Aos 65 anos, o veterinário Antônio Cabrera Mano Filho olha para a trajetória que construiu com a sensação de que, apesar dos desafios, os principais objetivos pessoais e profissionais foram alcançados. Natural de São José do Rio Preto, onde continua morando, Cabrera construiu uma carreira que ultrapassa os limites da fazenda e reúne produção rural, empreendedorismo, gestão, atuação em entidades de classe e vida pública. Aos 29 anos, tornou-se o ministro da Agricultura mais jovem da história do Brasil e também o mais jovem a comandar uma pasta ministerial no país.
Nascido em uma família ligada ao campo, encontrou no agro não apenas uma profissão, mas um propósito. Formado em Medicina Veterinária e especializado em produção animal na Índia, conheceu diferentes realidades agrícolas ao redor do mundo e levou dessas experiências uma visão cada vez mais ampla sobre os desafios e as potencialidades do produtor brasileiro. Ao longo da carreira, participou de momentos importantes da transformação do agronegócio nacional e defendeu mudanças que, segundo ele, ajudaram a preparar o setor para competir em um cenário internacional.
A vida pública, porém, nunca apagou suas raízes. Para Cabrera, a fazenda continua sendo um lugar de aprendizado, equilíbrio e, sobretudo, fé. É no contato com a natureza que se encontra uma das maiores lições que o campo pode oferecer: a compreensão de que, por mais que se planeje e trabalhe, há fatores que não estão sob o controle humano. Plantar, para ele, é também um ato de confiança.
A fé cristã ocupa lugar central em sua vida. O dia começa com oração e leitura da Bíblia, hábitos que Cabrera considera fundamentais para manter as prioridades em ordem diante das exigências da rotina. A relação com Deus, diz, deixou de ser apenas uma crença para se transformar em um fundamento para suas decisões, inclusive nos momentos mais difíceis.
Casado há 32 anos com Angela, Cabrera também encontra na família uma de suas principais fontes de realização. É pai de Barbara, Antonio, Vitória e Giovana e avô de Domenico. Em novembro, a família aguarda a chegada de mais um integrante, Giuseppe. Entre livros, viagens, filmes ao lado da esposa e momentos na fazenda, procura preservar o tempo longe dos compromissos profissionais.
Leitor assíduo, especialmente de história, economia e biografias, Cabrera acredita que aprender continuamente é essencial para compreender um mundo em transformação. Essa curiosidade também aparece em sua maneira de enxergar o agronegócio: para ele, falar de campo é falar de tecnologia, inovação, desenvolvimento, segurança alimentar e futuro.
Depois de décadas de atuação em diferentes frentes, Cabrera diz que não mudaria o caminho que percorreu. Se pudesse voltar no tempo, talvez cometesse menos erros, mas manteria as escolhas que o trouxeram até aqui. "Embora a vida seja sempre um desafio, mas Deus tem guardado e proporcionado grandes vitórias em minha vida".
Hoje, ao pensar no legado que pretende deixar para os filhos, para o neto e para as próximas gerações, coloca patrimônio e cargos em segundo plano. O que deseja transmitir são valores: trabalho, integridade, coragem, serviço ao próximo e fé.
Leia a seguir:
BE – O senhor nasceu em uma família ligada ao campo. Em algum momento pensou em seguir um caminho completamente diferente ou a fazenda sempre foi um destino inevitável?
Antônio Cabrera – O campo nunca foi uma imposição. Foi uma escolha que amadureceu naturalmente. Cresci vendo o trabalho, os desafios e a responsabilidade que a atividade rural exige. Isso me ensinou muito cedo que produzir alimentos é uma das missões mais nobres que existem. Ao longo da vida tive oportunidades em diferentes áreas — na gestão, na política, no empreendedorismo e nas entidades de classe —, mas todas elas, de alguma forma, continuaram ligadas ao propósito de fortalecer quem produz. O agro não foi apenas minha profissão; tornou-se minha maneira de contribuir para o desenvolvimento do Brasil. Mas, acima de tudo, sempre enxerguei essa atividade como um chamado de Deus para cuidar da criação e servir às pessoas por meio da produção de alimentos.
