Lúcia Helena Galvão transformou a Filosofia em uma ponte entre os grandes questionamentos da humanidade e os desafios da vida cotidiana. Filósofa, professora, escritora, poeta e palestrante, ela é uma das mais respeitadas e influentes divulgadoras do pensamento filosófico no Brasil. Há mais de 34 anos atua como professora voluntária da Nova Acrópole do Brasil, organização dedicada ao estudo e à divulgação da Filosofia, onde encontrou uma forma de colocar o conhecimento a serviço da transformação humana.
Com mais de mil palestras publicadas no YouTube da Nova Acrópole Brasil e na plataforma Acrópole Play, Lúcia Helena também se tornou um fenômeno na internet. O canal reúne mais de 1,5 milhão de inscritos e 140 milhões de visualizações, levando a um público amplo reflexões sobre virtudes, felicidade, ética, autoconhecimento e os caminhos para uma vida mais consciente. Seu trabalho procura aproximar ensinamentos filosóficos antigos das questões do presente, sempre com a proposta de transformar conhecimento em experiência e ação.
Autora de 13 livros, Lúcia Helena também transita por diferentes formas de expressão. Prefaciou obras como A Guerra da Arte, de Steven Pressfield, e Luz no Caminho, de Mabel Collins; escreveu letras de músicas, entre elas “Prudência”, interpretada por Zizi Possi, e três roteiros para teatro: Blavatsky, estrelado por Beth Zalcman, O Profeta e Ânima. Como palestrante, leva seus conhecimentos a empresas, órgãos públicos e instituições no Brasil e no exterior, além de ministrar cursos sobre administração do tempo e técnicas de estudo, que já alcançaram milhares de alunos.
Por trás da professora que reúne milhões de pessoas em torno da Filosofia, existe também uma mulher que encontra prazer nas coisas simples: estar com a família, conviver com os animais de estimação e ler. Aos 34 anos de dedicação à Filosofia, quando questionada se já alcançou seus objetivos profissionais, sua resposta revela uma característica marcante de sua trajetória: “Estou exatamente onde gostaria de estar, no momento presente”.
Confira a entrevista a seguir:
BE – A senhora nasceu no Rio, cresceu em Brasília e também morou em Belém e em João Pessoa. O que cada uma dessas cidades deixou na mulher que você se tornou?
Lúcia Helena Galvão – Sempre há algo que podemos aprender com as cidades. O Rio de Janeiro sempre foi, sempre me pareceu uma cidade muito expansiva, muito alegre. Brasília é bem mais reservada, João Pessoa, muito fraterna, muito comunitária, e Belém, muito apegada às tradições da terra. Cada uma delas deixou uma marca na minha vida, no meu coração e me permitiu aprender alguma coisa.
BE – Na adolescência, Machado de Assis e Khalil Gibran já despertavam em você uma inquietação que mais tarde reconheceria como filosófica. O que uma adolescente encontrava nesses dois autores?
Lúcia Helena Galvão – Machado de Assis e Kalil Gibran, ambos têm reflexões sobre a natureza da vida, o porquê dos acontecimentos. Machado de Assis, de uma maneira muito irônica, e Khalil Gibran, de uma maneira muito poética, mas ambos questionam as estruturas, as cifras da vida. E isso me levou às reflexões mais profundas, me levou a outras perguntas, a querer entender o mundo em que eu me situava de uma maneira mais profunda.
BE – Existe alguma ideia filosófica que a senhora acreditava ser verdadeira e que a vida fez você rever?
Lúcia Helena Galvão – Eu não acreditava que o ser humano pudesse superar o seu egoísmo, a sua separatividade, em prol de uma unidade maior. A filosofia me demonstrou que existe, dentro do ser humano, a semente da unidade, a inclinação para a fraternidade, e que esse, necessariamente, é o nosso destino: caminhar para a unidade de onde todos nós viemos.
BE – A senhora e sua filha, Isabella, já dividiram projetos relacionados à Filosofia. O que aprendeu com ela que nenhum de seus mestres poderia ter ensinado?
Lúcia Helena Galvão – Isabela me ensinou algo muito importante: entregar-se sem nenhuma espera de resultados. Minha filha é muito madura, desde muito jovem, e tem esse espírito de dar sem nenhuma expectativa, de uma entrega incondicional. Eu posso dizer que aprendo, tenho aprendido e aprenderei sempre com ela em relação a isso. É uma qualidade que, com certeza, ela traz consigo há muito tempo.
