A busca por uma vida mais longa e, principalmente, com mais qualidade, tem impulsionado novas fronteiras na ciência. Conceitos como biotecnologia, biohacking, inteligência artificial e saúde personalizada deixaram de pertencer apenas aos laboratórios e passaram a fazer parte das discussões sobre prevenção, desempenho físico e envelhecimento saudável.
Esse foi o tema central da participação da farmacêutica e pesquisadora Patrícia França no Rio Preto Tech Summit 2026, no dia 6 de agosto, a convite da fourlab. farmácia conceito. Em uma experiência exclusiva promovida pela empresa na Arena VIP do evento, no Teatro Paulo Moura, ela reuniu médicos, nutricionistas e educadores físicos para discutir o futuro da saúde e como ciência e tecnologia podem caminhar juntas na busca por mais autonomia e qualidade de vida.
Farmacêutica bioquímica com quase 30 anos de atuação na área magistral, Patrícia é professora universitária, autora, gerente científica da Biotec Dermocosméticos e atua no desenvolvimento de soluções personalizadas. Ao longo da carreira, acompanhou a transformação da medicina, saindo de um modelo mais padronizado para uma abordagem cada vez mais individualizada.
Nesta entrevista, ela fala sobre longevidade, hábitos que impactam a saúde, os desafios do envelhecimento e por que o futuro passa pelo entendimento de que cada organismo tem necessidades próprias.
Confira abaixo a entrevista:
Bem-Estar - Para começar, conte um pouco da sua trajetória profissional.
Patrícia França - Sou farmacêutica bioquímica e atuo há mais de 27 anos na área magistral. Também sou professora universitária, gerente científica na Biotec Dermocosméticos e trabalho diretamente com pesquisa e desenvolvimento de formulações. Minha formação sempre teve um olhar muito voltado para a área bioquímica e, depois, também fiz especialização em administração e marketing para compreender melhor a gestão de empresas. Também tive farmácias durante minha trajetória e, posteriormente, fui direcionada para a área científica, trabalhando junto à classe médica no desenvolvimento de formulações cada vez mais individualizadas. Quando comecei, ainda não se falava em personalização como falamos hoje. No fim dos anos 1990 e início dos anos 2000, falar sobre práticas integrativas e soluções específicas era algo muito novo. A farmácia magistral nasceu justamente dessa necessidade: resolver demandas que a indústria farmacêutica não conseguia atender. Muitas vezes, era pensar em uma alternativa para um paciente que não conseguia usar determinado medicamento, seja pela forma farmacêutica ou pela necessidade clínica. Surgiram soluções como sachês, gomas, shakes, formulações orais ou transdérmicas. O objetivo sempre foi respeitar a individualidade daquele paciente. Hoje avançamos ainda mais, porque entramos na era da genômica. A genética de cada pessoa traz informações que podem ajudar a tornar os tratamentos ainda mais específicos.
Bem-Estar - O Rio Preto Tech Summit é um evento de tecnologia. Como a saúde entra nesse universo?
Patrícia França - Quando recebi o convite para falar sobre biohacking, percebi o quanto esse tema está conectado com o momento que estamos vivendo. Hoje as próprias tecnologias que usamos são capazes de mensurar nosso corpo: sono, atividade física, capacidade cardiorrespiratória, glicemia. Estamos caminhando para uma era em que as pessoas vão se conhecer melhor e entender como podem melhorar sua própria performance física e mental. Falar de longevidade hoje não é falar apenas de viver mais, mas de viver melhor. Dormir bem, se alimentar adequadamente e praticar atividade física deixaram de ser apenas recomendações e passaram a ser pilares de saúde. A medicina evoluiu e as tecnologias trouxeram ferramentas importantes para que possamos chegar mais longe com autonomia.
Bem-Estar - O termo biohacking ainda gera curiosidade. O que ele significa?
