À frente da Organização de Procura de Órgãos (OPO) do Hospital de Base, em uma atuação que envolve hospitais de toda a região, o médico nefrologista João Fernando Picollo acompanha de perto uma das etapas mais delicadas e complexas da medicina: transformar a decisão de uma família, tomada em meio ao luto, em uma possibilidade concreta de vida para outras pessoas. É um trabalho que envolve o diagnóstico rigoroso da morte encefálica, o acolhimento dos familiares, a capacitação permanente das equipes de saúde, a manutenção dos potenciais doadores, a realização de exames, a captação dos órgãos e uma logística que precisa funcionar com precisão e rapidez.
Por trás de um transplante que chega ao conhecimento da população, existe uma verdadeira operação em rede. Médicos, enfermeiros, equipes de UTI, profissionais da OPO, comissões intra-hospitalares, laboratório, radiologia, centro cirúrgico, Central de Transplantes e equipes especializadas de captação, entre muitos outros profissionais, podem ser mobilizados para que uma única doação se concretize. Em uma doação multiorgânica, esse contingente pode ultrapassar 50 pessoas, muitas vezes distribuídas por diferentes hospitais e cidades.
Em 2025, a OPO do Hospital de Base alcançou, segundo dados apresentados pelo médico, 56 doadores efetivos por milhão de população e taxa de aceitação familiar de 75%. Os números ajudam a dimensionar a relevância do trabalho realizado na região, mas não revelam a parte mais difícil dessa atividade: conversar com famílias que acabam de perder alguém e, em meio à dor, ajudá-las a compreender a morte encefálica e a tomar uma decisão sobre a doação.
É justamente nessa fronteira entre a perda e a possibilidade de recomeço que Picollo desenvolve grande parte de sua atuação. Para ele, a doação não apaga uma tragédia nem diminui a dor de quem perdeu alguém, mas pode permitir que outras pessoas tenham a oportunidade de continuar vivendo. Ao longo dos anos, algumas dessas experiências também transformaram sua própria maneira de enxergar a medicina e a dimensão humana do trabalho.
Natural de Guariba (SP), o médico é casado há 19 anos com Viviane Queiroz e pai de Maria Laura, de 4 anos, e João Lorenzo, de 1 ano. Graduado em Medicina pela Faculdade de Medicina de Valença, fez residência médica em Clínica Médica e Nefrologia no Hospital de Base/Famerp/Funfarme e mestrado em Ciências da Saúde pela Famerp. Também possui MBA em Gestão em Saúde pela FGV e o Máster Internacional en Donación y Trasplante de Órganos, Tejidos e Células, pela Organização Nacional de Transplantes da Espanha.
No campo pessoal, ele define sua história como uma trajetória ainda em construção, na qual a família e as amizades ocupam lugar fundamental. “Considero a constituição da família um dos pilares fundamentais da minha vida. É onde encontramos referência, equilíbrio e sentido para muitas das escolhas que fazemos. Da mesma forma, considero muito importante cultivar boas amizades ao longo da vida. São relações construídas com o tempo, baseadas em confiança, respeito e presença nos momentos importantes”.
Leia a entrevista a seguir:
BE – Qual é exatamente o papel da Organização de Procura de Órgãos (OPO) e por que esse trabalho é fundamental para que uma doação de órgãos se concretize?
Picollo – A OPO funciona como um grande elo entre os hospitais da região e o sistema de transplantes. É uma estrutura de atuação regional, responsável por apoiar os hospitais na identificação dos potenciais doadores e acompanhar todo o processo de doação: desde o diagnóstico de morte encefálica, a manutenção adequada desse potencial doador e o acolhimento da família, até a organização de exames, logística e retirada dos órgãos.
Além disso, existe um trabalho que talvez a população veja menos, mas que é fundamental: capacitar continuamente os profissionais dos hospitais, identificar onde estão as dificuldades do processo e criar uma cultura de doação dentro das instituições.
