De Rio Preto para algumas das principais instituições acadêmicas e organismos internacionais do mundo, a trajetória de Ligia Maura Costa reúne direito, governança, ética, arbitragem e atuação acadêmica em diferentes continentes. Professora titular da FGV EAESP, managing director do FGVethics e integrante de conselhos globais ligados à integridade e boa governança, ela construiu uma carreira marcada pelo diálogo entre academia, advocacia e instituições internacionais.
Com passagens por Sciences Po, Universidade de St. Gallen, Tsinghua University e Organização Mundial do Comércio, Ligia também mantém uma forte ligação com Rio Preto, cidade onde nasceu e construiu suas referências afetivas e familiares. Em entrevista à Bem-Estar, ela relembra a infância em Rio Preto, fala sobre os desafios de uma carreira internacional e defende que ética, educação e integridade são pilares fundamentais para o desenvolvimento econômico e social.
Ao longo da conversa, Ligia, que é advogada com atuação em São Paulo, Paris e Lisboa, também comenta o avanço das novas tecnologias, a importância da formação global, os impactos da corrupção na sociedade e o significado emocional da inauguração recente da Avenida Delcides Garcia da Costa, que homenageia seu pai e integra o projeto urbanístico Las Haciendas.
Confira abaixo a entrevista:
Bem-Estar - A sua trajetória reúne direito internacional, docência, produção intelectual e atuação prática em arbitragem. Em que momento você percebeu que sua carreira seguiria esse caminho múltiplo e internacional? Essa decisão ocorreu em Rio Preto?
Ligia Maura - Acredito que a vocação internacional começou cedo, na minha própria família. Meus pais tinham uma visão de mundo muito aberta e viajavam frequentemente ao exterior em uma época em que viagens internacionais eram raras para famílias brasileiras. Cresci ouvindo relatos sobre diferentes culturas. Isso despertou em mim uma grande curiosidade pelo mundo e uma percepção de que era importante dialogar com experiências internacionais sem perder a própria identidade. Minha trajetória internacional caminhou em paralelo com o legado familiar. Após concluir a graduação em Direito pelo Largo São Francisco, segui para a França, onde fiz mestrado e doutorado na Universidade de Paris. No meu retorno, ingressei na FGV EAESP e comecei a trabalhar num grande escritório de advocacia. Posteriormente, obtive o título de livre-docente em Direito Internacional pelo Largo de São Francisco. Na sequência, prestei concurso para titular na FGV EAESP. Ainda, trabalhei na OMC, fui pesquisadora visitante na Universidade de Michigan e fiz pós-doutorado na Sciences Po. Também fui professora visitante na Tsinghua University em Beijing, na St. Petersburg Management School e na HEC Paris. Paralelamente, fui professora na Sciences Po e na Universidade St. Gallen.
Bem-Estar - Você construiu uma carreira sólida em instituições de referência no Brasil e no exterior. Quais foram os principais desafios ao longo da sua jornada?
Ligia Maura - Construir uma trajetória internacional requer capacidade de adaptação cultural, resiliência intelectual e disposição para aprender. Naturalmente, ser mulher em ambientes dominados por homens traz desafios. Um dos maiores aprendizados foi compreender que a formação internacional passa pelo domínio de línguas estrangeiras e compreensão de diferentes culturas. Falo cinco idiomas fluentemente e estudo mandarim. Quando fui professora na Rússia, estudei o alfabeto cirílico para compreender a cultura local.
Bem-Estar - Sua atuação como ativista anticorrupção é um dos pilares do seu trabalho. De onde nasce esse compromisso?
