Do Projeto Guri, em Rio Preto, aos palcos de grandes salas de concerto, o violoncelista, compositor, arranjador e produtor musical Walisson Higor da Cruz construiu uma trajetória marcada pela formação, pela criação artística e pela valorização da cultura regional. Começou a estudar violoncelo no Projeto Guri, entre 2011 e 2013, sob orientação do professor Rodrigo Pessoa. Em 2014, passou a estudar na Academia Livre de Música e Artes de Ribeirão Preto, com Ladson Bruno Mendes, e, no ano seguinte, ingressou no bacharelado em Música da FFCLRP/USP, sob orientação do professor André Micheletti.
Na universidade, teve intensa participação artística e acadêmica: integrou o Ensemble Mentemanuque, ligado ao núcleo de pesquisa NAP-CIPEM, e foi chefe de naipe dos violoncelos da USP-Filarmônica entre 2016 e 2018. Em 2018, participou do Festival Música Nova e estreou uma composição própria para violoncelo e orquestra no Theatro Pedro II, além de receber o Prêmio Olivier Toni de mérito artístico e acadêmico em sua formatura. No ano seguinte, foi aprovado com bolsa para programas de mestrado na University of Manitoba, no Canadá, e na Indiana University, nos Estados Unidos, mas optou por seguir sua trajetória no Brasil. Atualmente, é aluno de mestrado da FFCLRP/USP.
Hoje, Walisson é violoncelista concursado da Orquestra Sinfônica Municipal de Barretos e professor da Academia Livre de Música e Artes. Como compositor e arranjador, já teve trabalhos apresentados por grupos como a Orquestra Sinfônica Municipal de Barretos, o Quarteto da Academia da OSESP, inclusive no complexo do Carnegie Hall, em Nova York, e o Quarteto Riopretense. Seu trabalho aproxima a música de concerto das raízes sertanejas e, desde 2023, ele também atua como diretor artístico do Festival Quatro Estações, em São José do Rio Preto. Nesta entrevista à Bem-Estar, fala sobre a escolha pela música, a relação com o violoncelo, os desafios de viver de arte e o sonho de ver Rio Preto fortalecer sua cena musical e conseguir manter seus talentos por aqui.
Leia a seguir:
BE – Você começou no Projeto Guri, e hoje é músico concursado de uma orquestra. Em que momento percebeu que a música deixaria de ser apenas uma paixão para se tornar profissão?
Walisson Higor – O Projeto Guri foi uma grande influência na minha carreira na música. Foi por meio dele que me apresentei nos Estados Unidos aos 15 anos de idade, experiência que selou minha escolha profissional, pois jamais havia vivido algo parecido em toda a minha vida. Tive a chance de me apresentar com o então grupo de referência do Guri na abertura de uma das semifinais do Sphinx Competition, em Detroit. Éramos cerca de 15 jovens da região que, durante quatro dias, pudemos compartilhar vivências com os participantes do festival, um evento que acontece até hoje, sendo dedicado principalmente a instrumentistas negros e latinos. Além disso, o apoio dos meus pais foi fundamental para consolidar minha escolha. Meu pai, Sr. Anizio, me levava aos ensaios e me apoiava fortemente. Minha mãe, pianista de formação, me deu o primeiro violoncelo. Sou muito grato aos dois.
BE – Você foi aprovado com bolsa para mestrados no Canadá e nos Estados Unidos, mas seguiu sua trajetória no Brasil. O que pesou nessa escolha?
Walisson Higor – Existe uma espécie de imperativo categórico de que o músico precisa sair do Brasil para conquistar uma validação do seu conhecimento. Eu sempre rechacei essa visão. Música se aprende em qualquer lugar. Buscamos os grandes centros porque podemos ter contato com os chamados nichos de alta performance, onde instrumentistas de alto nível podem se reunir para trocar experiências e colaborar em trabalhos. Foi movido por essa ideia que busquei me consolidar por meio dessas aprovações. Infelizmente, vários fatores acabaram influenciando minha decisão de permanecer no Brasil — questões financeiras, familiares e até mesmo de saúde. Preferi ficar mais próximo da minha família e ajudar em um momento em que as coisas não iam tão bem. Abrir mão de trabalhos que já havia conquistado no Brasil, sem saber se os teria em um eventual retorno, também foi um dos motivos que me fizeram procurar um caminho mais nacional para o meu desenvolvimento artístico.
BE – Você transita entre a música erudita e a sertaneja. O que uma ensina à outra?
