Há quem passe a vida construindo empresas. Há quem, ao longo dessa jornada, construa também oportunidades, relações e uma maneira de compreender o mundo. Aos 86 anos, o empresário Daniel de Freitas, fundador da Agrometal, olha para uma trajetória de sete décadas de trabalho sem se prender à nostalgia nem se acomodar às conquistas.
O menino de origem humilde, que vendia produtos de porta em porta, tornou-se uma das figuras conhecidas do empreendedorismo de Rio Preto, acompanhando as transformações da cidade, atravessando mudanças de rumo e aprendendo que, nos negócios e na vida, é preciso estar sempre disposto a recomeçar.
Biografado no livro “Fazendo certo dá certo”, e autor de “Empreender – 33 ideias para fazer o certo dar certo”, ele acredita que experiências e conhecimentos ganham valor quando podem ser transmitidos a outras gerações. Mas, ao revisitar a própria caminhada, reconhece uma conquista que supera empresas, títulos e homenagens: a família construída ao lado da esposa, Amelinha, com os três filhos e os seis netos.
Nesta entrevista à Bem-Estar, Daniel fala sobre vocação, escolhas, perdas, mudanças e o que aprendeu ao longo de uma vida dedicada a fazer acontecer — sem perder de vista aquilo que, para ele, realmente importa. Confira:
Bem-estar: O senhor costuma dizer que nasceu comerciante. De onde veio essa vocação para os negócios?
Daniel de Freitas: Nasci predestinado a ser empreendedor, daqueles que fazem acontecer, gerando riquezas, bem-estar e desenvolvimento. Venho de uma família humilde, porém trabalhadora, que me ensinou desde cedo que o caminho para vencer na vida exigia trabalho, garra, dedicação e a busca constante por novos conhecimentos, aproveitando todas as oportunidades. Minha mãe costumava dizer: “Você é um filho escolhido e abençoado por Deus, mas acho que foi picado pelo bicho-carpinteiro de empreendedor. Está sempre comprando ou vendendo alguma coisa.” Ela tinha razão. Sempre tive essa inquietação de realizar, criar oportunidades e transformar ideias em negócios. Para mim, empreender nunca foi apenas ganhar dinheiro, mas também gerar riquezas, criar empregos, proporcionar bem-estar e contribuir para o desenvolvimento da sociedade.
Bem-estar: Quando olha para aquele menino que começou vendendo produtos de porta em porta, o que ainda existe nele no Daniel de hoje?
Daniel de Freitas: Eu diria que quase tudo. A vontade de servir aos consumidores, proporcionando bem-estar e satisfação, continua a mesma. Desde o início, sempre vi no trabalho uma oportunidade de atender às necessidades das pessoas e, ao mesmo tempo, ganhar meu dinheiro de forma honesta, criando valor para todos os envolvidos. Esse espírito continua vivo em mim até hoje.
Bem-estar: Qual foi a maior dificuldade que o senhor enfrentou no começo da vida profissional e que acabou ensinando uma lição que nunca esqueceu?
Daniel de Freitas: As dificuldades sempre existiram e fazem parte da vida de qualquer empreendedor. Aliás, se tudo fosse fácil, perderia a graça. Empreender é enfrentar desafios permanentes, manter-se alerta e estar sempre preparado para o próximo embate. Essa caminhada me ensinou que precisamos ter a mente aberta, como um paraquedas, que só funciona quando está aberto. E, acima de tudo, cultivar a humildade. Ninguém gosta de fazer negócios com pessoas arrogantes. O verdadeiro empreendedor precisa estar sempre disposto a aprender, reconhecer seus limites e respeitar as pessoas.
Bem-estar: O senhor viveu uma Rio Preto muito diferente da atual. Que cidade o senhor guarda na memória e sente mais saudade?
Daniel de Freitas: Não sou saudosista. Gosto de viver intensamente cada momento. Rio Preto, nos anos 1960, tinha cerca de 78 mil habitantes. As ruas eram de terra batida e faltavam serviços básicos como iluminação pública, água encanada, esgoto e telefone. Eu morava no final da rua Jorge Tibiriçá, esquina com a rua Capitão José Verdi. Ali, praticamente, acabava a cidade. Não havia transporte coletivo e precisávamos resolver tudo a pé. Apesar das dificuldades, eu era feliz. Tinha consciência de que o futuro me esperava com um horizonte promissor, cheio de possibilidades e oportunidades. Mais do que saudade daquela cidade, guardo a lembrança de uma época em que a esperança e a disposição para trabalhar alimentavam meus sonhos.
Bem-estar: Em sua trajetória, houve momentos de grande crescimento, mas também mudanças de rumo. Qual foi a decisão empresarial mais difícil que precisou tomar?