BE – A senhora transita entre Filosofia, literatura, poesia, música e teatro. Qual dessas formas de expressão permite dizer aquilo que as outras não conseguem?
Lúcia Helena Galvão – Eu acredito que tudo que eu faço — literatura, poesia, música, teatro — na verdade é uma forma diferente de transmitir a filosofia. A filosofia é conteúdo e as demais artes são simplesmente uma forma de transmiti-lo. Eu acredito que a filosofia é a essência, o conteúdo de tudo aquilo válido que há para ser dito. As expressões artísticas são maneiras diferentes de embalar esse mesmo conteúdo, e que, se não há algum conteúdo, alguma essência filosófica, as formas artísticas ficam como o envelope vazio.
BE – Entre uma palestra para milhares de pessoas e uma conversa filosófica com uma única pessoa, em qual situação a senhora sente que a Filosofia produz mais transformação?
Lúcia Helena Galvão – Eu acredito que a filosofia produz transformação não apenas quando se conversa com milhares de pessoas ou com uma pessoa, mas quando a vida apresenta uma situação complexa e conseguimos responder de forma humana, segundo aquilo que a filosofia orienta. A filosofia está na ação, no chão debaixo dos nossos pés; faz-se presente quando caminhamos. É na vivência prática, em que enfrentamos e respondemos às dificuldades da vida, que a filosofia produz os seus maiores frutos.
BE – A senhora continua dando aulas, palestras e cursos, escrevendo livros e roteiros e produzindo conteúdo para um público enorme. O que ainda dá frio na barriga antes de entrar no palco?
Lúcia Helena Galvão – Não tenho propriamente frio na barriga antes de entrar no palco, porque tudo aquilo que eu faço é consagrado. Faço em nome de algo maior. Portanto, eu sei que não é a minha personalidade que fala ali; na verdade, a minha personalidade é um veículo para coisas maiores do que ela, que me honram por chegar ao mundo através de mim.
Eu sempre falo de um conceito de felicidade que, para mim, é o melhor de todos, que é: a felicidade é quando as leis do universo vêm ao mundo através de nós.
Se eu falasse de coisas pessoais, com certeza eu teria muito medo, teria frio na barriga e talvez não conseguisse pronunciar uma única palavra, mas eu não falo nada pessoal. Eu falo de valores universais que necessitam vir ao mundo, e eles me honram por me usar como veículo.
BE – Qual é hoje o principal desafio para fazer a Filosofia chegar a mais pessoas, especialmente em um mundo tão acelerado e dominado pelas redes sociais?
Lúcia Helena Galvão – O principal desafio para fazer filosofia em nossos dias eu explico por meio de um ditado popular, que diz que a árvore que mais gera frutos saborosos e nutritivos é a que mais recebe pedras. É exatamente isso, não existe nada mais subversivo no nosso momento histórico do que ser virtuoso e falar de virtudes. As pessoas acham mais fácil rebaixar aqueles que estão tentando fazer alguma coisa boa no seu nível do que crescerem até o nível deles. Falar de defeitos, falar de debilidades é muito bem aceito, mas falar de valores universais, de virtudes, muitas vezes gera muitas críticas, muitos ataques maliciosos, muitas calúnias e, às vezes, precisamos contar com a maturidade e o bom senso das pessoas para saber o que deve ser levado a sério e o que não deve.
BE – Qual filósofo a senhora gostaria de convidar para um café — e qual seria a primeira pergunta que faria a ele?
Lúcia Helena Galvão – Com certeza convidaria Platão e eu perguntaria como fazer com que a ideia do bem seja internalizada em nós, como nosso nome interno, nossa tônica de vida, de tal maneira que a bondade seja a nossa identidade mais profunda e não deixarmos penetrar nada que seja alheio a ela.
BE – Qual foi a maior lição que a vida lhe ensinou e que nenhum livro de Filosofia poderia ter ensinado?
Lúcia Helena Galvão – A vida me ensinou, pela observação e pela convivência, que Platão tinha inteira razão quando dizia que todos os seres humanos são duais, são uma mistura de luz e de sombra, e que nós podemos escolher identificá-los e amá-los por aquilo que eles têm de mais luminoso. Quando fazemos isso, nós podemos nos aliar àquilo que eles têm de luz e ajudá-los a lutar contra suas próprias trevas. Isso é a melhor coisa que podemos fazer pelos seres humanos. Se nós encontrarmos a luz que existe dentro de cada ser humano, todos eles caberão dentro do nosso coração, e poderemos fazer a diferença na vida deles.