BE – Aos 29 anos, tornou-se o ministro mais jovem da Agricultura. Em algum momento o peso da responsabilidade falou mais alto do que a confiança?
Antônio Cabrera – Deus me proporcionou uma experiência incrível: tornar-me não apenas o mais jovem da Agricultura, mas o de todas as pastas. A responsabilidade sempre esteve presente. Quem assume um cargo dessa dimensão e não sente seu peso provavelmente não compreendeu a missão que recebeu. Mas eu nunca permiti que esse peso se transformasse em medo. Preferi transformá-lo em dedicação, estudo e diálogo. A juventude traz energia e disposição, mas também exige humildade para ouvir pessoas mais experientes. Foi isso que procurei fazer: cercar-me de gente competente e tomar decisões pensando no interesse do país e do produtor rural.
BE – Depois de tantos cargos e desafios, qual foi a decisão mais difícil da sua vida: como produtor rural, empresário ou homem público?
Antônio Cabrera – As decisões mais difíceis nunca foram técnicas; foram humanas. São aquelas que afetam pessoas: uma equipe, uma comunidade, um setor inteiro. Na atividade privada, cada decisão envolve famílias que dependem da empresa. Na vida pública, o impacto é ainda maior, porque as escolhas influenciam milhões de brasileiros. Aprendi que liderança não significa agradar a todos, mas assumir a responsabilidade pelas decisões, mesmo quando elas são difíceis. Talvez a decisão mais difícil tenha sido promover a abertura da economia do Agro, pois foi doloroso na época o setor ser exposto à competição internacional, mas foi o que transformou definitivamente o Agro brasileiro.
BE – O senhor costuma dizer que o agro brasileiro é muito mais do que produção. Na sua opinião, qual é o maior equívoco que a população ainda tem sobre quem vive no campo?
Antônio Cabrera – O maior equívoco é imaginar que o campo ficou parado no tempo. Muita gente ainda enxerga o agricultor como alguém distante da tecnologia e da inovação. A realidade é exatamente o oposto. Hoje, o produtor rural brasileiro utiliza satélites, inteligência artificial, biotecnologia, agricultura de precisão e gestão baseada em dados.
O agro é um dos setores mais modernos da economia brasileira. Além disso, o agricultor não produz apenas alimentos. Ele preserva, gera energia, cria empregos, movimenta cidades e ajuda a manter a segurança alimentar do país e de boa parte do mundo.
Às vezes chego a alguma universidade e abro a palestra dizendo: “eu trabalho com tecnologia”... Pensam que trabalho na Nasa ou em algo assim. Quando digo que trabalho em uma fazenda, é uma grande surpresa. E conta a história da revolução que aconteceu no campo.
BE – Há algo que o senhor aprendeu com os animais ou com a rotina da fazenda e que leva para todas as áreas da vida?
Antônio Cabrera – A natureza ensina humildade. Na fazenda aprendemos que nem tudo está sob nosso controle. Podemos fazer um excelente planejamento, investir em tecnologia, trabalhar intensamente, mas continuamos dependentes do clima, do tempo e de fatores que não dominamos. Isso ensina resiliência, paciência e respeito. E fé, muita fé. Depositar uma semente é um ato de fé, pois depende de fatores que não estão sob o seu comando.
BE – O senhor estudou medicina veterinária, especializou-se em produção animal na Índia e conheceu diferentes realidades agrícolas pelo mundo. Qual país mais mudou sua forma de enxergar o Brasil? Por quê?
Antônio Cabrera – Cada país me ensinou algo diferente, mas os Estados Unidos talvez tenham sido o que mais reforçou uma convicção: o sucesso do agro depende tanto do produtor quanto do ambiente econômico em que ele atua. Lá percebi como regras estáveis, segurança jurídica, infraestrutura e políticas públicas previsíveis permitem que o agricultor concentre sua energia em produzir. Eles não têm, por exemplo, um MST invadindo fazendas. O direito de propriedade é sagrado nos EUA. Ao voltar para o Brasil, passei a valorizar ainda mais a extraordinária capacidade do nosso produtor, que alcança resultados impressionantes mesmo enfrentando uma carga tributária elevada, burocracia, logística mais cara e um ambiente regulatório muito mais complexo. Isso me fez admirar ainda mais o agricultor brasileiro.