Ligia Maura - Esse compromisso nasce de uma convicção de que a corrupção destrói, aprofunda desigualdades e compromete o desenvolvimento econômico. Ao longo da minha trajetória internacional, percebi que países que prosperaram têm instituições fortes e elevados padrões de integridade. Hoje dirijo o FGVethics, centro de pesquisa dedicado à ética, integridade, transparência e compliance. Integro lista de experts da UNODC, o Conselho de Boa Governança do Fórum Econômico Mundial e o Conselho de Administração do Pacto Global da ONU, Rede Brasil. Meu livro mais recente, publicado pela Palgrave Macmillan, discute corrupção, instituições e os impactos sistêmicos da Operação Lava Jato no Brasil. A luta contra a corrupção é uma pauta de construção de um futuro melhor para a geração presente e para as próximas gerações.
Bem-Estar - Ao longo de mais de duas décadas de advocacia e atuação internacional, quais experiências mais marcaram a sua visão sobre ética, governança e justiça?
Ligia Maura - Minha trajetória sempre combinou academia, advocacia e atuação internacional. Após concluir meu mestrado na França, trabalhei em escritórios de advocacia na França e na Itália. A experiência na OMC me permitiu entender como a previsibilidade é fundamental para a estabilidade econômica global. Também me marcaram as experiências na Sciences Po e na Universidade de St. Gallen. A experiência na China foi transformadora. Hoje, mantenho atuação internacional por meio dos meus escritórios em Paris e Lisboa.
Bem-Estar - Você transita entre diferentes culturas, como Brasil, França, Suíça, China, Rússia e Estados Unidos. Como essas vivências internacionais influenciaram sua forma de pensar, negociar e ensinar?
Ligia Maura - Essas experiências internacionais transformaram minha trajetória profissional e a forma de enxergar o mundo. A França teve impacto na minha formação. Foi onde fiz mestrado, doutorado e pós-doutorado. A experiência na Itália foi enriquecedora, porque trabalhei em renomado escritório. As experiências em Genebra, na OMC, e depois na Universidade de St. Gallen, reforçaram a importância de instituições fortes. Nos Estados Unidos, na Universidade de Michigan, me chamou a atenção a combinação entre pragmatismo e capacidade de transformar conhecimento acadêmico em impacto concreto para a sociedade. Já na China, como professora na Tsinghua University, observei de perto um modelo de desenvolvimento baseado em planejamento estratégico de longo prazo, investimento massivo em infraestrutura, em educação e em tecnologia. A experiência na Rússia me permitiu compreender uma realidade histórica e política. Aprendi que negociações internacionais dependem de argumentos jurídicos, mas também de sensibilidade cultural, confiança e capacidade de adaptação. Talvez uma das maiores lições tenha sido saber equilibrar raízes e visão global. Quanto mais internacional se tornava minha carreira, mais compreendia a importância do legado que trago da minha família e de Rio Preto.
Bem-Estar - Como professora e formadora de novas gerações, o que você considera essencial transmitir aos jovens profissionais que desejam atuar em um mundo cada vez mais globalizado?
Ligia Maura - Vivemos um momento de transformação tecnológica. Acredito que conhecimento técnico é essencial, desde que acompanhado de capacidade de adaptação cultural, visão ética e aprendizado contínuo. Outro ponto é desenvolver visão global. O profissional do futuro precisará compreender diferentes culturas e dinâmicas geopolíticas. O domínio de línguas estrangeiras e o trabalho em ambientes multiculturais serão cada vez mais importantes. Por fim, a capacidade de continuar aprendendo sempre.
Bem-Estar - Sua produção acadêmica é extensa e reconhecida. Qual obra ou pesquisa mais representa sua visão de mundo hoje e por quê?
Ligia Maura - Meu livro sobre a Lava Jato representa essa visão porque discute instituições, corrupção, limites do sistema e impactos econômicos e sociais. Ao mesmo tempo, minhas obras sobre a OMC e comércio internacional também representam minha trajetória intelectual. No fundo, toda minha produção acadêmica dialoga com uma mesma preocupação: construir instituições fortes, sociedades mais justas e modelos de desenvolvimento sustentáveis e inclusivos em um mundo cada vez mais complexo e interdependente.