Daniel de Freitas: Na vida de um empreendedor, nada é simples. Algumas decisões, porém, são especialmente difíceis e exigem coragem. A separação da sociedade na Casa São Paulo e a fundação da Agrometal, há 44 anos, são exemplos marcantes. Imagine ter construído uma marca consolidada no mercado, ter inaugurado uma sede própria nova, ter uma situação financeira equilibrada e ter trabalhado para esse objetivo por 14 anos e, mesmo assim, abrir mão de tudo e decidir começar tudo novamente por conta própria. Foi um mergulho em uma nova empreitada, praticamente do zero. A diferença é que eu levava a experiência adquirida, o conhecimento do mercado e os recursos financeiros para investir no novo negócio. Foi uma decisão difícil, mas que abriu caminho para construir outra história empresarial.
Bem-estar: O senhor deixou a Casa São Paulo para criar a Agrometal. O que o levou a apostar em um negócio próprio naquele momento?
Daniel de Freitas: Como escrevi em meu livro biográfico “Fazendo certo dá certo”, ter um sócio pode ser uma boa opção. Uma sociedade pode ser a chave para realizar o sonho de ter o próprio negócio, embora, às vezes, tenha prazo de validade. Foi o que aconteceu na Casa São Paulo. Depois de 14 anos de trabalho e muito progresso, decidimos que cada um seguiria seu próprio caminho empresarial. Os bens foram divididos em partes iguais, e cada um passou a construir sua própria história. A decisão de fundar a Agrometal nasceu da vontade de continuar empreendendo, colocando em prática a experiência acumulada e enfrentando novos desafios. Não se tratava de começar sem nada, mas de recomeçar com conhecimento, determinação e confiança na capacidade de realizar.
Bem-estar: A Agrometal passou pela indústria, fabricou reservatórios e depois mudou novamente o foco dos negócios. O que o senhor aprendeu sobre a necessidade de saber mudar?
Daniel de Freitas: Mudar é preciso, sempre e a qualquer tempo. Estamos permanentemente avaliando nossos negócios, procurando identificar o que precisa ser mudado e, principalmente, inovado. A visão de futuro precisa ser extremamente aguçada, pois é ela que indicará as mudanças necessárias. É preciso muito cuidado para não cair na zona de conforto e acreditar que tudo vai bem. A dinâmica da vida empresarial exige melhorias constantes e atenção permanente.
Bem-estar: Depois de tantas décadas empreendendo, o que mudou mais: o jeito de fazer negócios ou o jeito de ser empresário?
Daniel de Freitas: Uma coisa mudou a outra. O mercado é muito dinâmico, e a tecnologia trouxe as ferramentas que faltavam para promover uma grande transformação. Antigamente, fazíamos negócios por carta, telex, telefone e, às vezes, presencialmente. Sabíamos que qualquer deslocamento seria demorado e oneroso. Hoje, uma videochamada nos coloca frente a frente com um cliente em qualquer parte do mundo. Tudo ficou mais rápido, permitindo buscar cada vez mais produtividade e eficiência.
Bem-estar: Para quem construiu uma trajetória tão próspera, o que significa sucesso hoje? É a mesma coisa que significava aos 30 ou 40 anos de idade?
Daniel de Freitas: Sim, e talvez tenha ainda mais sabor. É a confirmação de que a trajetória deu certo. Costumo dizer que o sucesso é a combinação da sorte com a eficiência. Ninguém alcança o sucesso por acaso. Certamente, houve muita luta, dedicação e trabalho, pois, o sucesso não vem de graça: seu custo é alto.
Bem-estar: O senhor é também um homem muito ligado ao associativismo e à filantropia. De onde vem essa preocupação em devolver à sociedade parte do que conquistou?
Daniel de Freitas: Na verdade, não vejo isso como uma devolução à sociedade, mas como algo que cultivo desde a infância. Aprendi que ninguém é plenamente feliz se não houver justiça social e oportunidades de progresso para todos. Infelizmente, o Brasil ainda está longe de alcançar esse ideal. Por isso, precisamos participar ativamente das associações que amparam os menos favorecidos. Há, contudo, notícias positivas sobre a redução da pobreza no mundo. Johan Norberg, em seu livro “Progresso”, mostra que, apesar do que frequentemente ouvimos nos telejornais, estamos testemunhando um dos maiores avanços já registrados nos padrões de vida da população mundial.
Bem-estar: Que valores o senhor fez questão de transmitir à família?
Daniel de Freitas: Acredito que devemos nos orientar pelos princípios indispensáveis a uma vida harmoniosa, respeitando os valores humanos ensinados por Cristo. Destacaria três: Amor: respeito ao próximo, praticando a solidariedade, cultivando a bondade e estendendo a mão a quem precisa; Gratidão: valorizando o que temos, reconhecendo quem nos ajuda e agradecendo pelas oportunidades da vida; Honestidade: vivendo com verdade, agindo com ética e mantendo coerência entre o que pensamos, falamos e fazemos.
Bem-estar: O senhor tem sua trajetória retratada no livro “Fazendo certo dá certo”. Como foi ver sua história contada por outra pessoa?