BE – Se pudesse voltar no tempo, mudaria alguma decisão importante ou faria exatamente o mesmo caminho?
Antônio Cabrera – Provavelmente cometeria menos erros, porque a experiência nos torna mais prudentes. Mas não mudaria o caminho. Cada acerto e cada dificuldade ajudaram a construir quem eu sou. Tenho orgulho de ter dedicado minha vida ao agro, de ter servido ao Brasil na vida pública e de continuar defendendo um setor que produz riqueza, gera oportunidades e contribui para alimentar milhões de pessoas. Certamente hoje, com o que aprendi, voltando no tempo, eu insistiria na mesma abertura econômica do Agro também no setor industrial e de serviços.
BE – Em uma vida tão intensa, qual hábito faz questão de preservar para manter o equilíbrio?
Antônio Cabrera – Procuro começar o dia em oração e reservando um tempo para ler a Bíblia. E, embora para muitos isso possa parecer estranho, Deus é o senhor de minha vida. Isso me ajuda a colocar as prioridades no lugar. Também gosto de ler diariamente, porque acredito que quem para de aprender começa a repetir respostas antigas para problemas novos. E, sempre que possível, volto para a fazenda. O contato com a natureza e com a realidade do campo tem um efeito de equilíbrio que nenhum gabinete consegue oferecer.
BE – O senhor também é conhecido por falar abertamente sobre fé. Em que momento ela deixou de ser apenas uma crença para se tornar um guia nas decisões mais difíceis?
Antônio Cabrera – A fé em Jesus sempre esteve presente na minha vida, mas ela se fortalece principalmente quando percebemos que há decisões que ultrapassam nossa própria capacidade. Na vida pública, nos negócios e na vida pessoal, enfrentei momentos em que nenhuma experiência era suficiente. Nessas horas compreendi que a fé não é um refúgio para quem desiste de decidir, mas um fundamento para decidir com serenidade, coragem e responsabilidade. Para mim, Deus não é apenas alguém a quem recorremos nas dificuldades; é quem dá sentido ao propósito da nossa caminhada.
BE – Existe alguma crítica que o senhor recebeu ao longo da carreira e que, com o tempo, percebeu que fazia sentido?
Antônio Cabrera – Sim. No início da carreira, talvez eu acreditasse que bons argumentos bastavam para convencer as pessoas. Com o tempo, aprendi que comunicar é, antes de tudo, ouvir. Nem sempre quem discorda está mal-intencionado. Muitas vezes falta contexto, informação ou simplesmente uma linguagem que aproxime as pessoas. Essa percepção me tornou mais paciente e um comunicador melhor. A democracia implica o contraditório de opiniões.
BE – Quando não está trabalhando ou discutindo agronegócio, como gosta de aproveitar o tempo? Há algum hobby que poucas pessoas conheçam?
Antônio Cabrera – Meu principal hobby é a leitura. Gosto especialmente de história, economia e biografias, porque elas mostram como as grandes transformações da humanidade nasceram das ideias e das escolhas das pessoas. Também gosto de viajar e conhecer outros países. Sempre procuro entender como funcionam suas instituições, sua agricultura e sua cultura. Cada viagem acaba sendo uma oportunidade de aprender algo que possa ser útil ao Brasil. E tempo com a família, agora também com o neto. Também gosto de assistir filmes com a minha esposa, Angela.
BE – Depois de uma trajetória como produtor rural, ministro, gestor público e empresário, qual legado o senhor espera deixar para seus filhos e para as próximas gerações do agro?
Antônio Cabrera – Mais do que patrimônio ou cargos, espero deixar valores. Gostaria que meus filhos e as próximas gerações entendessem que prosperidade e integridade caminham juntas, que o trabalho dignifica, que servir ao próximo vale mais do que buscar reconhecimento e que vale a pena defender aquilo em que se acredita, mesmo quando isso exige coragem. Também espero ter contribuído para que o agricultor brasileiro seja cada vez mais respeitado, dentro e fora do país, pelo papel extraordinário que desempenha para a sociedade. Como diria Drummond, espero deixar um pouco do meu 'queixo' no queixo dos meus filhos — mas, sobretudo, deixar meus valores, minha fé e o compromisso com o trabalho.
