Antes de transformar a cultura caipira em matéria de pinturas, livros e crônicas, Jocelino Soares já desenhava o mundo à sua maneira. Nas paredes das antigas taperas, o carvão fazia as vezes de lápis, enquanto a imaginação daquele menino procurava enxergar o que existia além do horizonte. Havia nele a inquietação de quem desejava conhecer outros mundos e, ao mesmo tempo, a saudade antecipada de quem pressentia que um dia precisaria deixar para trás a terra onde nasceu.
A bicicleta virou companheira de viagem, e as pedaladas até Rio Preto, uma forma de alimentar a fome de conhecimento. Vieram os livros, a descoberta da arte, as exposições e uma trajetória que atravessou diferentes linguagens e estilos. Em mais de cinco décadas dedicadas à pintura, Jocelino produziu centenas de obras, escreveu romances e crônicas e construiu um universo próprio, povoado por personagens, lembranças e paisagens do interior paulista.
Entre suas figuras mais emblemáticas estão as mulheres da roça, retratadas com olhos enormes, como se ainda perguntassem ao céu até quando precisariam suportar uma vida de trabalho e sacrifício. Conhecidas como Zóiudas, elas carregam a memória de uma realidade que o artista conheceu de perto e que não quer ver esquecida.
Aos 71 anos, Jocelino continua pintando diariamente e encontra na arte uma razão para seguir trabalhando. Nesta entrevista à Bem-Estar, ele revisita a infância, explica por que passou a pintar figuras masculinas e reflete sobre o desaparecimento de tradições e paisagens do interior. Confira:
Bem-Estar - Você nasceu e cresceu na zona rural. O que daquele menino da roça ainda existe no Jocelino de hoje?
Jocelino Soares - Penso que ainda carrego muito daquele menino dentro de mim. Tanto é verdade que estou sempre falando dele. Isso me faz lembrar, parafraseando Fernando Sabino: “Jocelino, o homem que nasceu velho e vai morrer menino”.
Bem-Estar - Você já contou que desenhava nas paredes de casa com carvão. O que aquele menino enxergava que os adultos talvez não enxergassem?
Jocelino Soares - Sim, eu desenhava nas paredes das velhas taperas, usando carvão. Sempre fui um menino que gostava de ficar sozinho. Ora inrriba de um pé de manga, ora chupando cana-caiana debaixo de um pé de laranja-lima. Não sei exatamente o que enxergava naqueles momentos. Queria muito descobrir o que existia além do horizonte. Sentia que um dia teria de ir embora, mas, ao mesmo tempo, uma dor profunda apertava meu peito só de pensar em deixar meu torrão natal.
Bem-Estar - Ainda muito jovem, você percorria dezenas de quilômetros de bicicleta para buscar livros em Rio Preto. De onde vinha aquela fome de leitura?
Jocelino Soares - Ah, verdade! Foram tantas idas e vindas, pedalando uma velha bicicleta em busca do saber. Sentia que, com o passar do tempo, aquele mundo estava ficando cada vez menor. Nascia, então, o desejo de buscar novas paragens. Era o chamado de uma alma inquieta, sempre desejosa de conhecer mais, de descobrir outros mundos e de alargar seus horizontes.
Bem-Estar - Qual foi o primeiro livro que realmente mexeu com você e fez você perceber que a literatura poderia mudar a maneira de enxergar o mundo?
Jocelino Soares - Acima, falei do pé de laranja-lima onde brincava e me perdia em pensamentos. Foi justamente em 1968 que José Mauro de Vasconcelos publicou Meu Pé de Laranja-Lima. Confesso que a identificação foi imediata, aconteceu ali mesmo, no instante em que abri o livro. De alguma maneira, encontrei naquela história um pedaço da minha própria infância.
Bem-Estar - O senhor já produziu centenas obras. Quando olha para essa produção toda, o senhor enxerga uma trajetória coerente ou vários Jocelinos diferentes?
Jocelino Soares - Sim, produzi algumas centenas de obras. Sempre estive em busca do meu próprio eu. Meu desejo era criar algo diferente, que carregasse uma identidade própria. Assim, em cada fase da minha trajetória artística, ficaram pedaços de mim, da minha história e da minha alma.
Bem-Estar - Sua pintura passou por diferentes fases e estilos. O que fez você mudar ao longo do caminho, como começar a pintar figuras masculinas recentemente?
Jocelino Soares - Passei por muitas fases, sempre procurando aprimorar e refinar meu trabalho. Ao longo dessa trajetória, experimentei diferentes caminhos, buscando deixar minha marca nessa permanente evolução. Durante mais de cinquenta anos, pintei somente a figura feminina. Até que recebi uma encomenda do empresário Allim Bassitt para pintar uma Via-Sacra. Foi um despertar. Percebi que minha obra havia dado um salto, alcançado outra dimensão. Hoje, sinto-me pleno com essa nova fase.