Daniel de Freitas: É emocionante perceber a sensibilidade do autor ao descrever fatos ocorridos em minha vida há décadas, como se tivessem acontecido ontem. É difícil aceitar a brevidade da vida, ao reviver tantas alegrias e tristezas. Emociona-me ainda mais ler os depoimentos de grandes amigos que partiram recentemente. Permanecem vivos em nossa memória, e tenho a sensação de que ainda vou reencontrá-los a qualquer momento, como acontecia nos velhos tempos.
Bem-estar: O senhor também se tornou escritor. Em que momento percebeu que tinha histórias demais dentro de si e precisava colocá-las no papel?
Daniel de Freitas: Nasci comerciante e empreendedor, mas também descobri cedo minha vocação para ensinar. Aos 16 anos, já era professor na escola dominical de minha igreja; aos 19, fui instrutor no Exército, como monitor de meu pelotão; e, aos 22, já dominava a contabilidade o suficiente para ensinar aos alunos do Senac. A partir daí, nunca mais parei: ministrei palestras, realizei treinamentos em empresas e tive a honra de receber convites para ser paraninfo em diversas solenidades. Meu objetivo sempre foi inspirar empreendedores, compartilhando o que aprendi e vivenciei, além de transmitir conhecimentos às futuras gerações. Sobre isso, lancei no início do ano o livro “Empreender - 33 ideias para fazer o certo dar certo”, uma espécie de cartilha a jovens empreendedores inspirada na minha experiência de 70 anos de trabalho. Com a escrita, descobri uma nova liberdade. Diferentemente das aulas e palestras, posso escrever sem depender de horários, rever minhas ideias, corrigir, voltar atrás ou apagar o que considerar necessário. Posso guardar meus textos pelo tempo que desejar e compartilhá-los com quem quiser. Escrever é uma delícia que, infelizmente, descobri um pouco tarde na vida.
Bem-estar: Existe algum episódio narrado em seus livros que, hoje, relendo, ainda emociona ou diverte o senhor?
Daniel de Freitas: De maneira geral, todos me emocionam. Entretanto, o capítulo sobre o fechamento da metalúrgica, em 2016, e as dores e reflexões sobre o capitalismo moderno me trazem à memória tristeza e revolta. É doloroso ver um sonho acalentado durante 36 anos, que gerou 200 empregos diretos, ser desfeito como uma nuvem passageira. Todos os nossos colaboradores foram capacitados em nossa própria escola, onde oferecíamos formação para soldadores, operadores de máquinas e tantas outras funções. Apesar do fim melancólico, tenho a satisfação de saber que todos conseguiram se recolocar no mercado de trabalho, graças à experiência profissional e à formação adquiridas ao longo de anos e décadas conosco. Muitos construíram seu patrimônio, conquistaram a casa própria e proporcionaram aos filhos educação em boas escolas. Isso demonstra que, apesar do encerramento da empresa, ficou um legado humano e profissional que não se apaga.
Bem-estar: Há alguma história que o senhor ainda não contou em livro e que gostaria de contar?
Daniel de Freitas: Tenho várias histórias para contar e pretendo reuni-las em um novo livro. A vida é uma fonte inesgotável de experiências, aprendizados e lembranças que merecem ser compartilhadas.
Bem-estar: Existe algum arrependimento? Alguma decisão que, se pudesse voltar no tempo, faria de outra maneira?
Daniel de Freitas: Felizmente, considero que tive uma vida bem vivida, ao lado da Amelinha, minha querida esposa, dos nossos três filhos e dos seis netos. Não mudaria nada. Se pudesse voltar no tempo, seria para repetir os momentos felizes que vivemos juntos. Tenho consciência da finitude da vida, mas, enquanto me for possível, prosseguirei minha jornada, trabalhando, aprendendo, compartilhando experiências e procurando contribuir para a sociedade.
Bem-estar: Olhando para tudo o que viveu até aqui: se o Daniel jovem estivesse sentado diante do Daniel de hoje, que conselho o senhor daria a ele?
Daniel de Freitas: Primeiro, diria que, apesar de não gostar de olhar pelo retrovisor da vida, reconheço que venci boas batalhas. Fundei várias empresas bem-sucedidas, entre elas a Agrometal, líder de mercado em nossa região e no segmento em que atuamos. Também tenho uma boa lista de serviços prestados à comunidade da cidade que escolhi para viver e da qual muito me orgulho. Recebi diversos reconhecimentos públicos, entre eles o título de comendador da Ordem Municipal, concedido pela Câmara de São José do Rio Preto; o reconhecimento Major Donor II, do Rotary Internacional; a distinção de revendedor modelo da Makita, em Nagoya, no Japão; e o reconhecimento como excelente colaborador da Robert Bosch, em sua sede na Alemanha. Mas diria ao Daniel jovem que a vida é do tamanho dos seus sonhos. Faça o certo, sem medo de errar, vivendo intensamente. E, acima de todas essas conquistas profissionais e homenagens, existe uma riqueza maior: a família. Ao lado da Amelinha, minha querida e amada esposa, construímos uma família com nossos filhos, genros, nora e netos. Essa é, verdadeiramente, a maior conquista da minha vida.
