Aos 85 anos, a artista plástica Maria Helena Curti construiu uma trajetória sólida e sensível nas artes, marcada pela delicadeza da aquarela e por uma profunda conexão com a memória e a emoção. Nascida em São José do Rio Preto, onde vive até hoje, carrega consigo uma relação afetiva com a cidade que atravessa toda a sua obra. “Sempre morei nessa terra abençoada de São José. Desde meu nascimento, janeiro de 1940, aprendi ‘esconder as lágrimas e distribuir sorrisos’”.
Sua formação teve início no Colégio Cardeal Leme e seguiu até o Colégio Santa Marcelina, em São Paulo, onde também começou seus estudos em pintura, posteriormente aprofundando-se nas técnicas da aquarela. “Estudei por anos no Colégio de Santa Marcelina em São Paulo, mas me formei normalista no colégio Santo André.” Ao longo das décadas, sua produção artística amadureceu e ultrapassou fronteiras, com exposições realizadas em diversos estados brasileiros e em países como Suíça, Portugal, Argentina, Estados Unidos, Itália, França, China, Reino Unido, Noruega e Sérvia.
Entre seus reconhecimentos mais expressivos está a premiação de sua obra “Cheiro de Maresia” no Museu do Louvre, consolidando seu nome no cenário artístico internacional. Em 2025, lançou o livro “A Arte Fabulosa da Aquarela”, que reúne trabalhos premiados e memórias de sua trajetória, entrelaçando pinceladas e afetos em uma narrativa única.
Membro da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura (Arlec), onde ocupa a cadeira 10 desde 2008, Maria Helena também encontra na arte um espaço de elaboração da própria vida. Viúva há 23 anos de Pedro Cezar Curti, com quem teve dois filhos, Pedro Cezar e José Frederico. “Presentes preciosos que a vida nos deu”.
Ela traduz em palavras sua percepção sensível do tempo e da existência: “Cada dia que passa é tecido o fio invisível de uma lembrança. Acredito que a morte é uma ausência, mas na verdade é uma presença secreta.”
E, mesmo após uma longa e consagrada carreira, mantém intacto o encantamento que a move desde o início. Quando questionada sobre o que gosta de fazer em seus momentos de lazer, responde sem hesitar: “Adoro aquarelar”.
Leia a seguir:
BE – Como começou sua trajetória nas artes plásticas e quais foram suas principais influências no início?
Maria Helena Curti – Iniciei minha trajetória aos 11 anos, na escola de artes do Santa Marcelina, embrião da atual Faculdade com o mesmo nome. Acredito que minha principal influência tenha sido Turner, especialmente Joseph Mallord William Turner, precursor do impressionismo, que transformava paisagens em emoção. Sua forma de pintar a luz antecipou, de certo modo, o que mais tarde seria desenvolvido por Monet.
BE – De que forma Rio Preto impacta ou inspira o seu trabalho artístico?
Maria Helena Curti – Rio Preto fervilha em cultura inspiradora para mergulharmos no mundo das artes. Diria, “efervescente “, cheio de talentos, alguns aguardando a oportunidade de desabrochar.
BE – Quais técnicas e materiais você mais gosta de utilizar atualmente? Houve mudanças ao longo da sua carreira?
Maria Helena Curti – Utilizo sempre a mesma técnica em aquarela, alternando entre o estilo inglês e, muitas vezes, o espontâneo, em papel Montval de boa gramatura. Uso tintas profissionais importadas da Winsor & Newton e papel Canson, vindo da França, o que infelizmente acaba elevando o custo da obra. No entanto, os materiais usados garantem a qualidade e a durabilidade do trabalho.
Ao longo desses mais de 40 anos, houve mudanças e espero que tenham sido para melhor. O aprimoramento e o amadurecimento contribuem constantemente para elevar a qualidade das pinturas.
BE – Existe algum tema recorrente nas suas obras? O que você busca expressar por meio dele?
Maria Helena Curti – Sim. A temática brasileira sempre me comove, especialmente as baianas, que costumam aparecer em minhas cenas de praia. Realizei diversas exposições fora do Brasil, e levar o nosso País retratado em aquarelas desperta e fortalece o meu patriotismo.
BE – Como funciona o seu processo criativo, desde a ideia inicial até a obra finalizada?
Maria Helena Curti – A vontade imensa que me impulsiona na escolha do assunto a ser pintado: às vezes vem de uma paisagem, uma imagem, um sonho ou até de uma saudade.
Finalizar uma obra é um sinal íntimo, quase como uma voz interior que indica que ela chegou ao seu ponto final. Seria um “no más” dessa roleta pictórica.
BE – Você tem alguma obra que considera especialmente marcante na sua trajetória? Por quê?
Maria Helena Curti – Tenho muitas, pois foram muitos anos de trabalho. Desde as premiadas no Louvre até aquelas que marcaram momentos importantes da minha trajetória. Eu as escolho, ora pela precisão técnica, ora pela magia da dança do pigmento no papel, ou ainda pelo que a própria água realizou por mim, de forma até mais bela do que eu poderia fazer sozinha.
BE – Qual é o papel da arte na sociedade, na sua opinião?
Maria Helena Curti – Estou numa próxima mostra coletiva do grupo Ser Tão, intitulada “A Arte da Cura”. E é assim que vejo: o grande papel da arte é curar.
BE – Ao longo da sua carreira, quais foram os maiores desafios que enfrentou como artista?
Maria Helena Curti – Carreira de artista é um constante desafio: que a próxima obra seja sua obra-prima!
BE – Como você percebe a recepção do público em relação ao seu trabalho?
Maria Helena Curti – Sempre uma recepção respeitosa e carinhosa.
BE – Que conselho você daria para quem deseja iniciar carreira nas artes plásticas?
Maria Helena Curti – Determinação, trabalho, transpiração e inspiração. Algumas vezes até lágrimas de emoção.
BE – Quais são seus próximos projetos ou sonhos que ainda deseja realizar na arte?
Maria Helena Curti – Ser amanhã melhor do que sou hoje. Acontece que o essencial é invisível aos olhos.
