A pianista Araceli Chacon construiu uma trajetória que une talento precoce, formação internacional e uma relação profundamente sensível com a música. Com estreia como solista ainda na infância, ela desenvolveu uma carreira marcada por apresentações em importantes palcos e pela dedicação ao ensino e à pesquisa musical.
Nascida em Rio Preto, Araceli conquistou aos 8 anos o prêmio de “Melhor Leitura à Vista” e, aos 9, já se apresentava como solista com orquestra. Durante uma década em que residiu nos Estados Unidos, concluiu o bacharelado e o mestrado em Música – Piano Erudito, na prestigiada Juilliard School, em Nova Iorque, sob a supervisão de Jacob Lateiner e Seymour Lipkin.
Ao longo da carreira, participou de importantes festivais internacionais e se apresentou com orquestras no Brasil e no exterior, acumulando prêmios e reconhecimento pela interpretação. Dentre suas apresentações, destacam-se participações no Museum of Modern Art's Summer Garden Music Festival, executando integrais dos Prelúdios para piano, de C. Debussy, e do ciclo Mikrokosmos, de B. Bartók; e o Double Concerto for Piano, Harpsichord and Double Chamber Orchestra, de Elliot Carter, no Focus Music Festival, ambos em New York City. Seus solos com orquestra incluem a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, Orquestra Sinfônica de Charleston e a Sinfônica da Cidade do Cabo, sob a direção musical de Omri Hadari, Camargo Guarnieri, Claudio Santoro e Roberto Minczuk, dentre outros.
Araceli foi docente da Universidade Federal de Uberlândia por mais de uma década e mantém atuação ligada à pesquisa e à performance, incluindo convite recente como artista convidada na Baden-Baden Brahms Gesellschaft. Atualmente, integra a Academia Rio-Pretense de Letras e Cultura (Arlec), ocupando a cadeira 39, reafirmando sua presença também no cenário cultural e intelectual da cidade.
Nos momentos de lazer, ela valoriza atividades simples e prazerosas, que envolvem tanto o conhecimento quanto a convivência: “ler sobre assuntos variados; rever amigos, familiares e jogar baralho”.
Leia a seguir:
BE – Quando e como o piano entrou na sua vida? Você lembra do momento em que percebeu que a música seria mais do que um hobby?
Araceli Chacon – Quando nasci, o piano e a música já faziam parte da vida da minha família. Em casa, todos se expressavam por meio da música; fosse ouvindo, tocando e/ou cantando. Assim, minha primeira apresentação profissional ocorreu entre meus 6 e 7 anos de idade, com cerca de um ano de estudos no então Instituto Musical Carlos Gomes da cidade.
BE – Quem foram suas maiores influências musicais ao longo da formação?
Araceli Chacon – Minha família; a família dos músicos Alimonda; as pianistas Martha Argerich e Guiomar Novaes; vários de meus colegas, amigos e professores da Juilliard.
BE – Como você descreveria a sua identidade artística hoje?
Araceli Chacon – Uma amante fervorosa da arte, perplexa com os mistérios da música e da performance, que louva a Deus pela permissão e oportunidade diária de poder desvendá-los, mesmo que minimamente.
BE – Ao longo da sua trajetória, qual foi o maior desafio que você enfrentou como pianista?
Araceli Chacon – Como performer e intérprete musical que atua por meio do piano, a cada apresentação e repertório que me proponho a fazer, me deparo com inúmeros novos desafios. Mesmo quando repetimos um programa ou uma obra, cada momento é interpretativamente único em termos sonoros, instrumentais, acústicos, sinergéticos e de expressão performática. Mas, respondendo pontualmente, creio ter sentido como uma “grande pressão”, na época, a prova de admissão que fiz para o curso de graduação na Juilliard School, aos 19 anos.
BE – Existe alguma apresentação que marcou sua carreira de forma especial? Por quê?