Bem-Estar - As mulheres da roça aparecem com frequência em sua obra. O que aquelas mulheres que você conheceu no trabalho rural deixaram dentro de você?
Jocelino Soares - Ah, as mulheres! As Zóiudas! Quando morava na roça, percebia como muitas delas eram submetidas a uma vida de escravidão dentro do próprio casamento. Levantavam-se muito cedo, antes dos maridos, e começavam imediatamente a lida. Acendiam o fogo, soprando um tição que havia sido deixado da noite anterior, e preparavam o café. O marido tomava a bebida e seguia para a roça.
Ela ficava em casa, cuidando dos animais, tirando água do poço, lavando roupas e preparando o almoço. Depois, colocava a comida num ombro, carregava uma criança no colo e seguia para a roça, acompanhada por mais dois ou três pequenos.
Lá trabalhava até as cinco da tarde. Voltava para casa com um feixe de lenha na cabeça e uma criança nos braços. Chegava exausta, depois de um dia inteiro de trabalho, mas a jornada ainda não havia terminado. Era preciso começar tudo de novo.
O marido chegava, tomava banho, jantava e ia para o terreiro prosear com os companheiros, enquanto ela continuava trabalhando. Lá pelas nove da noite, ele voltava, e os dois iam dormir. Nove meses depois, nascia mais uma criança.
A mulher da roça, aos 25 anos, muitas vezes já trazia no rosto as marcas de uma vida inteira de sofrimento e trabalho.
É por isso que pinto minhas Zóiudas com olhos enormes, como se seus olhares, voltados para o alto, estivessem perguntando: “Até quando, meu Deus?”
Bem-Estar - Você teve obras expostas no Brasil e também fora do País. O que muda quando um artista brasileiro apresenta uma obra profundamente ligada ao interior para alguém de outra cultura?
Jocelino Soares - Sim, tive a oportunidade de viajar para outros países, levando comigo a minha arte. Lá, as pessoas ficam impressionadas com o colorido das minhas pinturas e me perguntam se o Brasil é assim mesmo. É gratificante perceber que, por meio da arte, consigo apresentar um pouco da nossa cultura, da nossa gente e da nossa maneira de enxergar o mundo.
Bem-Estar - Você publicou "Sentimento Caipira" e "No Sertão dos Ignácios". Quando uma história aparece na sua cabeça, você sabe desde o começo se ela vai virar quadro ou livro?
Jocelino Soares - Publiquei Sentimento Caipira, uma reunião de crônicas que saíram aqui no Diário da Região; Clara, um Romance Caipira; O Criador de Sacis, que conta as aventuras das minhas netas Letícia e Sarinha; Júlia, a Louca da Aldeia; e No Sertão dos Ignácios. Tenho outro romance pronto, aguardando publicação.
Comecei a escrever romances porque adaptei uma frase de Ferreira Gullar: “Eu escrevo porque pintar não basta.”
Bem-Estar - Você foi aluno da Casa de Cultura e anos depois chegou a dirigir a instituição. O que significou voltar para aquele lugar em uma posição completamente diferente?
Jocelino Soares - Pois é... A vida tem dessas coisas! Eu era pouco mais que um menino quando comecei a frequentar a Casa de Cultura, dirigida, naquela época, por Dinorath do Valle. Isso foi em 1974. Algumas vezes, fui discriminado e tratado simplesmente como “aquele caipira”.
Eu vinha de ônibus, de bicicleta e, muitas vezes, a pé. O suor escorria às bicas. Mas eu tinha um propósito, um sonho que me movia. Estar na companhia daquele pessoal foi muito importante para minha formação e minha iniciação no mundo da cultura.
O tempo passou. Em 2001, Edinho foi eleito prefeito, e recebi o convite para dirigir a Casa de Cultura. Permaneci no cargo durante quatro mandatos, ou seja, por dezesseis anos. A vida, às vezes, nos leva a lugares que, na juventude, jamais imaginaríamos ocupar.
Bem-Estar - Você é muito identificado com a cultura caipira. O que Rio Preto e a região ainda preservam dessa cultura — e o que estamos deixando desaparecer?
Jocelino Soares - Em 1985, o professor Guilhermo Della Cruz Coronado escreveu uma matéria que foi publicada em quatro domingos pelo jornal A Notícia, com a manchete: “Jocelino Soares, um Caipira em Busca do Seu Universo”.
O que ele escreveu foi maravilhoso. No entanto, naquela época, pensei: “Ah, tinha que falar do caipira?”. Eu havia saído da roça havia pouco tempo e queria, a todo custo, me libertar daquela pecha.