É importante também esclarecer que a OPO não escolhe quem receberá os órgãos. A distribuição é realizada pelo Sistema de Transplantes, seguindo critérios técnicos e uma lista regulamentada. Costumo dizer que a doação não acontece por acaso. Para que ela se concretize, é preciso que uma grande rede funcione de maneira coordenada e no tempo certo.
BE – Muitas pessoas ainda imaginam que basta manifestar em vida o desejo de ser doador. Como funciona hoje a autorização para a doação de órgãos no Brasil e por que conversar sobre essa decisão com a família é tão importante?
Picollo – Esse é um ponto muito importante. No Brasil, adotamos o modelo da doação consentida. Existe uma determinação legal expressa: após a morte, a retirada de órgãos e tecidos para transplante depende da autorização da família. A legislação estabelece quem pode dar esse consentimento, como o cônjuge ou familiares maiores de idade, respeitando os graus de parentesco previstos em lei. Portanto, manifestar em vida o desejo de ser doador é extremamente importante, mas essa manifestação, isoladamente, não autoriza a retirada dos órgãos. No momento da doação, a família precisa consentir. Se a família não autorizar, a doação não acontece.
Também é importante esclarecer que não é obrigatório possuir carteira de doador, fazer registro em cartório ou deixar algum documento para ser doador. Hoje existem, inclusive, ferramentas que permitem registrar formalmente essa intenção em vida, mas elas não substituem a autorização familiar prevista em lei. Por isso insistimos tanto em uma atitude muito simples: converse com sua família.
Quando chegamos a uma UTI para conversar com familiares que acabaram de receber a notícia da morte de alguém que amam, não é o melhor momento para eles tentarem imaginar qual seria a vontade daquela pessoa. Se esse assunto já foi conversado em casa e o familiar disse claramente “eu quero ser doador”, a família passa a tomar aquela decisão conhecendo e respeitando uma vontade previamente manifestada. No Brasil, quem deseja ser doador precisa, acima de tudo, tornar essa vontade conhecida pela família. Mais importante do que guardar essa decisão em um documento é compartilhá-la com as pessoas que poderão, um dia, ser chamadas a respeitá-la.
BE – O que acontece nos bastidores entre a identificação do possível doador e a realização do transplante?
Picollo — É realmente uma grande operação, muitas vezes atravessando a madrugada. Primeiro, existe a identificação do paciente com suspeita de morte encefálica e a realização de um protocolo extremamente rigoroso para confirmação do diagnóstico. É fundamental reforçar que o diagnóstico de morte encefálica é realizado independentemente da possibilidade de doação.
Ao mesmo tempo, é necessário manter artificialmente a circulação e o funcionamento dos órgãos, realizar uma série de exames laboratoriais e de imagem, avaliar quais órgãos têm condições de serem transplantados e comunicar a Central de Transplantes. Após a confirmação da morte e a entrevista com a família, se houver autorização para a doação, inicia-se uma complexa logística. A Central identifica os potenciais receptores de cada órgão, as equipes transplantadoras são acionadas, deslocamentos são organizados, o centro cirúrgico é preparado e os horários precisam ser sincronizados. Isso acontece porque, depois da retirada, cada órgão possui um período limitado em que pode permanecer fora do organismo antes do transplante.
Por trás de um transplante que a população vê acontecer, existe uma operação de alta complexidade, envolvendo dezenas de pessoas trabalhando simultaneamente contra o tempo.
BE – O que ainda impede muitas famílias de autorizarem a doação de órgãos?
Picollo – Acredito que o primeiro ponto seja entender que a família é chamada a tomar uma decisão extremamente importante justamente em um dos momentos mais difíceis de sua vida. Muitas vezes, aquela morte foi súbita e inesperada, e os familiares ainda estão tentando compreender o que aconteceu. Uma das principais dificuldades é a compreensão da morte encefálica.
O paciente está em uma UTI, ligado a aparelhos; o coração continua batendo e o corpo permanece aquecido. Para quem não conhece o conceito, pode parecer que aquela pessoa ainda está viva ou que existe possibilidade de recuperação. Por isso, antes de se falar em doação, é fundamental que a família compreenda plenamente que a morte ocorreu.