Bem-Estar - A recente inauguração da Avenida Delcides Garcia da Costa, que leva o nome do seu pai, marco inicial das obras do complexo Las Haciendas, marca um capítulo simbólico na sua história. O que esse momento representa para você, pessoal e emocionalmente, e também para a sua família?
Ligia Maura - Foi um dos momentos mais emocionantes da minha vida. A Avenida Dr. Delcides Garcia da Costa é mais do que uma obra de infraestrutura. Ela simboliza legado e visão de futuro. A avenida tem importância estratégica porque conecta os dois lados da BR-153, criando um eixo estruturante de desenvolvimento urbano. Isso trará impacto na mobilidade, na integração urbana e no desenvolvimento da zona sul. Além disso, será a primeira avenida com fiação elétrica subterrânea, refletindo uma visão contemporânea de urbanismo. A fazenda Palhinha é uma propriedade que está há mais de cem anos na família e que agora se transforma em um projeto para Rio Preto. Las Haciendas nasce da combinação entre legado familiar, visão urbanística moderna e compromisso com o desenvolvimento sustentável. Recentemente lançamos a pedra fundamental da avenida. E plantamos uma figueira como marco, porque suas raízes representam perenidade, resiliência e continuidade entre gerações. De certa forma, a figueira simboliza Las Haciendas: projeto construído sobre raízes familiares, mas voltado para o futuro.
Bem-Estar - Qual é a importância de Rio Preto na sua trajetória pessoal e profissional? Quais memórias de Rio Preto mais marcaram a sua vida?
Ligia Maura - Rio Preto é minha origem. Mesmo com toda minha trajetória internacional, sempre mantive uma conexão forte com a cidade. Foi aqui que aprendi valores como trabalho, educação e respeito às pessoas. Tenho lindas memórias. Ao lado dos primos, brincávamos de balanço em uma árvore que hoje está no Georgina, na época parte da chácara de meus avós. Todas as noites, a família se reunia na casa dos meus avós para pedir a bênção. Outra lembrança era a charrete do leiteiro, “Seu Julio”, funcionário da fazenda dos meus avós, que abastecia as casas da família. Nós, crianças, pegávamos carona na charrete para irmos brincar na casa dos primos. O casarão dos meus avós na rua Delegado era o centro da vida familiar, mas também ocupou lugar simbólico na história de Rio Preto. A residência testemunhou momentos da história política brasileira, recebendo figuras como Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek, que chegou a pernoitar na casa. E havia ainda as visitas às fazendas ao lado do meu avô e do meu pai, momentos que construíram minha ligação com a terra. Outra memória foi o vestibular para o Largo São Francisco. Meu pai ficou tão orgulhoso com minha aprovação que ofereceu um grande churrasco, chegando a matar uma vaca para celebrar. Era uma demonstração do valor que minha família sempre deu à educação. Vale dizer que aprendi a ler por volta dos três anos de idade. Talvez justamente por carregar essas raízes profundas, mesmo depois de tantos anos vivendo experiências internacionais, Rio Preto continue sendo um lugar de identidade, memória e pertencimento.
Bem-Estar - Em uma rotina intensa entre academia, advocacia e compromissos internacionais, como você cuida do seu bem-estar físico e emocional?
Ligia Maura - Procuro preservar momentos de conexão com minha família e com minhas raízes. Também acredito que, quando existe coerência entre valores pessoais e atuação profissional, a vida ganha mais sentido, mesmo em rotinas intensas.
Bem-Estar - Olhando para o futuro, quais causas, projetos ou transformações você ainda deseja liderar ou ver acontecer no Brasil e no cenário internacional?
Ligia Maura - Gostaria de ver o Brasil avançar na educação, inovação e integridade. Também acredito que o país pode assumir protagonismo maior em temas como governança, sustentabilidade e transição energética responsável. No plano pessoal, quero continuar contribuindo para a formação de novas lideranças e para projetos que deixem impacto positivo duradouro, tanto no Brasil quanto internacionalmente.