Patrícia França - Biohacking é a arte e a ciência de modificar o ambiente ao nosso redor e dentro de nós para melhorar nossa performance física e mental. É como se fosse hackear a própria biologia. Hoje isso acontece quando usamos tecnologias para acompanhar nosso corpo. Um relógio inteligente que mede passos, sono ou frequência cardíaca, por exemplo, gera informações para que possamos corrigir rotas. Mas biohacking também está em atitudes simples, como caminhar, controlar hábitos, melhorar alimentação ou buscar estratégias que favoreçam o equilíbrio do organismo. É entender o próprio corpo e fazer escolhas melhores.
Bem-Estar – E muito se fala sobre longevidade, mas o grande desafio parece ser envelhecer com qualidade. O que a ciência mostra?
Patrícia França - Nós estamos aumentando a expectativa de vida, mas ainda existe um desafio: uma parcela desses anos é vivida com doenças crônicas. Hoje existe um intervalo de aproximadamente 12 anos em que muitas pessoas vivem com algum tipo de morbidade. O grande objetivo é reduzir esse período. Não basta chegar aos 90 ou 100 anos; precisamos chegar com mobilidade, independência e qualidade de vida. A pergunta não é apenas “quanto tempo vou viver?”, mas “como vou viver esse tempo?”.
Bem-Estar - E quais atitudes podem ajudar nesse processo?
Patrícia França - O maior patrimônio do ser humano hoje é a saúde mental e o sono. O nosso ciclo circadiano mudou muito. Perdemos uma conexão natural com o nosso organismo. A tecnologia trouxe facilidades, mas também reduziu nosso movimento diário. Hoje podemos pedir comida, resolver tudo pelo celular e passar muito tempo parados. A privação do sono aumenta o estresse, eleva o cortisol, favorece inflamação, ganho de peso e até processos de neuroinflamação. As mudanças mais simples ainda são as mais importantes: dormir bem, comer comida de verdade e movimentar o corpo. Trinta minutos de atividade física por dia já fazem diferença. Precisamos também voltar a descascar mais e desembalar menos.
Bem-Estar - Existe uma relação entre sono, pele e envelhecimento?
Patrícia França - Existe uma relação muito forte. O sono é um dos grandes pilares da longevidade. Quando privamos o organismo do descanso adequado, aumentamos o estresse, o cortisol e os processos inflamatórios. Isso também se reflete na pele. Já existem estudos mostrando que pessoas com privação crônica de sono apresentam mais sinais de envelhecimento, mais rugas e uma resposta pior a procedimentos estéticos. A pele é um reflexo do que acontece dentro do organismo. Muitas vezes, a pessoa busca um tratamento externo, mas não olha para a base: qualidade do sono, alimentação e equilíbrio interno.
Bem-Estar - A farmácia magistral tem um papel importante nessa busca por saúde personalizada?
Patrícia França - Sem dúvida. A farmácia magistral existe justamente para atender essa individualidade. Eu gostaria que conseguíssemos resolver tudo apenas com alimentação e hábitos saudáveis, mas sabemos que a vida moderna trouxe mudanças importantes. Nossa alimentação mudou, nosso solo mudou, convivemos com conservantes e produtos industrializados. A manipulação entra para auxiliar esses déficits, sempre com orientação profissional. O tratamento precisa envolver paciente, médico e farmácia. Não existe uma fórmula que seja para todo mundo. Cada pessoa tem uma genética, uma história, uma fase de vida e uma necessidade diferente.
Bem-Estar - Muitas pessoas compram suplementos pela internet. Existe um risco?
Patrícia França - Existe. Um produto pode ser excelente, mas será que ele é indicado para aquela pessoa? Será que aquela dose é adequada? Será que aquele organismo está preparado para receber aquilo? Muitas vezes, o paciente precisa primeiro entender seu equilíbrio metabólico, fazer exames e ter uma avaliação adequada. O que funciona para uma pessoa pode não funcionar para outra. Somos únicos e isso precisa ser respeitado.
Bem-Estar - A personalização dos tratamentos também considera fases específicas da vida, como menopausa e envelhecimento?
