O artista plástico Carlos Bacchi construiu uma trajetória marcada pela versatilidade, pela dedicação à cultura e pela constante busca por novas formas de expressão. Formado em Administração de Empresas e Educação Artística, atua também como educador, escultor, restaurador, curador, coordenador de eventos e diretor de museus, acumulando uma extensa experiência na cena cultural de São José do Rio Preto e região.
Ao longo de sua carreira, esteve à frente de importantes projetos culturais e espaços museológicos, contribuindo diretamente para a valorização da arte e para a formação de novos públicos. Entre suas atuações, destacam-se a fundação da Uniarte – Cooperativa de Artes Plásticas de São José do Rio Preto e Região, a coordenação de exposições, salões de arte e projetos de revitalização cultural, além da direção de museus e espaços históricos da cidade. Sua vivência profissional também inclui experiências em Portugal e Espanha, que ampliaram seu repertório artístico e cultural.
Casado há mais de 30 anos com Zeuma de Carvalho Bachi e pai de Giulianna e Fernando, Carlos encontra no cinema, no teatro, na dança, nas viagens e nas caminhadas momentos de inspiração e contemplação. Em sua produção artística, desenvolve uma relação profunda com os materiais naturais e descartados, transformando madeira, metal, sementes, pedras e tecidos em obras que carregam memória, textura e reflexão ambiental.
Nesta entrevista, Carlos Bacchi fala sobre sua trajetória, o processo criativo, as influências artísticas, os desafios enfrentados pelos artistas fora dos grandes centros culturais e a emoção que move sua produção. Com sensibilidade e autenticidade, ele revela como a arte se tornou não apenas profissão, mas também uma forma permanente de pesquisa, reinvenção e compromisso com a preservação cultural e ambiental.
Leia a entrevista a seguir:
BE – Como começou sua relação com a arte e em que momento percebeu que seguiria esse caminho profissionalmente?
Carlos Bacchi – Sempre tive grande preocupação com os espaços culturais e com a classe artística de Rio Preto. Ao conviver com outros artistas, percebi a necessidade de união para conquistar novos espaços, dar visibilidade às obras e revelar novos talentos. Foi assim que, em 2000, idealizei e, junto a um grupo de artistas, fundei a Uniarte – Cooperativa de Artes Plásticas de São José do Rio Preto e Região, sendo eleito o primeiro presidente da entidade.
Em 2001, fui convidado para coordenar eventos da Secretaria de Cultura de Rio Preto. Já em 2005, durante a gestão do secretário Pedro Ganga, fui contratado oficialmente, iniciando uma trajetória rica e desafiadora na instituição. Ao longo dos anos, atuei como diretor do Teatro Nelson Castro, do Museu Naïf, da Pinacoteca Municipal e do Museu de Arte Primitivista José Antônio da Silva, além de coordenar os museus da cidade. Hoje, tenho a honra de atuar na Coordenadoria da Casa de Cultura Dinorath do Valle.
Nesse percurso, coordenei o primeiro Salão de Artes da nova era em Rio Preto e fui curador de sete edições do evento. Também desenvolvi projetos importantes, como a criação de carros alegóricos para o Carnaval e a implantação e revitalização de espaços culturais, entre eles o Museu de Arte Naïf, o Museu José Antônio da Silva, a Sala Cascatinha & Inhana, a Pinacoteca Municipal, o Museu Histórico e Pedagógico Dom João VI e a Sala Cláudio Malagoli. Além disso, coordenei espaços do FIT por vários anos. Em 2013, fui convidado pela Polícia Militar para criar e montar o Museu da Revolução de 1932 – Tenente Antônio Galante, no CPI-5.
Toda essa experiência pública e administrativa ampliou minha visão de mundo, fortaleceu minha criatividade e me preparou para novos desafios artísticos.
BE – Sua trajetória inclui experiências em países como Portugal e Espanha. De que forma esse período no exterior influenciou sua técnica e visão artística?
Carlos Bacchi – A experiência em países como Portugal e Espanha enriqueceu minha trajetória ao ampliar meu repertório cultural e visual, mas sem jamais alterar a essência do meu trabalho. Para mim, o mais importante sempre foi a liberdade de criação: a emoção de produzir arte supera qualquer preocupação com o local onde a obra será exposta — seja em uma galeria, residência, consultório, espaço social ou praça, em qualquer lugar do mundo. Embora eu tenha absorvido referências e aprendizados que ampliaram meu conhecimento, não houve influência externa que interferisse diretamente no meu processo criativo ou na minha técnica. Minha visão artística permaneceu autêntica, guiada unicamente pela minha própria expressão.
BE – Seu trabalho envolve escultura, pintura e entalhe. Qual dessas linguagens melhor traduz sua expressão hoje?
Carlos Bacchi – Acredito que a maioria dos artistas busque, ao longo da carreira, diferentes formas de expressar o que sente. Para mim, cada linguagem tem sua própria voz e seu momento: a pintura permite uma liberdade mais imediata e fluida, enquanto a escultura e o entalhe exigem uma relação mais tátil e estruturada com a matéria.
Hoje, não vejo uma linguagem como superior à outra; pelo contrário, elas dialogam e se complementam. O que realmente importa é qual delas melhor responde à emoção que quero transmitir naquele instante, seja pela cor, pela forma ou pela textura.
BE – Quais as temáticas que você mais tem predileção em retratar em suas obras? O que te atrai nesse universo?
Carlos Bacchi – Às vezes me sinto um pouco diferente dos demais artistas. Se, no momento, quero produzir uma escultura, vou à procura do material. As pessoas que me conhecem sabem que tudo o que utilizo em meus trabalhos é garimpado na mata: busco toda aquela matéria que foi descartada pela natureza ou pela degradação causada pelo homem. Só após esse resgate é que começo a criar.
