Durante décadas, os vinhos do Sul ocuparam o imaginário nacional como sinônimo de excelência na vitivinicultura. O clima frio, a tradição europeia e a longa experiência no manejo das videiras consolidaram a fama gaúcha. Mas, longe das temperaturas amenas do Sul, o interior paulista também vem mostrando que sabe produzir uvas de qualidade, seja para consumo in natura, sucos ou, ainda timidamente, para vinhos.
Na região Noroeste do Estado, cidades como Urânia vêm se destacando graças ao trabalho de produtores que investem em técnica, pesquisa e manejo adequado ao clima quente. O segredo está no respeito ao ciclo natural da planta aliado à inovação no campo.
A produção de uva começa muito antes de os cachos ganharem cor nas parreiras. Do plantio à primeira colheita, são meses de cuidado constante. A videira exige preparo do solo, escolha criteriosa das mudas, condução adequada dos ramos, podas estratégicas e controle fitossanitário rigoroso. O clima mais quente, que poderia ser visto como obstáculo, acaba se tornando aliado quando bem manejado, permitindo safras vigorosas e frutos saborosos.
Segundo Weber Boraschi, produtor de uvas em Urânia e proprietário do Vale das Vitórias -Turismo Rural, a base da viticultura regional foi construída com variedades tradicionais. Segundo ele, as principais variedades uvas produzidas na região são as in natura, com destaque para Rubi e Benitaka, além de Red Globe e Centennial, sem sementes. Nos últimos anos, porém, houve mudança no perfil de consumo. “Surgiu um grande fenômeno em busca das uvas sem sementes”, afirma.
A Embrapa teve papel fundamental nesse avanço, especialmente no desenvolvimento de cultivares adaptadas ao clima do interior paulista, garantindo produtividade e qualidade. “Os pesquisadores da Embrapa de Jales desenvolveram variedades de uvas, como a uva Vitória e a Melodia, que caiu no paladar dos consumidores. Outra variedade com sementes é a Núbia, uma uva muito bonita e doce. Temos algumas uvas para suco e vinho, porém não é forte na nossa região ainda”, afirma Boraschi.
No Recanto das Uvas, em Urânia, o proprietário Luciano Inácio Teodoro também observa essa preferência do mercado. “As principais variedades hoje, em nossa parreira, que são mais aceitas para comercialização são as variedades Núbia, Vitória, Melodia e Thompson. E acrescenta uma novidade. “Agora temos a Sweet Moscato, uma uva gourmet com o sabor incomparável e diferenciado.”
Turismo rural e experiência no campo
Além da produção, as propriedades investem em aproximar o consumidor do campo por meio do turismo rural. Boraschi abre as portas de sua empresa, entre julho e outubro, para o sistema “colha e pague”, permitindo que visitantes escolham seus próprios cachos diretamente das parreiras. “Oferecemos várias variedades de uvas com sementes e sem sementes.”
Teodoro, que divide a rotina na propriedade com a esposa, Elza Maria Neves Teodoros, também abre as portas para visitantes. A experiência vai além da compra: é uma oportunidade de entender o processo produtivo, aprender a identificar o ponto ideal de maturação e valorizar o trabalho manual que existe por trás de cada cacho. As visitas costumam ocorrer aos finais de semana e, durante a semana, mediante agendamento. “Aceitamos visita na propriedade e nas parreiras para fazer colheita de todas as variedades aos finais de semana, e na semana, com agendamento”, afirma.
A ideia é que o visitante tenha o contato direto com o produtor, reforçando um movimento cada vez mais forte no setor de alimentos: saber de onde vem o que se consome. No caso da uva regional, a resposta envolve pesquisa científica, dedicação familiar e adaptação ao clima tropical. E o trabalho começa cedo e exige paciência. “O processo de produção é de dois anos entre plantio e colheita”, explica o produtor Luciano Inácio Teodoro.

