A arquitetura vai além da estética e da funcionalidade. Ela pode despertar emoções, preservar memórias e influenciar a maneira como as pessoas vivem e se relacionam com os espaços. Essa é uma das premissas do trabalho do arquiteto baiano Nildo José, formado pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo, e reconhecido por projetos que combinam referências contemporâneas, materiais brasileiros e histórias pessoais.
No dia 7 de outubro, ele esteve em Rio Preto para uma palestra sobre arquitetura e design, realizada no cinema do Riopreto Shopping, a convite do Núcleo AZ de Arquitetura e Design, coordenado pela arquiteta Kátia Persio. Após o evento, o arquiteto participou de um almoço com convidados.
Em entrevista à revista Bem-Estar, Nildo José fala sobre a experiência de visitar Rio Preto, o processo criativo, a influência das raízes brasileiras em seus projetos e a relação entre arquitetura, memória e bem-estar. Também aborda os desafios de construir uma identidade própria em um mercado influenciado por tendências e pelas imagens das redes sociais. Confira:
Bem-estar - Você esteve em Rio Preto para falar sobre arquitetura e design. Conte um pouco de como foi essa experiência em palestrar e depois almoçar com algumas pessoas da cidade?
Nildo José - Foi um prazer! Já estive em Rio Preto algumas vezes e é sempre um prazer voltar a cidade, ainda mais para conversar sobre um tema que tanto estudo e me aprofundo. Fui muito bem recebido por todos e espero voltar em breve.
Bem-estar - Você veio a convite do Núcleo Az, gerido pela arquiteta Kátia Persio. Como surgiu esse convite?
Nildo José - Já estávamos conversando com a Kátia sobre a possibilidade de fazermos algo juntos há alguns meses. O evento já é referência no mercado e foi organizado com muito cuidado pelo time dela.
Bem-estar - Seu trabalho parte muito da memória, das viagens e das referências culturais. Em que momento uma referência deixa de ser apenas inspiração e passa a fazer parte da identidade de um projeto?
Nildo José - Busco referências de qualidade o tempo todo, principalmente em universos que não são necessariamente os da arquitetura e dos interiores. Uma referência deixa de ser apenas uma inspiração quando é assimilada e passa a dialogar com as minhas crenças e vivências, mas também com a personalidade, a rotina e os sonhos do cliente para quem estou projetando. É justamente esse encontro que torna cada projeto único. Buscamos construir essa narrativa logo no início do processo e, a partir daí, o projeto passa a fluir com mais coerência.
Bem-estar - Você costuma dizer que é preciso treinar o olhar. O que significa, na prática, desenvolver esse olhar? E como alguém que não é arquiteto pode aprender a observar melhor os espaços onde vive?
Nildo José - Treinar o olhar significa, principalmente, sair do automático e observar com atenção o que acontece ao nosso redor. Perceber como a moda trabalha a composição de cores e tecidos, como a arte explora formas e volumes, como o cinema constrói atmosferas por meio da luz e da escala, e por aí vai. Hoje somos inundados por referências o tempo todo, principalmente pelas telas. Procuro filtrar aquilo que realmente merece minha atenção e estudar essas referências para que alimentem meu repertório e minha pesquisa. Qualquer pessoa pode fazer esse exercício: observar como a luz entra em um ambiente, quais materiais despertam uma sensação agradável ou por que determinado espaço faz com que ela queira permanecer ali.
Bem-estar - Hoje se fala muito em casas bonitas e funcionais, mas cada vez mais também em casas que promovam bem-estar. O que faz um ambiente realmente acolhedor e capaz de melhorar a experiência de quem vive nele?
Nildo José - Depende: quem vive nessa casa? Esse é sempre o nosso principal questionamento. Estudamos profundamente a rotina, as demandas e os sonhos dos moradores para, primeiro, resolver a parte prática da casa. Depois, trabalhamos com elementos como luz, sombra, texturas, volumes e materiais para criar uma atmosfera única. O acolhimento não vem de uma fórmula pronta, mas da capacidade de o espaço fazer sentido para aquelas pessoas e para a maneira como elas vivem.
Bem-estar - No seu trabalho, materiais, cores, texturas e objetos parecem ter um papel quase narrativo. Como você escolhe esses elementos para que um ambiente conte uma história sem ficar preso a tendências passageiras?
Nildo José - Uma casa não deve ser criada para atender a uma tendência. O mercado é cíclico: já tivemos a fase das madeiras claras e dos tons pastéis, depois uma presença muito forte dos verdes nos tecidos e mármores e, agora, vemos novamente a madeira escura ganhando espaço. Procuro não me apegar ao que está sendo reproduzido em massa, mas às referências e às histórias de quem vai viver naquele espaço. Um projeto precisa de seus personagens e de suas narrativas. Pensamos no que faz sentido para aquele contexto e, a partir disso, construímos ambientes que não sejam datados. A casa não deve ser feita para as visitas, mas para os seus moradores.