Araceli Chacon – Foram várias, atuando como solista em concertos orquestrais. Mas, certa vez, num recital solo, senti algo extraordinário, uma sensação indescritível: me lembro de ter iniciado a execução de um Intermezzo de Johannes Brahms e, somente com os aplausos, repentinamente “voltei à consciência”. Realmente, a única apresentação pública em que fui literalmente “arrebatada” durante a performance.
BE – Como é o seu processo de preparação para um concerto ou apresentação importante?
Araceli Chacon – Como disse anteriormente, considero cada apresentação como um desafio único e exclusivo, tornando-se todas igualmente importantes para mim. Portanto, não tenho hábitos diferentes, que dependam da importância ou da relevância da apresentação. Durante os estudos preparatórios, mantenho e observo determinados critérios e parâmetros consoantes com o contexto da performance: solista ou camerístico; o repertório; as dimensões sonoras e acústicas do local e do piano; e também as características específicas do funcionamento mecânico do instrumento que irei executar.
BE – O que a música clássica (ou instrumental) representa para você no mundo contemporâneo?
Araceli Chacon – Um prolífico e salutar veículo de interiorização, que me possibilita perceber e vivenciar infinitos meios de expressões, de aprendizagens, de autorrealização, de autoconhecimento, disciplinares e metamórficos.
BE – Como você enxerga a relação entre técnica e emoção na interpretação ao piano?
Araceli Chacon – De forma geral, inteiramente sinergética e, até mesmo, simbiótica (rsrs). No entanto, acredito que, para que essa interação ocorra de maneira natural e orgânica, é necessário que o intérprete adquira um certo grau de domínio das habilidades mecânico-motoras inerentes à execução do seu instrumento, e tenha o hábito de aprofundar-se tanto nos processos analíticos interpretativos da obra musical como no do exercício contínuo da autopercepção e da autocorreção mental, emotiva e corporal.
BE – Fora dos palcos, quem é Araceli? Quais são seus interesses, hábitos ou hobbies?
Araceli Chacon – Mesmo não tendo compromissos profissionais, minha maior diversão é ler obras de J. S. Bach ao piano. Quando posso, gosto muito de me encontrar e despender tempo com os amigos e familiares; também de ler artigos, livros, reportagens e assistir a vídeos sobre assuntos teológicos, teosóficos, filosóficos e metafísicos. Como diversão, o baralho é o escolhido.
BE – A rotina de uma pianista exige disciplina. Como você equilibra vida pessoal e carreira?
Araceli Chacon – Como optei pela vida de solteira, há apenas a necessidade de administrar minhas próprias rotinas pessoais, sociais e profissionais, simplificando bastante certas complexidades intrínsecas ao dia a dia de um núcleo familiar. O que diferencia a distribuição de meu tempo e/ou de minhas atividades diárias é tão somente o cunho das emergências que vão naturalmente surgindo em determinadas fases da vida.
BE – Que conselho você daria para jovens músicos que sonham em seguir carreira no piano?
Araceli Chacon – Acho que primeiramente ele deveria saber a respeito das inúmeras possibilidades que o campo da música oferece a um pianista, na atualidade. Pois o repertório erudito para o instrumento é quase infinito. Mas, acredito que, para a formação de um jovem pianista, seja necessário ir além da proficiência técnica na execução. Ele deve buscar a compreensão e o significado emocional da música que irá tocar, almejando transmiti-lo ao ouvinte. Também considero muito importante ponderar sobre seu perfil psicológico, visto que pressões variadas permeiam o ato da performance musical.
BE – Quais são os próximos projetos ou sonhos que você ainda deseja realizar na música?
Araceli Chacon – Em âmbito pessoal, realizar o máximo possível de gravações ou registros sonoros musicais. E, ideologicamente, colaborar para que o ensino e a promoção da música erudita no Brasil recebam o devido amparo e merecido reconhecimento da sociedade e, sobretudo, dos governos municipal, estadual e federal.
