Professor por vocação e apaixonado pela natureza desde a infância, Antônio Carlos de Carvalho construiu uma trajetória sólida ao longo de mais de 30 anos dedicados à sala de aula. Formado pela Faculdade de Filosofia de Catanduva (Fafica), em 1972, fez da geografia não apenas uma disciplina, mas uma ferramenta de formação cidadã.
Casado há 56 anos com Marilza Rosani de Carvalho, pai de três filhas, Carla, Carina e Caroline, o professor Carlão, como é carinhosamente conhecido, orgulha-se de ter participado da formação de inúmeros profissionais que hoje se destacam como médicos, empresários, professores, políticos e comunicadores. Entre eles, nomes reconhecidos na sociedade local e regional.
“Trabalhei longo período na mesma profissão. Formei muitos seres humanos. Tais como o político Rodrigo Garcia, doutor Kaiser Jr, os filhos do doutor João Roberto Antônio, Patrícia Buzzini, os Cabrera, os Tarraf, o doutor Renato Freitas, entre outros. São mais de 30 anos lecionando em diversas escolas, na maior parte da trajetória profissional, no Anglo, da Siqueira Campos”, destaca.
Carlão aprecia momentos simples: pescaria, futebol e boas conversas com amigos na rua. Mas é ao falar sobre educação que seus olhos brilham.
Confira a entrevista:
BE – Professor, o senhor poderia contar um pouco da sua trajetória como professor?
Antônio Carlos – Eu sou um adepto da natureza e, desde o período pré-escolar, já tinha aptidão para conhecer o mundo, e isso me levou a fazer Geografia. Estou há 30 anos frequentando salas de aula. Dei aula em diversos colégios, exclusivamente para pessoas adultas. Na época, optei apenas por colégios particulares, embora tenha passado no concurso para professor da rede estadual. Ter a experiência de trabalhar com esse público foi muito satisfatório. O clima nas salas era diferente. Em relação aos outros professores, eu gostava de trabalhar com giz colorido; queria ter quatro ou cinco cores para montar o quadro. Diziam que era muito bonito, muito didático. A pessoa copiava o quadro no caderno e realmente estudava por ele para vestibulares, provas e concursos.
BE – O que o levou a escolher a geografia como área de estudo?
Antônio Carlos – O que me levou a estudar Geografia foi um curso que fiz em Catanduva, com duração de quatro anos, uma formação plena na área. Como sou adepto da natureza, das condições econômicas e das condições políticas, sempre me identifiquei muito com a disciplina. Gosto muito de Geopolítica, Geografia Física e Geografia Humana, que estudam desde relevo, vegetação e paisagens até economia e agricultura dentro do meio geográfico.
BE – Ao longo dos anos em sala de aula, o que mais mudou no ensino?
Antônio Carlos – A tecnologia mudou tudo. Os celulares, os computadores… Hoje as pessoas não têm mais tanto interesse pelo quadro, por um roteiro escrito. Atualmente, a inteligência artificial atua muito. Então, percebemos claramente a evolução no espaço educacional.
BE – E no comportamento dos alunos?
Antônio Carlos – A educação não está como era antigamente, porque antes a família indicava e exigia respeito pelos professores em sala de aula. Hoje, os pais parecem ignorar algumas atitudes dos filhos na escola.
BE – Quais temas o senhor mais gostava de ensinar? Por quê?
Antônio Carlos – A geografia se divide em determinados setores. Eu gostava muito, muito mesmo, de Geografia Física: estudar clima, relevo e vegetação. Embora também apreciasse a Geografia Humana, eu fazia um apanhado geral, estudando tanto a parte física quanto a humana.
BE – Na sua visão, como a geografia contribui para a formação cidadã dos alunos?
Antônio Carlos – O aluno deve ter no currículo o estudo de Geografia, porque é assim que vai adquirir conhecimentos, identificar países, compreender trajetos geográficos e políticos, despertando interesse. Ele vê um comentário no jornal, na TV ou no celular e precisa entender o contexto. A Geografia é utilizada ao longo de toda a vida.
BE – Rio Preto passou por muitas transformações ao longo da sua vida. Quais mudanças mais chamaram sua atenção?
Antônio Carlos – Minha atenção foi chamada por diversos aspectos. Primeiro, a arborização da cidade. Foi deixado de lado o plantio de árvores, que favorecem as chuvas e contribuem para o clima e a temperatura da cidade. Outra mudança muito grande foi o aumento do número de veículos que circulam na área urbana. Quanto mais veículos, maior o impacto nas condições climáticas. Esses são fatores que alteram as condições atuais da cidade. Rio Preto sempre foi muito quente, mas, com as alterações climáticas ao longo dos anos, a cidade ficou ainda mais quente.
BE – Questões ambientais sempre fizeram parte das aulas. O senhor acha que hoje elas são mais urgentes?
Antônio Carlos – O desmatamento que acontece no globo já não tem como ser revertido completamente. É um desmatamento que tem um significado muito grande em relação às chuvas, à temperatura e à circulação de massas de ar em determinados países.
BE – Qual foi o maior desafio que enfrentou durante sua carreira como educador?
Antônio Carlos – O maior desafio foram salas de aula com capacidade muito elevada de alunos. Por exemplo, nos cursinhos havia salas com até 200 alunos, e era necessário usar microfone. Eu dava aula de manhã, à tarde e à noite e, consequentemente, isso afetava minha saúde, principalmente minha voz, além da minha condição física e mental em alguns momentos.
BE – Existe alguma história ou lembrança marcante com alunos que o senhor guarda até hoje?
Antônio Carlos – As salas de aula eram organizadas em fileiras, e a primeira e a segunda fileira eram sempre ocupadas pelas minhas filhas, embora estudassem em salas diferentes. Quando as aulas começavam, meu coração sempre batia mais forte.
Tenho uma lembrança muito especial de uma turma do terceiro colegial de que eu gostava muito, o terceiro A. Em um desses dias, os alunos levaram um bolo pelo meu aniversário. Praticamente não houve aula; ou melhor, a aula se resumiu a uns cinco minutos, porque um grupo entrou com o bolo e cantou “Parabéns” para mim. Isso foi algo muito marcante na minha vida profissional.
Também guardo lembranças das pessoas que frequentavam bastante o cursinho. Havia, por exemplo, policiais que se preparavam para concursos, nos quais eu também dava aula. O curso noturno era frequentado por pessoas que trabalhavam, militares e outros profissionais, sempre muito atenciosos conosco. Isso marcou muito minha vida e meu cotidiano escolar.
BE – Que conselhos o senhor daria aos jovens professores que estão começando agora?
Antônio Carlos – Para quem está começando, o profissional deve entrar em sala sendo muito criativo em relação ao conteúdo. Deve manter parceria com os outros professores, além de ter paciência e calma direcionadas à sala de aula.
BE – Olhando para trás, como o senhor avalia sua contribuição para a educação e para seus alunos?
Antônio Carlos – Eu caracterizo essa contribuição como muito importante. Pelo relacionamento que ainda mantenho com diversos alunos, percebo isso claramente. Vou a uma agência bancária e encontro ex-alunos que se lembram das aulas e dos quadros que eu escrevia. Entro em um consultório médico e encontro médicos que foram meus alunos. Em uma fila de supermercado, encontro ex-alunas que reconhecem meu trabalho.
Meu trabalho foi altamente satisfatório e contribuiu de forma significativa para a sociedade, na formação e na educação desses alunos. Até hoje, eles guardam boas memórias do professor Carlão.