Walisson Higor – Meu pai é cantor sertanejo. Veio do sítio para a cidade. Transitar entre esses mundos é uma forma de prestar homenagem à trajetória dele e honrar minha família e suas origens. Ele teve a grata oportunidade de conhecer e conviver com grandes artistas sertanejos do passado e me conta grandes histórias sobre eles. As duas formas musicais parecem ser antagônicas: uma busca o refinamento, a erudição, o equilíbrio, a harmonia e a simetria; a outra parece existir para dar vazão a um certo bucolismo, à melancolia do homem do campo que sente falta do que já viveu, ou a uma certa rusticidade dos costumes e trejeitos do homem caipira. Contudo, na prática, as duas vertentes musicais dialogam muito bem entre si e, muitas vezes, proporcionam arranjos de grande riqueza musical.
Eu priorizo escolher repertório do chamado “modão raiz” porque o que houve a partir da década de 1980 foi uma certa contaminação por influências de diversas culturas que não são exatamente caipiras. Arranjar e compor sobre a música tradicional da nossa região é uma possibilidade de ressignificar o que já existe, emoldurando algo que é genuinamente belo, trazendo uma roupagem diferente a essa arte e permitindo que ela seja contemplada por plateias de outros nichos musicais.
BE – Qual foi a sensação de ouvir uma composição sua sendo executada pela primeira vez por uma orquestra?
Walisson Higor – No Projeto Guri, já me aventurava a escrever para orquestra de cordas, isso aos 15 anos de idade. É, com certeza, uma emoção muito grande ouvir uma composição minha tomar forma e sair do mundo das ideias para se tornar algo concreto, ainda que efêmero. O artista precisa se expressar. Ele não cabe em seu próprio mundo. Precisa compartilhar com outros seres humanos suas ideias, suas cores, seus sons. Essa necessidade é implacável e imparável. Dar vida às composições é dar vazão a uma veia criativa que ajuda a tornar a existência um pouco mais suportável, como coloca Nietzsche. Quando uma composição minha nasceu pela primeira vez, o “Prelúdio a Uma Noite de Outono”, não houve lá muito preparo antes da apresentação. Os músicos não haviam entendido muito bem a música, nem a própria plateia a compreendeu muito bem. Mas, com certeza, foi emocionante, apesar de uma certa frustração.
Em outros momentos, como na estreia das “Quatro Estações Rio-Pretenses”, já havia mais tempo de preparo, os músicos estavam mais bem ensaiados e tive uma reação muito positiva da plateia. No fim, nem sempre o compositor será bem recebido em sua época, nem todas as suas composições serão compreendidas. Longe de me comparar a gênios do passado, mas isso aconteceu até mesmo com compositores gigantescos como Bach e Mozart. Concordo muito com a frase atribuída ao nosso maior compositor brasileiro, Heitor Villa-Lobos: “Considero minhas obras como cartas que escrevi à posteridade sem esperar resposta”.
BE – Seu trabalho já chegou ao Carnegie Hall, em Nova York. O que passou pela sua cabeça ao saber que uma obra sua seria apresentada em um palco tão simbólico?
Walisson Higor – Vendi dois arranjos à Fundação OSESP. Esses trabalhos foram apresentados pelo Quarteto da Academia dentro do complexo do Carnegie Hall. Infelizmente, não sei precisar em qual sala eles se apresentaram, mas só o fato de esses trabalhos terem sido apresentados em um dos locais mais importantes do mundo para a música de concerto me deixa muito, muito feliz. Não que seja necessária a validação do trabalho apenas no exterior, mas é muito gratificante perceber que minha música e meu trabalho estão chegando a lugares onde eu mesmo nunca pude pôr os pés, por um motivo ou por outro. É motivo de muito orgulho.
BE – Existe alguma obra musical que você gostaria de ter composto?
Walisson Higor – Tenho muita coisa a fazer, a compor! E isso eu nem teria como enumerar aqui. Em termos de composição e volume de obra, ainda sou muito novo. Mas, conforme vou amadurecendo, vou me valendo de experiências musicais e de vida para acrescentar às minhas cores sonoras. Se tivesse tido a oportunidade de compor uma obra que já existe, com certeza seria a Nona Sinfonia de Beethoven — um feito artístico colossal e praticamente irrepetível. Uma maravilha artística contemporânea de proporções semelhantes às dos grandes monumentos dos antigos.
BE – O violoncelo é um instrumento associado a uma sonoridade muito particular. O que ele diz sobre você que talvez você não consiga dizer com palavras?
Walisson Higor – O violoncelo é um instrumento melancólico. Em filmes, óperas e novelas, ele aparece em momentos de grande tristeza, introversão e conflito existencial. Minha infância não foi exatamente muito fácil, apesar de meus pais terem me criado com muito carinho, cuidado e atenção. Tive, desde pequeno, uma relação bastante difícil com a ansiedade, o que me levou, posteriormente, à necessidade de ressignificar muita coisa na vida adulta. Nós, músicos, brincamos que não escolhemos nossos instrumentos. Eles é que nos escolhem. Sinto que fui escolhido pelo violoncelo justamente por gostar de cantar a melancolia da vida com ele e de oferecer às pessoas uma alternativa para as dores do mundo por meio da arte.