Outro fator importante é não conhecer a vontade do familiar. Quando essa conversa nunca aconteceu, os parentes precisam responder, em meio ao luto: “O que ele gostaria que nós fizéssemos?”. Quando a pessoa manifestou claramente em vida que desejava ser doadora, a decisão costuma ser mais tranquila.
Também encontramos medos e mitos, como o receio de que a retirada dos órgãos deforme o corpo, dúvidas sobre quem receberá os órgãos, medo de favorecimento na fila e desconfiança de que o atendimento possa ser abreviado porque o paciente é um potencial doador. Esses pontos precisam ser esclarecidos: a retirada é realizada cirurgicamente e com respeito ao corpo, e a distribuição segue os critérios do Sistema Nacional de Transplantes e a lista de espera.
A entrevista familiar não é simplesmente o momento de “pedir os órgãos”. É, antes de tudo, um encontro de acolhimento, escuta, comunicação da morte e esclarecimento de dúvidas. Não cabe à equipe pressionar ou convencer, mas oferecer informações para uma decisão consciente e respeitada.
Na nossa região, em 2025, alcançamos taxa de aceitação familiar de 75%, resultado que interpreto como reflexo do trabalho contínuo de capacitação, comunicação adequada e construção de confiança com as famílias.
Quanto melhor a família compreende o que aconteceu e, principalmente, quanto mais conhece a vontade daquela pessoa em vida, maiores são as condições para que possa tomar uma decisão consciente sobre a doação.
BE – Existe algum mito sobre doação de órgãos que o senhor gostaria de eliminar de uma vez por todas?
Picollo – Sim: a ideia de que morte encefálica seja uma espécie de coma profundo e que a pessoa possa acordar. Morte encefálica é morte. O diagnóstico segue critérios médicos rigorosos, com avaliações realizadas por profissionais capacitados, testes específicos e exame complementar. Ele não é realizado para possibilitar uma doação; é realizado porque existe a necessidade médica e legal de determinar se aquela pessoa morreu. Somente depois desse diagnóstico é que a possibilidade da doação pode ser abordada com a família. Outro mito frequente é o de que a retirada dos órgãos deformaria o corpo. A retirada é uma cirurgia realizada por equipes especializadas, o corpo é devidamente reconstituído e o velório pode ocorrer normalmente.
BE – Depois que a família autoriza a doação, quantas vidas podem ser transformadas por um único doador?
Picollo – O impacto pode ser extraordinário. Dependendo das condições clínicas do doador, podem ser doados coração, pulmões, fígado, rins, pâncreas e intestino, além de diferentes tecidos. Considerando os órgãos sólidos, um único doador pode potencialmente beneficiar vários receptores — em condições ideais, até oito pessoas — e, quando incluímos tecidos como córneas, pele, ossos e tendões, o número de pessoas beneficiadas pode ser ainda maior.
Mas gosto de lembrar que não estamos falando apenas de números. Para cada órgão, existe uma pessoa e uma família esperando. É alguém que pode voltar para casa, sair da diálise, voltar a trabalhar, cuidar dos filhos ou simplesmente ter novamente uma perspectiva de futuro.
BE – O senhor acompanha de perto momentos de muita dor para as famílias, mas também testemunha a possibilidade de uma nova vida para quem espera por um órgão. Como é emocionalmente lidar com esses dois lados da doação?
Picollo – Esse é, sem dúvida, um dos aspectos mais delicados do nosso trabalho. Para a família que está diante de nós, naquele momento, existe uma perda irreparável. E isso precisa ser respeitado. Não podemos olhar para aquela família apenas como uma possibilidade de doação.
Nosso primeiro papel é acolher, explicar, estar presente e respeitar o tempo de cada pessoa. Ao mesmo tempo, como profissionais que trabalham com transplantes, sabemos que, em algum outro lugar, há pessoas aguardando um órgão e que aquela pode ser a única oportunidade de continuar vivendo.
