa ao aprendizado
A psicóloga clínica e organizacional Kátia Ricardi de Abreu afirma que transformar mágoas em crescimento pessoal exige, antes de tudo, conexão emocional. “Do ponto de vista terapêutico, fazer conexão com a emoção é o primeiro passo para a elaboração. Mágoa é a emoção de disfarce da tristeza, que é a emoção genuína. É necessário se dar permissão interna para sentir a tristeza e expressá-la adequadamente. Quando a pessoa fica ruminando sentimentos de mágoa, ela pode cair na armadilha de se vitimizar. Somos responsáveis por nossas emoções e também por nossas escolhas. Transformamos em aprendizado quando assumimos a responsabilidade por nossos sentimentos e buscamos a reprogramação interna e externa, diante de cada situação”, ressalta.
Embora frequentemente usados como sinônimos, perdão e libertação emocional representam etapas diferentes do processo terapêutico. Kátia afirma que o perdão começa da boca para fora, ou seja, desejar perdoar é o início do processo do perdão. “A libertação emocional é o fim do processo. A psicoterapia pode possibilitar a elaboração dos sentimentos negativos, passando pelas etapas de entendimento dos próprios sentimentos até chegar ao entendimento dos sentimentos do outro e da situação. Este trabalho é artesanal, é como lapidar a alma e não tem receita. Só mesmo no decorrer do processo psicoterapêutico que esta transformação interna poderá evoluir gradativamente para um patamar no qual a ferida emocional desaparece”, afirma.