Bem-estar - Você é baiano, estudou e construiu sua carreira em São Paulo e incorpora referências de diferentes lugares do mundo. Como as suas raízes brasileiras aparecem nos seus projetos, mesmo quando a linguagem é contemporânea e cosmopolita?
Nildo José - Eu acredito que uma linguagem pode ser contemporânea e cosmopolita sem perder seu lugar de origem. Tenho um compromisso constante de investigar a cultura e a pluralidade do nosso país e homenageá-las sem recorrer a uma representação literal ou caricata. Essa brasilidade aparece menos nos símbolos óbvios e mais na escolha dos materiais, na presença da arte e do design nacional, na relação com a natureza e na maneira acolhedora como pensamos os espaços. Minhas raízes baianas estão nas cores, no ritmo, na sensualidade e nas memórias afetivas, mas sempre reinterpretadas para o presente e para o contexto de cada projeto. Viajar e conhecer outras culturas amplia meu repertório, mas também reforça a importância de partir de um lugar verdadeiro. É desse encontro entre o mundo e as nossas origens que nasce a linguagem dos meus projetos.
Bem-estar - Um dos seus projetos mais recentes na CASACOR São Paulo, a Casa Coral Celeiro Alvorada, nasceu como uma homenagem à memória do seu pai. De que maneira as lembranças pessoais podem transformar a arquitetura em algo mais profundo do que simplesmente um espaço bem projetado?
Nildo José - Em meu processo criativo, busco sempre trabalhar com histórias, personagens e detalhes. A Casa Coral Celeiro Alvorada foi uma oportunidade de reviver experiências que tive com a minha família e trazer para a arquitetura símbolos que fizeram parte da vida do meu pai. Essas memórias se tornaram o fio condutor do projeto e fizeram com que a história se desenrolasse de maneira muito natural. Foi a primeira vez que trouxe um tema tão íntimo para o meu trabalho, mas senti que era o momento certo para fazer essa homenagem.
Bem-estar - Vivemos um momento em que as pessoas estão cada vez mais expostas a imagens de casas perfeitas nas redes sociais. Isso mudou a relação dos clientes com a própria casa? Existe o risco de projetarmos ambientes para serem fotografados, e não necessariamente vividos?
Nildo José - Nosso processo de projeto é composto por diversas etapas que nos fazem mergulhar no estilo de vida de quem vai morar naquele espaço. Conversamos muito e procuramos conhecer profundamente nossos clientes. Por isso, é muito difícil que o resultado seja apenas um ambiente bonito para ser fotografado: ele precisa fazer sentido dentro de todo o contexto da vida daquela família. A imagem tem sua importância, mas não pode ser o ponto de partida nem a finalidade de um projeto. Acredito que seja justamente a densidade de detalhes, texturas e histórias que as pessoas procuram quando nos convidam para assinar um novo trabalho. Estamos cansados de lugares nos quais apenas a estética foi considerada. As pessoas querem se reconhecer nos espaços onde vivem.
Bem-estar - Depois de tantos projetos, viagens e experiências, o que ainda desperta sua curiosidade? Há algo que você esteja buscando hoje na arquitetura que talvez não procurasse no início da carreira?
Nildo José - Sempre me encantou perceber como o nosso trabalho pode fazer diferença na vida das pessoas: como um bom projeto pode reunir uma família na cozinha, proporcionar longos jantares ao redor da mesa e criar espaços para conexão, descanso e acolhimento depois de um dia intenso. Com o tempo, passei a me interessar ainda mais por aquilo que permanece. Não apenas pela imagem ou pelo impacto inicial de um projeto, mas por sua capacidade de atravessar o tempo, acompanhar as mudanças da vida e continuar fazendo sentido para quem o habita. Em um momento em que somos expostos a tantas imagens e informações, minha curiosidade está justamente em descobrir como criar algo verdadeiro, único e capaz de gerar vínculos e memórias.
Bem-estar - Você esteve em Rio Preto em contato com arquitetos, designers e profissionais do Núcleo AZ. Que conselho gostaria de deixar para os jovens profissionais que estão começando agora e querem construir uma linguagem própria sem perder de vista suas raízes?
Nildo José - Meu principal conselho é não se apegar apenas às tendências e aos modismos do momento. É preciso ter cuidado com o excesso de Pinterest e com as páginas famosas do Instagram. Tudo isso é muito volátil, passa rapidamente e está sendo consumido por milhares de pessoas ao mesmo tempo. Repertório é fundamental, mas precisa passar pelo filtro da nossa própria história. Busquem referências também fora da arquitetura, observem suas origens e tragam para o trabalho elementos que façam sentido para vocês e para as pessoas que participam de cada projeto. Uma linguagem própria não surge de uma hora para outra; ela é construída com pesquisa, experiência, personalidade e coragem para defender aquilo em que se acredita.