Com o passar dos anos, aprendi que não devemos tentar transformar uma tragédia em algo bonito. A perda continua sendo uma perda. Mas a doação pode fazer com que, em meio a uma situação extremamente dolorosa, aquela família encontre um significado na decisão que tomou.
Talvez essa seja uma das experiências mais profundas da medicina: estar diante da finitude de uma vida e, ao mesmo tempo, saber que daquele gesto podem nascer novas possibilidades de vida para outras pessoas.
BE – A OPO do Hospital de Base atua em uma região extensa e atende a diferentes hospitais. Quais são os maiores desafios para identificar potenciais doadores e viabilizar a captação de órgãos no interior de São Paulo?
Picollo – A distância é um desafio importante, mas não é o único. Temos hospitais com estruturas, recursos e experiências muito diferentes. Precisamos garantir que um potencial doador seja reconhecido precocemente, independentemente de estar em um grande centro ou em um hospital menor da região. Isso exige educação permanente, disponibilidade para apoiar as equipes 24 horas, acesso rápido aos exames necessários para o diagnóstico de morte encefálica, adequada manutenção do potencial doador e uma logística muito bem coordenada.
A OPO do Hospital de Base vem trabalhando há anos justamente na construção dessa rede regional. Em 2025, alcançamos 56 doadores efetivos por milhão de população, um resultado que nos orgulha muito.
Mas considero importante dizer que esse número não pertence apenas à OPO ou ao Hospital de Base. É resultado do trabalho dos hospitais de toda a região, das equipes assistenciais e, principalmente, das famílias que disseram sim à doação.
BE – Existe uma situação ou história vivenciada ao longo da sua atuação na OPO que tenha mudado sua maneira de enxergar a doação de órgãos?
Picollo – Existe uma história que me acompanha até hoje. Era o aniversário de seis anos de uma criança. Naquele dia, o pai havia saído para trabalhar e comprar um presente para o filho. Quando retornou para casa, encontrou uma situação que jamais poderia imaginar: o filho havia sofrido um afogamento acidental e estava sendo atendido pela equipe do Samu. A criança foi levada ao Hospital da Criança e Maternidade e, dois dias depois, após todo o protocolo médico, foi diagnosticada a morte encefálica.
Lembro principalmente da conversa com os pais. Antes de falar em doação, era necessário ajudá-los a compreender que o filho havia morrido e acolher uma família absolutamente devastada. Havia, além da dor, um enorme sentimento de culpa diante de algo tão inesperado. Mesmo atravessando provavelmente o momento mais difícil de suas vidas, aqueles pais decidiram autorizar a doação dos órgãos do filho.
Essa experiência me marcou profundamente porque mostrou que a doação não apaga a tragédia, não diminui a saudade e não torna aquela perda menos dolorosa. Mas, mesmo no momento de maior sofrimento, uma família pode tomar uma decisão de enorme generosidade e permitir que outras pessoas tenham uma oportunidade de continuar vivendo. Naquele dia aprendi que a doação de órgãos talvez seja uma das expressões mais profundas de generosidade humana: uma família, mesmo sem poder mudar o seu próprio desfecho, decide transformar o desfecho de outras famílias.
BE – Se o senhor pudesse deixar uma única mensagem para uma família que hoje ainda tem dúvidas sobre a doação de órgãos, qual seria?
Picollo – Eu diria: conversem sobre isso enquanto estão juntos e enquanto esse assunto ainda é apenas uma conversa. Diga à sua família se você deseja ser doador e pergunte também qual é a vontade das pessoas que você ama. Porque, quando chega o momento da decisão, a família já está vivendo uma dor enorme. Conhecer previamente a vontade daquela pessoa pode tornar uma decisão tão difícil um pouco mais clara.
Não precisamos falar sobre doação pensando na morte. Podemos falar sobre doação pensando na vida e no que gostaríamos que acontecesse depois de nós.
Se você deseja ser doador, não guarde essa decisão para você. Conte para sua família. Uma conversa hoje pode, um dia, significar a continuidade da vida para muitas outras pessoas.
