A trajetória de Angelo Soares Neto desafia compartimentos estanques. Médico psiquiatra com mais de cinco décadas de atuação, ele transita com naturalidade entre a clínica, a literatura e as artes visuais, construindo uma obra marcada pela inquietação intelectual e pelo compromisso profundo com o ser humano. Seja no atendimento psiquiátrico, na experiência com a medicina legal ou na criação artística, sua produção nasce do mesmo ponto: a observação atenta das fragilidades, contradições e potências que compõem a existência.
Nesta entrevista especial para a Revista Bem-Estar, ele revisita sua história, compartilha reflexões sobre saúde mental, arte e conhecimento ao longo da vida, e defende a curiosidade como motor essencial da criação. Com palavras que revelam sensibilidade e lucidez, ele fala sobre o valor da escuta, o papel provocador da arte e a importância de seguir experimentando — mesmo quando o caminho é desconfortável, absurdo ou inesperado.
Leia a seguir:
BE – O senhor transita com naturalidade entre a psiquiatria, a literatura e as artes visuais. Em que momento percebeu que essas áreas não competiam entre si, mas se complementavam na sua forma de olhar o ser humano?
Angelo Soares Neto – O ser humano é um mosaico desconhecido, composto por arestas complexas que vão se encaixando, formatando em equilíbrio o panorama das suas possibilidades. Nuances, desejos, ideações, desenhados em uma pauta chamada Vida. Somos a busca constante dos nossos encaixes que, alimentados pela nossa memória, esboçam desenhos que nunca se completam. A graça está no desafio que a dificuldade traz. Entendendo que toda forma de arte é poesia, para criar alguma coisa basta trabalho, foco e intenção. A literatura é a busca, a pintura, o encontro do encanto.
BE – A experiência clínica, especialmente no sistema penitenciário e na medicina legal, lida com extremos da condição humana. Como esses cenários atravessam – direta ou indiretamente – sua produção literária e artística?
Angelo Soares Neto – A Medicina Legal foi uma grande experiência de vida, visão ampliada de compreensão de perdas, desencontros e desatinos. Trouxe um entendimento maior sobre o comportamento humano, através de escolhas ou diante do inevitável. A psiquiatria ensinou o sentir, o respeito às diferenças, a dor real por detrás da aparente. Ensinou o somar e o dividir. O cultivo do humano.
BE – Seus livros costumam flertar com o absurdo, o nonsense e o desconforto. A arte, para o senhor, precisa provocar para cumprir seu papel?
Angelo Soares Neto – Se não provocar, não é arte. A vida é uma sequência descontrolada de absurdos e desavisos, espantos e inesperados. A realidade não é construída sobre veludos, mas entre labirintos que nos fazem buscar saídas. Eu coloco em palavras e imagens aquilo que vejo, algumas vezes além do que vejo, o que sinto.
BE – O “Movimento Arte no Hospital”, criado no anexo psiquiátrico da Santa Casa de Nova Granada, antecipou debates que hoje ganham força sobre arte como ferramenta terapêutica. O que essa experiência ensinou sobre saúde mental e expressão criativa?
Angelo Soares Neto – Esse movimento, criado no Hospital Psiquiátrico Feminino de Nova Granada, foi, na época, calcado no trabalho desenvolvido pela psiquiatra Nise da Silveira, no Rio de Janeiro, para quem importava, acima de tudo, humanizar os tratamentos através da arte. Ver o humano por trás das patologias, lidar com emoções reprimidas. O indivíduo está perdido em suas cismas, mas com conteúdo e sentimentos adormecidos. Foi um trabalho especial envolvendo a Terapia Ocupacional junto a artistas plásticos, convidados para um dia inteiro de laboratório, a cada 15 dias, interagindo com as pacientes e ensinando expressão através das cores. Esses trabalhos eram depois expostos no saguão de entrada do hospital, o que era motivo de orgulho para elas, adubo da autoestima. Eram capazes de produzir beleza.
BE – Rio Preto aparece como território fértil na sua trajetória, seja na Artemania Galeria de Artes, nas academias literárias ou na formação de público. Como o senhor enxerga o papel da cidade na construção do seu percurso intelectual?
Angelo Soares Neto – Todo celeiro tem que ter para onde direcionar os grãos. Nessa época, convivi com grandes artistas locais, vozes da nossa cultura, fazendo com que eu abrisse a Artemania Galeria de Arte, que, durante 8 anos, divulgou e promoveu esses artistas, expondo e colocando seus nomes e realizações em catálogos nacionais de arte, referendando seus trabalhos para o interesse do mercado. Promovi importantes mostras com artistas nacionais consagrados, trazendo suas obras para um Rio Preto distante dos grandes centros, onde isso acontecia, fiz palestras sobre artes em escolas e instituições e semanalmente escrevia uma coluna nos jornais sobre história e técnicas de arte. Foi um período que aproximou a população desse tipo de conhecimento, dando a todos a oportunidade de se envolver com esse mundo.
