No dinâmico cenário da inovação contemporânea, observamos um fenômeno curioso e, por vezes, preocupante: a tendência de gestores e líderes de mercado a adotarem uma postura extremista diante das novas tecnologias. Essa abordagem, que carinhosamente chamo de mentalidade 8 ou 80, revela uma face imatura da gestão corporativa que oscila entre a euforia cega e o ceticismo paralisante. É uma forma infantilizada de lidar com ferramentas complexas que exigem, acima de tudo, equilíbrio e visão estratégica de longo prazo.
Muitas empresas tratam a tecnologia como uma varinha mágica capaz de solucionar problemas estruturais da noite para o dia. Quando surge uma nova tendência, como a Inteligência Artificial generativa, corre-se para uma implementação desenfreada sem qualquer análise de aderência cultural ou operacional. Esse é o "80". É o investimento alto por impulso, o medo de ficar para trás — o famoso FOMO — que atropela processos básicos de governança e acaba gerando um passivo tecnológico difícil de gerenciar posteriormente.
No outro extremo, temos o "8", onde a inovação é vista com desconfiança absoluta. Aqui, qualquer mudança é encarada como um risco desnecessário, e a gestão se apega a modelos obsoletos sob o pretexto da prudência. Essa resistência não é cautela estratégica, mas sim um mecanismo de defesa contra o desconhecido. O resultado é a estagnação, onde a organização perde talentos e mercado por não conseguir acompanhar o ritmo de evolução do comportamento do consumidor moderno.
A maturidade na gestão de tecnologia exige o abandono desses binarismos. Inovar não é adotar todas as novidades, nem ignorá-las por completo. Segundo dados do Gartner, até 2026, organizações que priorizam o gerenciamento de confiança, risco e segurança da IA (AI TRiSM) alcançarão uma melhora de 50% na adoção de modelos em termos de aceitação e metas de negócios. Isso demonstra que o sucesso não está na velocidade da adoção, mas na robustez da estratégia que sustenta essa tecnologia no cotidiano da operação.
Tratar a inovação de forma infantilizada é esperar resultados imediatos e perfeitos. Na realidade do mercado, a tecnologia é um meio, não um fim em si mesma. O líder maduro entende que haverá falhas, ajustes e que o aprendizado é contínuo. Ele não descarta uma ferramenta ao primeiro erro, nem a idolatra como solução única. A clareza objetiva nos mostra que o caminho do meio, pautado por dados e testes controlados, é o que garante a sustentabilidade da empresa no ecossistema digital.
Precisamos substituir o impacto emocional das "ondas" tecnológicas por uma análise criteriosa de valor. A inovação real acontece no cinza, no ajuste fino entre o que é possível e o que é necessário. Quando saímos do extremismo do 8 ou 80, passamos a enxergar a tecnologia como ela realmente é: um braço direito poderoso que exige uma mente adulta e estratégica para ser conduzido com eficiência e responsabilidade.
