Há artistas que passam a vida aperfeiçoando uma técnica. Outros perseguem um estilo. Araguaí Garcia prefere outro verbo: inventar. É assim que o artista plástico rio-pretense define sua relação com a criação, construída muito mais pela inquietação do que por fórmulas prontas.
Natural de Rio Claro, Araguaí chegou ainda criança ao Noroeste paulista, passou parte da juventude entre Fernandópolis, São Paulo e Paris e escolheu Rio Preto para fincar raízes há quase quatro décadas. Aos 69 anos, coleciona uma trajetória que atravessa desenhos, pinturas, esculturas e instalações, marcada por uma produção que se renova sem abandonar a busca pela beleza.
Formado em Educação Artística, com extensão em Pedagogia e pós-graduação em Psicopedagogia, ele trocou a Arquitetura pelas artes quando percebeu que seu caminho era a liberdade criativa.
Membro da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura (Arlec) e participante ativo da cena artística local, Araguaí também vê em Rio Preto uma fonte permanente de criação. Nesta entrevista à Bem-Estar, ele fala sobre o processo criativo, a importância da autocrítica, a beleza como elemento essencial da arte, a paixão por Alexander Calder e explica por que acredita que inventar continua sendo sua maior inspiração. Confira a entrevista:
Bem-Estar - Em que momento você percebeu que a arte não seria apenas uma paixão, mas seu caminho?
Araguaí Garcia - Quando tive que escolher uma profissão, se aproximava a hora de fazer uma faculdade, eu pensei em fazer artes plásticas. Meu pai era advogado e eu o caçula de cinco irmãos. Os outros estavam encaminhados para profissões consideradas, naquela época, mais sólidas. Optei por arquitetura que, a meu ver, tinha mais relação com escultura do que com espaço funcional. Acreditando que seria o suficiente para minha inquietação de artista.
Bem-Estar - Se tivesse que escolher apenas uma obra para representar toda a sua trajetória, qual seria e por quê?
Araguaí Garcia - Considerando que cada ano de trabalho revela uma parte de mim, cada desenho, pintura, escultura ou instalação me representam em conjunto. Não dá para dissociar, mas eu poderia dizer que a fase atual, pois nela reúno tudo.
Bem-Estar - O que mais te inspira? As pessoas, as paisagens, as emoções ou o inesperado.
Araguaí Garcia - Os encantamentos e provocações são plurais. Acredito que o que mais me motiva é o compromisso com a criatividade. Como diria o compositor, entram pelos sete buracos da minha cabeça e me convidam a mostrá-los ao mundo, à minha maneira. Digo isso por meu autoconhecimento. Trabalho com a emoção e tento transmitir ao observador algum sentimento que alimente a alma. Quando sinto que está muito mastigado, uso a criatividade para provocar os olhares mais exigentes. Eu mais invento do que me inspiro. A inventividade é minha musa.
Bem-Estar - Na sua opinião, a arte precisa provocar beleza, reflexão ou desconforto? Ou tudo isso ao mesmo tempo?
Araguaí Garcia - A arte tem o poder de causar cada um desses sentimentos. Muito mais em quem faz. Tanto separados como tudo ao mesmo tempo. Fiz muita psicoterapia. Isso me ajudou a tocar em frente. Que me desculpem os reflexivos e os desconfortáveis, mas beleza é fundamental (parafraseando outro poeta), mesmo sendo relativa. Acho que a beleza está relacionada com o bem.
Mesmo em um trabalho reflexivo e provocativo, estou sempre buscando a beleza. Mas, entenda-se, que a beleza para olhares exigentes não é nada trivial.
Bem-Estar - Ao longo de sua carreira, qual foi a crítica que mais o marcou? A mais dura ou o maior elogio?
Araguaí Garcia - Idiotas pisoteiam canteiros que anjos não ousariam tocar. Já ouvi essa frase. E compreendo claramente o limite de dissentimentos. Portanto, não me abalo. Vivi coisas incríveis, fiz coisas importantes, é o que me basta. A autocrítica foi a mais dura que enfrentei e também a mais construtiva. Me ajudou a transformar uma série de coisas ruins em preciosidades. Fui chamado de gênio por um gênio, Alexandre Coimbra do Amaral, psicanalista e articulista. Tenho uma história de vida respeitada. Tudo isso através de minha arte. Desculpem minha modéstia.
Bem-Estar - Se pudesse passar um dia pintando ao lado de qualquer artista da história, quem escolheria e o que gostaria de perguntar a ele?
Araguaí Garcia - Seria uma alegria ficar ao lado de Alexander Calder, minha grande paixão. Tenho várias paixões, mas Calder é um fenômeno. Temos a mesma natureza.
O que eu perguntaria a ele?
Vamos brincar de circo? (risos)
Tenho certeza de que teria a melhor das respostas. Ele era um vulcão de inventar.
Bem-Estar - Rio Preto aparece de alguma forma em suas obras ou na maneira como você enxerga as artes?
Araguaí Garcia - Rio Preto é outra paixão, cuja alegria de vivê-la expressei na série “Splash”. E também no trabalho intitulado “Imagens figurativas na cidade abstrata”, que mostra fragmentos facilmente reconhecíveis de vários pontos da cidade compondo um grande painel. Tenho tido um contato mais próximo com artistas rio-pretenses, participando do movimento SerTão. Isso está sendo muito interessante nessa temporada. Assim como minhas atividades na Casa de Espanha e a colônia espanhola, com sua história em relação à cidade, também têm me inspirado.
Bem-Estar - Como membro da Arlec, qual você acredita ser o papel dos artistas e intelectuais na preservação da cultura de Rio Preto?
Araguaí Garcia - A Arlec, Academia Rio-pretense de Letras e Cultura, com seus intelectuais e artistas imortais, juntos, garantem a preservação da identidade cultural dessa cidade abstrata, formada por tantas culturas misturadas. A união sempre faz a força. É uma entidade extremamente importante e necessária que reúne muito conhecimento e dedicação à cultura e à história de Rio Preto.
Bem-Estar - A Arlec reúne diferentes expressões artísticas e culturais. Esse convívio influencia seu processo criativo? de que forma?
Araguaí Garcia - Quando fui convidado a ocupar a cadeira nº 4 da Academia, fiquei encantado com tantas pessoas maravilhosas. Uma festa para o espírito. É claro que, dentro deste ambiente cultural, as ideias vão pipocando. Minha natureza é um tanto quanto como a água que, se não tiver algum leito para seguir, acaba se espalhando, evapora e vira nuvens. Tudo bem, que depois chove e rega, mas me inspiro na dedicação e no compromisso de todos com a cultura.
Bem-Estar - Fora da arte, o que mais desperta sua criatividade e alimenta seu olhar?
Araguaí Garcia - Fora da arte, amor, bondade e generosidade das pessoas me inspiram. A contemplação é o garimpo de sentidos nas imagens do dia a dia também. Além disso, tudo é arte.
Bem-Estar - Como você gostaria que as pessoas se sentissem ao observar uma obra sua?
Araguaí Garcia - Gosto de despertar curiosidade e encantamento. Alegra-me alimentar as almas com coisas nutritivas e sentir prazer na satisfação das pessoas. E gostaria muito que se sentissem satisfeitas, que não cobrassem de mim o retrocesso e também abrissem suas mentes para compreenderem que a imagem de uma flor em minha pintura está muito longe de ser uma flor. É apenas uma pintura a meu modo.