BE – Você também é professor. O que mais o desafia: tocar diante de uma plateia ou ensinar alguém que está dando os primeiros passos na música?
Walisson Higor – Ambas as coisas envolvem uma responsabilidade enorme, mas se apresentam de formas distintas. Uma é efêmera: começa e termina em instantes, mas seus resultados podem ser para sempre — o concerto. A outra é dar aulas: construir, tijolo por tijolo, uma vida musical que está apenas começando. Não nego que, por vezes, já sofri com a ansiedade de desempenho, com a necessidade de que o resultado aconteça aqui e agora, sem segunda chance. O concerto parece exigir uma atenção absoluta — não há uma segunda tentativa nessa perspectiva. Com a aula, é possível ajustar e recalcular rotas. É algo, sem dúvida, mais flexível e que me atormenta menos.
BE – Você já viu alunos seguirem carreira e conquistarem premiações. Existe algum momento vivido como professor que tenha sido tão emocionante quanto uma apresentação sua?
Walisson Higor – Sendo sincero, por vezes sinto mais emoção ao ver meus alunos conquistando coisas que eu mesmo não conquistei. Às vezes, o palco pode ser muito estressante, envolto em uma concentração absurda. Ver um aluno conquistando seus objetivos é, para mim, ainda mais especial do que estar eu mesmo me apresentando. É preciso lançar as sementes. Este é o trabalho do professor.
BE – Depois de ganhar o Prêmio Olivier Toni de mérito artístico e acadêmico, quais foram os maiores desafios para provar a si mesmo que aquele reconhecimento não era um ponto de chegada?
Walisson Higor – Ótima pergunta. Não existe ponto de chegada em música. Quem quer que diga que já chegou ao fim ou está mentindo ou não entendeu. O Prêmio Olivier Toni foi um reconhecimento muito grande, e sou muito grato aos professores por essa concessão. Mas o importante era continuar expandindo — e foi isso que fiz. Na Lei Nelson Seixas, de 2020 a 2025, todos os anos em que inscrevi meus projetos, fui aprovado. Com essas aprovações, pude gerenciar projetos culturais na cidade, aperfeiçoar-me como regente, trazer professores da FFCLRP/USP para ministrar masterclasses e ajudar a fomentar a cena cultural da cidade com a efervescência da juventude.
Ainda quero continuar me aperfeiçoando. Em 2025, pude fazer aulas de regência com o maestro alemão Knut Andreas, em Piracicaba. Em 2026, ingressei na primeira turma do mestrado profissional da FFCLRP. E assim quero continuar: concluir minha formação acadêmica também com um doutorado e compartilhar essas experiências com a minha cidade.
BE – Você é músico, arranjador, compositor, produtor, professor e diretor artístico. Se tivesse de escolher apenas uma dessas funções para exercer pelo resto da vida, qual seria?
Walisson Higor – Pergunta difícil. O músico brasileiro do nosso tempo tem que se virar em todos os sentidos: ser blogueiro, empreendedor, videomaker, editor de áudio e vídeo, arranjador, compositor, produtor, gestor de carreira etc. Não sei exatamente o que fez isso acontecer, mas já houve muitos momentos parecidos na história. Os compositores, antigamente, eram multi-instrumentistas. O fenômeno da escolha por uma trajetória única é algo mais recente e, ainda assim, um tanto instável.
Gostaria muito de poder dar vida a muitas composições e arranjos. Passar o dia escrevendo, dando vazão à minha veia criativa. Mas, na prática, o músico precisa pagar suas contas, e nem sempre uma única atividade será suficiente para que ele consiga atingir sua meta no fim do mês.
BE – Quando pensa no futuro da música em Rio Preto, o que mais gostaria de ajudar a construir — e qual sonho pessoal ainda falta realizar?
Walisson Higor – Sonho que a Rio Preto do futuro possa manter seus músicos mais célebres aqui, próximos às suas famílias, que eles queiram viver aqui e participar de núcleos de alta performance. Que tenhamos uma cultura de pagar pela arte e pela cultura, de auxiliar na subsistência desses profissionais que hoje estão em orquestras maravilhosas pelo mundo afora. Rio Preto é um celeiro de talentos, mas não consegue mantê-los por aqui. Não consegue manter em pleno funcionamento grupos orquestrais. Quando digo isso, quero dizer: concertos regulares, salários, equipe de gestão.
Infelizmente, somos lamentavelmente atrasados nesse sentido Toda metrópole tem sua orquestra em funcionamento. Uma orquestra regida por lei, atrelada ao bem público. E um conservatório municipal. Sim, um sonho. Utopia? Não sei…
