Há quem passe a vida acumulando títulos. O médico hematologista Milton Artur Ruiz prefere colecionar aprendizados. Depois de mais de cinco décadas dedicadas à medicina, ele continua enxergando no conhecimento um caminho sem linha de chegada. Aos 82 anos, ainda se emociona com os pequenos gestos dentro do hospital, acompanha os avanços da ciência com entusiasmo e acredita que a principal qualidade de um médico permanece a mesma: jamais deixar de aprender.
Natural de Santos e radicado em São José do Rio Preto, onde construiu praticamente toda a sua trajetória profissional, Ruiz formou gerações de médicos, consolidou uma carreira na pesquisa e participou de estudos que colocaram a cidade em evidência internacional, como os trabalhos envolvendo o transplante de células-tronco para pacientes com doença de Crohn. Com graduação em Medicina, mestrado, doutorado, pós-doutorado e livre-docência, ele afirma, sem hesitar, que ainda não alcançou todos os seus objetivos profissionais — sinal de que a inquietação científica continua tão presente quanto no início da carreira.
Casado há 27 anos com Lilian Piron, pai de quatro filhos e apaixonado por história, leitura, esportes e escrita, o médico também faz questão de cultivar amizades e trocar experiências. Para ele, ciência e humanidade caminham lado a lado, e nenhuma inovação tecnológica será capaz de substituir a sensibilidade necessária para compreender quem está do outro lado da mesa de consulta.
Nesta entrevista à Bem-Estar, Milton Artur Ruiz fala sobre os avanços da hematologia, o impacto da inteligência artificial na medicina, a importância da formação de novos profissionais e as lições que aprendeu ao longo de uma vida dedicada a cuidar de pessoas. Confira:
Bem-Estar - Ao longo da carreira, qual foi a maior revolução que testemunhou na hematologia: a tecnologia ou a forma de cuidar das pessoas?
Dr. Milton Artur Ruiz - Ambas. Técnicas inovadoras, cura e controle de doenças até então incuráveis, e o avanço do tratamento multiprofissional dos pacientes.
Bem-Estar - Depois de mais de cinco décadas dedicadas à medicina, ainda existe algum momento que o emociona dentro do hospital? Qual?
Dr. Milton Artur Ruiz - Sim, todos os dias. Nas mínimas ações.
Bem-Estar - O senhor ajudou a construir uma carreira em uma especialidade que lida diariamente com pacientes graves. Como aprendeu a equilibrar ciência e emoção?
Dr. Milton Artur Ruiz - Disciplina, dedicação e determinação.
Bem-Estar - O senhor foi professor por muitos anos. O que mais lhe dava satisfação: formar médicos ou descobrir pesquisadores?
Dr. Milton Artur Ruiz - Formar médicos.
Bem-Estar - Em um mundo onde a inteligência artificial avança rapidamente, quais qualidades de um médico jamais poderão ser substituídas por uma máquina?
Dr. Milton Artur Ruiz - Entender que ela existe é inevitável, conviver e estar sempre preparado para os avanços e utilizá-las para contínuo aprendizado. Duvidar sempre de suas respostas e informações, com checagem contínua e independente das informações advindas da IA.
Bem-Estar - O transplante de células-tronco para pacientes com Doença de Crohn colocou Rio Preto em evidência internacional. O senhor imaginava, quando iniciou esses estudos, que chegaria tão longe?
Dr. Milton Artur Ruiz - Sim, jamais. Mas ainda existe um longo caminho a percorrer para fazer entender o seu conceito, em que pese existir há longo tempo e ser Prêmio Nobel de 2026. É a restituição da tolerância imunológica com a reprogramação imunológica com o Transplante de Células tronco Hematopoiéticas. Instruir a população e informar a área acadêmica, desmistificar o procedimento, que não é tão agressivo como pensam, além de atenuar o nome transplante, que assusta. Vencer a resistência da classe médica da área, órgãos reguladores e sociedades médicas. Muito a fazer em benefício dos pacientes, não todos, que necessitam deste tratamento.
Bem-Estar - Existe algum paciente cuja história o acompanha até hoje e que mudou sua forma de enxergar a medicina?
Dr. Milton Artur Ruiz - Todo paciente tem um ensinamento. Desde estudante, quando por desconhecimento tomei conduta inusitada, mas mantive vivo o paciente. Ou, quando, sem recurso algum, em visita à cidade do interior, nada pude fazer para salvar um paciente. Ou ver uma criança falecendo e só continuar com ela sem recursos até o óbito. Dormir e acompanhar criança, dias e noites dentro do hospital com moléstia que hoje poderia ser salva com o transplante de medula óssea, procedimento que, na ocasião, não era disponível no país. Ser surpreendido por paciente que sobreviveu a um transplante de medula óssea que realizou experimentalmente no exterior e, 10 anos após, encontrá-lo vivo e sadio de um transplante que se transformou em usual e padrão atualmente. O primeiro paciente de doença de Crohn e a surpresa de observar o desaparecimento das lesões intestinais. Fechamento de fístulas, controle da moléstia, além da melhora da qualidade de vida dos outros pacientes desta moléstia. Reiterando, todo paciente deve ser avaliado, respeitado e ter o médico a seu lado incondicionalmente. Ter as lições do passado sempre presentes e ter a certeza de que o conhecimento de hoje, que não é empregado ou valorizado, pode ser um preâmbulo de sua implantação no futuro.
Bem-Estar - Depois de ocupar cargos de liderança em sociedades médicas nacionais e internacionais, qual foi o maior aprendizado sobre liderar pessoas?
Dr. Milton Artur Ruiz - A certeza de que não estava preparado para as funções e o maior aprendizado de que sempre devemos ter em mente qual é o limite da minha competência para toda e qualquer atividade.
Bem-Estar - Se não tivesse escolhido a medicina, em que profissão o senhor acredita que teria sido feliz? Por quê?
Dr. Milton Artur Ruiz - Nunca me imaginei em outra profissão, mas, pelo meu pai, deveria ter sido um jogador de “basquete” e atuar na área do esporte, que foi abortada pela atividade médica. Talvez por isto meu interesse por equipes, competições e sempre atrás de desafios na medicina.
Bem-Estar - O que mais o preocupa quando observa os jovens médicos iniciando a carreira atualmente?
Dr. Milton Artur Ruiz - Que façam a coisa certa e de forma correta. Sejam curiosos e não acomodados, ou que pensem que são infalíveis ou quase Deus. Procurem se aproximar e conviver com bons médicos que sejam exemplos de profissionalismo. Procurem serviços de referência e convivam eternamente com eles. Estejam preparados para aprender até o fim da vida.
Bem-Estar - Quando está longe do consultório e do hospital, o que faz para descansar a mente? Existe algum hobby ou hábito que o senhor cultiva?
Dr. Milton Artur Ruiz - Leitura, conhecer história, cultivar amizades para obter conhecimento e trocar informações, e ser aficionado em observar atividades esportivas. Mas, na maioria das vezes, procuro estar escrevendo. Sempre surge uma novidade.
Bem-Estar - Se pudesse deixar apenas uma mensagem para os futuros hematologistas, qual seria o conselho que considera indispensável para quem escolhe cuidar da vida por meio da ciência?
Dr. Milton Artur Ruiz - Reitero; disciplina, dedicação e determinação, e que estejam sempre em um bom time para ter chance de participar da competição em alto nível, parafraseando o que já respondi anteriormente.