Tenho uma ligação muito grande com a madeira. Aquela madeira que já está quase em decomposição e que, para muitos, é inútil, para mim será muito bem aproveitada e ganhará uma nova vida. Naquele pedaço de madeira existe uma história rica, que já teve sua função e, por isso, merece um lugar especial. Infelizmente, no Brasil desperdiçamos muito material e, em meus trabalhos, procuro utilizar o máximo possível dessa matéria-prima.
Por essa razão, minhas obras não seguem temas pré-definidos. É somente no momento da criação que descubro o que vai surgir; quando finalizo a peça, o resultado também é uma surpresa para mim.
BE – Quais artistas influenciam seu trabalho e como essas referências aparece na sua produção?
Carlos Bacchi – No começo da minha carreira, tive o prazer de conhecer obras de dois artistas japoneses que me encantaram profundamente. Manabu Mabe, com sua fusão entre a pintura tradicional japonesa e o abstracionismo ocidental, foi minha primeira grande referência. Depois, Tomie Ohtake, a dama do abstrato, com suas incríveis esculturas, despertou em mim um fascínio especial pelas texturas que ela conseguia alcançar.
Outro mestre que sempre admirei foi Frans Krajcberg. Com um olhar visionário e profundamente preocupado com o meio ambiente, ele foi um ativista incansável na preservação da natureza. Suas obras, além de imponentes e belíssimas, carregavam sempre um verdadeiro pedido de socorro em prol do planeta.
Tenho certeza de que foi com base nesses conceitos que tracei minha própria linha de criação: tanto no processo de busca e resgate dos materiais quanto na tentativa de transmitir a mensagem de que todos somos responsáveis pela preservação e fiscalização do nosso mundo.
BE – Você já mencionou que, ao olhar um pedaço de madeira, consegue “ver” a obra pronta. Como funciona esse processo criativo na prática?
Carlos Bacchi – Esse olhar para a escolha e a garimpagem dos materiais foi algo que fui aperfeiçoando ao longo do tempo, desenvolvendo uma nova forma de enxergar tudo ao meu redor. Hoje, realmente, ao avistar qualquer material, já consigo visualizar a obra pronta, seja uma escultura ou um objeto de decoração. Sempre digo que Deus nos deu tudo o que existe; eu apenas restauro e dou uma nova função ao que já estava ali.
Gosto muito da combinação de diferentes elementos na mesma peça. Madeira, metal, pedra, sementes, tecido e outros materiais são muito bem-vindos, pois essa mistura enriquece ainda mais o resultado final.
BE – Restaurar obras de outros artistas influencia seu próprio trabalho?
Carlos Bacchi – Jamais. A responsabilidade de restaurar uma obra que não é minha é muito grande e exige total respeito à criação original. Embora seja um trabalho extremamente gratificante e prazeroso, ele não interfere nem influencia a minha própria produção artística.
BE – Qual a principal diferença entre criar e restaurar, no seu olhar?
Carlos Bacchi – A diferença é muito grande. Criar envolve vários fatores que são únicos de cada artista: além da inspiração, é preciso experiência, pesquisa, planejamento, domínio dos materiais e, claro, o próprio dom.
Já para restaurar uma obra de arte, o foco é outro: é necessário compreender profundamente a peça, buscar os materiais corretos para resgatar sua originalidade e sempre trabalhar com a menor intervenção possível, preservando ao máximo a essência original do trabalho.
BE – Na sua opinião, quais são os maiores desafios para artistas plásticos fora dos grandes centros culturais?
Carlos Bacchi – Realmente, são muitos os desafios. A oportunidade de mostrar o trabalho nem sempre é fácil, pois faltam espaços culturais – tanto na rede pública quanto em entidades – que efetivamente divulguem a produção artística. Além disso, muitos artistas encontram dificuldades para negociar ou promover o próprio trabalho.
Nós, da Secretaria Municipal de Cultura e da Casa de Cultura Dinorath do Valle, estamos justamente abrindo os nossos espaços para dar visibilidade aos artistas da cidade. Tanto é assim que a nossa agenda de exposições e eventos já está praticamente preenchida.
BE – Qual o papel da emoção no seu processo criativo?
Carlos Bacchi – O papel da emoção é fundamental, e esse processo é quase imperceptível. Sinto uma verdadeira adrenalina desde o início da elaboração até a finalização da obra.
Quando coloco todo o material à minha frente e começo a compor, a ansiedade é grande, ainda mais quando vejo várias possibilidades de execução. Lembro-me com saudade de quando pintava com tinta a óleo: o cheiro era praticamente como uma droga; eu não via a hora de começar a pintar. Infelizmente, precisei me reinventar, pois acabei ficando intoxicado pelos componentes da tinta – hoje não posso nem sentir o cheiro. Mas a paixão permanece a mesma: da mesma forma que eu sentia pela tinta, hoje não consigo ver um pedaço de madeira ou metal sem querer imediatamente começar a transformá-lo em arte.
BE – Que projetos você pretende desenvolver nos próximos anos e que caminhos ainda deseja explorar dentro da arte?
Carlos Bacchi – Me considero uma pessoa muito dinâmica e estou sempre em busca e pesquisa de novos materiais. No ano passado, para uma mostra em homenagem ao Mês da Consciência Negra, desenvolvi duas obras que me marcaram muito: uma instalação chamada Mãe Terra, bastante interessante, e um painel de 2,40m x 1,60m intitulado Semente, confeccionado totalmente com sementes e tecido. Gostei tanto do resultado que talvez eu caminhe um pouco mais por esse lado, seguindo sempre na busca por novas possibilidades e materiais.