BE – Ao longo de mais de quatro décadas de atuação cultural, o que mudou na forma como a sociedade encara a arte, a literatura e o próprio intelectual? Houve ganhos, perdas ou apenas transformações?
Angelo Soares Neto – São mais de 50 anos envolvidos com a psiquiatria e a cultura. O que se observa hoje é uma abertura e aceitação maiores de propostas com padrões diferentes, uma assimilação mais fácil do que era hermético, um desbloqueio e afloramento de emoções diante do desconhecido. Uma nova visão do absurdo do novo.
BE – Sua obra literária percorre o conto, a poesia e narrativas híbridas. Existe um gênero no qual o senhor se sente mais livre ou essa liberdade nasce justamente do trânsito entre formas?
Angelo Soares Neto – O mundo é sempre um passo além do já visto. Sem a expectativa do novo, a vida não tem graça. Eu gosto do que não conheço, onde tenho que buscar respostas e soluções. Gosto de metáforas, de sutilezas, de repentes. Na literatura, a busca, na pintura o encontro do encanto. O conto veio antes, a poesia, sempre. Aprendi a transformar a palavra em movimento, a ladainha em assobio. Com meus pacientes aprendi que tenho que simplificar para ser entendido, que o mel da palavra está na simplicidade do uso. Utilizo isso principalmente nos poemas, deixando de lado palavras doutorais, difíceis, hieroglíficas, buscando sempre a compreensão imediata, o que na poesia também é terapêutico. Ser entendido para chegar ao pretendido.
BE – Receber reconhecimento internacional e, ao mesmo tempo, manter uma atuação profunda no âmbito local é um equilíbrio raro. O que significa, para o senhor, produzir cultura fora dos grandes centros hegemônicos?
Angelo Soares Neto – Fico feliz com qualquer tipo de reconhecimento, sinal de que tudo está valendo a pena. Tólstoi disse: Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia. Minha aldeia são as experiências com a psiquiatria, a medicina legal, a arte, a literatura, as pessoas em geral. Disso tiro expressão e conteúdo para criar. O novo é somente o velho reinventando possibilidades. Isso nos aconselha humildade e o desinflar do ego.
BE – Como psiquiatra, o senhor acompanha de perto o sofrimento psíquico contemporâneo. Como intelectual e artista, que sinais desse mal-estar coletivo mais lhe chamam atenção hoje?
Angelo Soares Neto – O imediatismo, a ansiedade em acompanhar o que não se dá conta, a falta de interesse e comprometimento de um para com todos. A ignorância generalizada.
BE – Depois de oito livros publicados – “Cadê” (2008), “Pequenas histórias para boi dormir” (2009), “Amantes infiéis” (2009), “Cabeça de vento” (2010), “Vidro” (2012), “O curador do nonsense” (2016), “Entreanos” (2021) e “Visgo” (2023) - e uma trajetória marcada pela multiplicidade, o que ainda o inquieta criativamente? Há algo que o senhor sente que ainda precisa dizer sobre o humano?
Angelo Soares Neto – Sempre haverá o que dizer enquanto exercemos o sentir. Sempre alguma coisa não feita ou não dita, sempre uma beleza a ser admirada. No momento, estou empenhado em me traduzir dentro da linguagem plástica, buscando caminhos não percorridos. Novas pesquisas, novos materiais, novos entendimentos. Na literatura, continuo fazendo poemas, breves como o movimento dos olhos, construindo o justo. Logo sai um novo livro com eles: LETHE. Terminando também um romance: A dimensão do só, desenhado aparentemente sobre o nonsense.
BE – Embora não se considere músico, a música atravessa sua trajetória desde o carnaval até as experiências recentes com Inteligência Artificial, que resultaram em mais de 100 poemas musicados. O que essa relação “atrevida” com a música revela sobre sua forma de criar e sobre a disposição de continuar experimentando novas linguagens ao longo da vida?
Angelo Soares Neto – Sou um carnavalesco apaixonado por Tchaikovsky. Está vendo? Sempre há alguma coisa faltando, inquietação de quem sempre busca e vive na corda bamba do atrevimento. Não sei tocar nenhum instrumento, não entendo de composição musical, mas sempre tentando o novo. Aos 16 anos, fiz o samba enredo da Sambacedro, do Clube Monte Líbano. Depois, outros para a Sambaralho, da faculdade de medicina, para o Grêmio Recreativo e Escola de Samba Unidos do Mijadouro, da Enseada Azul, em Fronteira, tendo sido um dos seus fundadores. Gosto, ouço e pesquiso música, do erudito até o samba e jazz. Ano passado, tendo acesso à Inteligência Artificial, musiquei mais de 100 poemas meus. Foi divertido e trabalhoso navegar do tango até ópera e fado, mas gratificante como toda experiência bem-sucedida. Tudo é possível enquanto se busca, não deve haver limite para a curiosidade. Sempre procurando criar onde o possível deixa, tornando a vida mais leve.