O tempo passou. Hoje, falo com orgulho das minhas origens. Ser caipira deixou de ser um peso para se transformar numa bandeira que carrego com alegria. Costumo até dizer que pode existir um caipira igual a mim, mas mais caipira do que eu, não!
Bem-Estar - Você acha que existe hoje uma espécie de preconceito contra aquilo que é chamado de caipira?
Jocelino Soares - Hoje, sinto que ser caipira se tornou chique. Mas é preciso lembrar que o caipira não veio para a cidade porque quis. Em muitos casos, foi empurrado para fora do campo. O ciclo do café chegou ao fim, e, com ele, desapareceram muitas oportunidades de trabalho. Aquele homem simples, que conhecia a terra como a palma da mão, foi morar nas franjas das cidades.
Para matar a saudade da vida que havia deixado para trás, ouvia, nas madrugadas e no começo das noites, os programas de rádio que tocavam modas caipiras. Era uma maneira de manter viva a ligação com suas raízes.
Hoje, o cenário mudou completamente. Temos restaurantes especializados em comida caipira, programas de televisão dedicados ao gênero e duplas sertanejas ocupando espaços cada vez maiores. Aos poucos, vamos redescobrindo nossas origens, e, com elas, o sentimento caipira volta a florescer.
Bem-Estar - Sua obra dialoga muito com memória e tradição. Qual tradição do interior você gostaria que sua neta e as próximas gerações conhecessem?
Jocelino Soares - Ah, temos tantas tradições caipiras! Gostaria muito que as pessoas conhecessem a Queima do Alho e o sapateado de uma boa catira, bem dançada. São manifestações que carregam a história, a identidade e a alma do nosso povo.
Bem-Estar -Você também foi policial militar e trabalhou com educação no Proerd. Como essas experiências tão diferentes — a arte, a literatura, a polícia e a educação — conversam dentro de você?
Jocelino Soares - Sim, sou policial militar aposentado. Quando estava na ativa, fui monitor do PROERD, programa que levava às escolas orientações sobre drogas e prevenção, especialmente para alunos da quarta série. Foi uma experiência fantástica, da qual me lembro com carinho até hoje. É um daqueles trabalhos que permanecem vivos na memória e no coração.
A arte, a literatura, a polícia e a educação fizeram parte da minha vida, algumas vezes acontecendo simultaneamente, outras em épocas diferentes. Penso que todas estão ligadas por um mesmo elo: o desejo de contribuir, de ensinar, de aprender e de deixar alguma coisa de bom por onde passei.
Bem-Estar - O que a vida ensinou ao Jocelino que nenhum livro, professor ou escola teria conseguido ensinar?
Jocelino Soares - Penso que a vida me ensinou a respeitar as pessoas, a compreender que aquilo que não me pertence não é meu por direito e, principalmente, a reconhecer que minha liberdade termina onde começa a liberdade do próximo. São princípios simples, mas fundamentais para uma convivência digna e respeitosa.
Bem-Estar - Se você pudesse sentar hoje ao lado daquele menino que desenhava com carvão nas paredes da casa na roça, o que diria a ele?
Jocelino Soares - O que eu diria àquele menino? Diria que viemos a este planeta para ensinar e aprender, mas, acima de tudo, para evoluir. Diria também que ele não deveria perder a capacidade de sonhar, de se espantar com as coisas simples e de conservar a criança que sempre existiu dentro dele.
Bem-Estar - Quando olha para tudo isso, sente que seu trabalho também é uma forma de preservar uma memória daquilo que poderia se perder?
Jocelino Soares - Sim, com certeza! Nos livros, nas crônicas e nas pinturas, procuro mostrar como era a vida de antigamente. Retrato as colheitas manuais do café, do arroz e do milho, além de tantas outras atividades que fizeram parte da vida do homem do campo.
Pinto e escrevo para manter viva essa memória. Infelizmente, quase tudo isso desapareceu, e a tendência é que, daqui a alguns anos, restem apenas as lembranças e os registros daqueles que viveram essa época. Por isso, considero meu trabalho uma forma de preservar a história e impedir que nossas raízes sejam esquecidas.
Bem-Estar - O que mais dói quando você percebe que aquele mundo que serviu de matéria-prima para sua arte já não existe da mesma maneira?
Jocelino Soares - Complementando a resposta anterior, dói perceber que, em pouco mais de quarenta anos, a paisagem se modificou profundamente. Não sou contra o progresso, muito pelo contrário. Sei que ele é necessário. Mas acredito que tudo precisa ter limites. Não podemos permitir que o desenvolvimento apague completamente os vestígios de um passado que ajudou a construir aquilo que somos hoje.
