A organização do lugar onde vivemos está relacionada à nossa saúde mental e emocional. Por um lado, o ambiente desorganizado, segundo psicólogas, pode aumentar a sensação de estresse, sobrecarga e até causar ansiedade. Por outro lado, pessoas em sofrimento emocional também têm menos energia para cuidar e organizar o entorno, o que pode criar um ciclo que precisa ser olhado com acolhimento.
O psicólogo clínico Bruno Garibaldi explica que viver cercado de pendências funciona como um gatilho. “Ao olhar para uma pilha de roupas, uma mesa cheia de papéis ou vários ambientes desorganizados, podemos sentir que temos muitas obrigações acumuladas, mesmo quando estamos tentando descansar e essa percepção pode contribuir para o estresse, a irritabilidade e a dificuldade de relaxar”, explica.
E quando o corpo e a mente cansam, também há dificuldade para organizar. “Quando estamos sobrecarregados, diante de dúvidas ou passando por um momento emocional difícil, podemos perceber uma redução na disposição para realizar tarefas cotidianas, como limpar a casa, organizar os objetos ou manter os espaços em ordem”, ressalta.
A explicação, segundo Bruno, está no fato de a energia mental não ser inesgotável. “Quando estamos lidando com muitas preocupações, conflitos ou decisões, tarefas que antes pareciam simples podem se tornar mais difíceis”, pontua. Com isso, aos poucos, segundo o psicólogo, podemos deixar de cuidar do ambiente ao nosso redor. “Não necessariamente por falta de vontade, mas porque outras demandas emocionais estão exigindo muito de nós”, reforça.
É importante compreender, segundo Bruno, que a relação entre a organização e a saúde mental e emocional funciona nos dois sentidos: “assim como o ambiente pode influenciar nosso estado emocional, nossa saúde mental também pode afetar a maneira como cuidamos e organizamos a casa”, ressalta. “Portanto, não se trata de ter uma casa perfeita, mas de construir um ambiente que favoreça o bem-estar e seja compatível com as necessidades e possibilidades de cada pessoa”, completa.
Ansiedade e depressão
Em quadros de ansiedade, a psicóloga Clínica Ellora Cembranelli explica que a sobrecarga de pensamentos, a preocupação excessiva e a dificuldade de concentração podem comprometer a realização de atividades cotidianas. “Na depressão, é comum observar alterações na disposição, na motivação e nas funções executivas, que envolvem habilidades como planejamento, organização e tomada de decisões”, afirma.
Já a desorganização, por sua vez, segundo a psicóloga, pode intensificar sentimento de frustração, culpa e incapacidade, contribuindo para a manutenção do sofrimento dos quadros. “É importante compreender que, nesses casos, a dificuldade em manter a casa organizada não deve ser interpretada como falta de interesse ou responsabilidade, mas como uma possível manifestação do estado emocional daquela pessoa”, diz.
E por que a organização do ambiente traz alívio? Porque envolve diferentes mecanismos psicológicos, segundo Ellora. “Um deles está relacionado à redução da sobrecarga de estímulos visuais, que, para algumas pessoas, pode contribuir para uma maior sensação de tranquilidade e favorecer a concentração”, cita. Outro aspecto importante é a sensação de controle e de autoeficácia. “Que corresponde à confiança na própria capacidade de realizar ações e alcançar determinados resultados”, explica.
A psicóloga afirma que quando um espaço é organizado, a pessoa consegue ver concretamente o resultado da iniciativa de organizar e isso pode proporcionar satisfação e ideia de autonomia. “Em momentos de instabilidade emocional, pequenas ações sobre o ambiente podem representar uma forma de recuperar certa previsibilidade diante de situações que parecem difíceis de administrar”, afirma.
Entretanto, é fundamental diferenciar esse alívio momentâneo de uma melhora efetiva da saúde mental. “A organização pode funcionar como um recurso de bem-estar e autorregulação emocional, mas não substitui o cuidado com as questões psicológicas que estejam produzindo sofrimento”, alerta Ellora.
Sinais
Afinal, como diferenciar o que é bagunça comum do que gera sofrimento? “A bagunça cotidiana é geralmente temporária e não compromete a rotina. Já a desorganização disfuncional prejudica o uso dos espaços, a convivência e o bem-estar”, explica a psicóloga e professora da Faculdade de Medicina de Rio Preto (Famerp), Andressa Talpo Zacheo Vilalva. “Quando há dificuldade persistente em descartar objetos, sofrimento significativo e prejuízos funcionais, é importante investigar possíveis questões clínicas, como o transtorno de acumulação”, alerta.
Os sinais de que a desorganização está interferindo no bem-estar envolvem vários sintomas. “Dificuldade para iniciar a organização, perda frequente de objetos, atrasos, prejuízos nos hábitos diários, isolamento social por vergonha da casa desorganizada, alterações no sono e aumento da ansiedade ou irritabilidade no ambiente doméstico”, explica Andressa Talpo.
A recomendação da professora da Famerp é organizar um espaço por vez e estabelecer prioridades para ajudar a reduzir a sensação de sobrecarga. “É importante, porém, evitar a cobrança excessiva: a casa não precisa estar impecável para ser um lugar de acolhimento. Quando a desorganização gera sofrimento significativo ou compromete a rotina, vale compreender o que está por trás dessa dificuldade, sem julgamentos”, afirma. “A organização deve funcionar como um recurso para melhorar a qualidade de vida, e não como mais uma fonte de cobrança e ansiedade”, conclui.