Patrícia França - Exatamente. Nós somos seres cíclicos e individuais o tempo todo. As necessidades de uma mulher na menopausa, por exemplo, não são as mesmas de uma pessoa que ainda não passou por essa fase. O organismo muda, a pele muda, o metabolismo muda, a composição corporal muda. Por isso, não faz sentido pensar em uma única fórmula que funcione para todos. A individualização respeita justamente essas diferenças: a história de vida, a genética, a fase hormonal e as necessidades daquele momento. Não existe uma fórmula universal. O que funciona para uma pessoa pode não funcionar para outra, porque cada organismo tem uma resposta própria.
Bem-Estar - Hoje vivemos uma grande popularização dos medicamentos agonistas de GLP-1, utilizados no tratamento da obesidade. Quais cuidados as pessoas precisam ter?
Patrícia França - Os agonistas de GLP-1 trouxeram uma revolução no tratamento da obesidade e também mudaram a forma como as pessoas enxergam alimentação e controle de peso. Mas existe um ponto de atenção importante: a qualidade da perda de peso. Muitas pessoas querem perder peso rapidamente, mas precisamos olhar para o que está sendo perdido. Existe hoje uma preocupação com a sarcopenia e a obesidade sarcopênica, que é justamente a perda importante de massa muscular associada ao processo de emagrecimento. Perder peso não é apenas diminuir números na balança. É preservar músculo, força, mobilidade e saúde metabólica. Por isso, qualquer estratégia precisa estar associada a acompanhamento profissional, alimentação adequada e atividade física.
Bem-Estar - A geração mais jovem parece estar mudando a relação com beleza e saúde. Você percebe esse movimento?
Patrícia França - Sim. Existe uma mudança muito interessante acontecendo. As novas gerações estão começando a entender que beleza é consequência de saúde. Um dado que chama atenção é que a geração Z e os millennials estão mais preocupados com saúde e saúde mental do que apenas com estética. Eles perceberam que uma pele bonita, uma boa aparência e disposição estão relacionadas a hábitos, sono, alimentação e equilíbrio emocional. Isso muda completamente a forma como enxergamos beleza. Não é mais apenas sobre aparência, mas sobre como o corpo está funcionando por dentro.
Bem-Estar – E como você avalia a importância de eventos como essa palestra que fez em Rio Preto, em que você conseguiu compartilhar conhecimento com 150 especialistas em saúde?
Patrícia França - A fourlab. tem um olhar muito especial para o cuidado. Quando você entra em uma farmácia conceito, percebe que não é apenas sobre entregar uma fórmula, mas sobre oferecer uma experiência, ouvir e entender aquela pessoa. A Biotec também tem esse compromisso com ciência e evidências. Por isso existe uma conexão muito forte entre as empresas. Eventos como esse são importantes porque promovem troca de conhecimento. A ciência que está sendo discutida internacionalmente precisa chegar aos profissionais e, consequentemente, aos pacientes. No fim, quem se beneficia dessa conexão é a população.
Bem-Estar - Você tem uma relação próxima com Rio Preto. Como foi voltar à cidade para participar do evento?
Patrícia França - Minha família tem uma ligação muito forte com a região. Meu irmão veio para Catanduva para cursar medicina e acabou se estabelecendo aqui. Depois disso, minha mãe e outros familiares também vieram. Hoje somos uma família muito ligada à área da saúde. Eu também vinha bastante para Rio Preto quando trabalhava em uma multinacional, fazendo prospecção e relacionamento com a classe médica. Foi uma cidade que sempre me acolheu muito bem, assim como a Biotec. Criei uma relação muito especial com médicos e profissionais daqui. Por isso, voltar para participar de um evento como esse foi muito significativo.
Bem-Estar - Qual mensagem você deixaria para quem deseja envelhecer melhor?
Patrícia França - A longevidade começa com escolhas diárias. Não adianta querer viver mais se não colocarmos mais vida nesses anos. Cuide do sono, da alimentação, do movimento e da saúde mental. Pequenas mudanças podem trazer grandes benefícios. O futuro da saúde passa por entender que cada pessoa é única. Quando compreendemos nossa própria biologia, conseguimos fazer escolhas mais inteligentes para viver melhor.
