Dorival Guidoni Júnior, conhecido como Doriva, nasceu em Nhandeara e construiu uma trajetória marcada por disciplina, inteligência tática e longevidade no futebol profissional. Revelado pelo São Paulo sob a liderança de Telê Santana, destacou-se como volante de grande leitura de jogo e solidez defensiva, tornando-se peça importante em uma das gerações mais vitoriosas do clube.
Com a camisa tricolor, conquistou títulos de expressão, como o Campeonato Brasileiro (1991), as Copas Libertadores da América (1992 e 1993), além de Supercopa, Recopa e Mundial Interclubes. No Brasil, também brilhou pelo Atlético-MG, onde venceu a Copa Conmebol. No exterior, consolidou sua carreira na Europa, atuando pelo FC Porto, em Portugal, com títulos nacionais, e pelo Middlesbrough, na Inglaterra, onde foi campeão da Copa da Liga Inglesa e vice-campeão da Copa da UEFA.
Pela Seleção Brasileira, disputou 14 partidas, integrou o grupo vice-campeão da Copa do Mundo de 1998 e foi campeão da Copa das Confederações de 1997. Após encerrar a carreira como jogador, migrou para a função de treinador e auxiliar técnico, com passagens marcantes por clubes como Ituano, onde conquistou o histórico Campeonato Paulista de 2014, e Vasco da Gama, campeão carioca em 2015.
Atualmente, integra a comissão técnica do ex-lateral Sylvinho, tendo como último trabalho juntos a seleção da Albânia. Mesmo com uma carreira construída em grandes centros do futebol mundial, Doriva mantém forte ligação com suas raízes em Nhandeara, onde preserva laços familiares, amizades e hábitos simples, como a pescaria e o contato com o campo, que o ajudam a recarregar as energias fora da rotina intensa do futebol.
Casado com Márcia há 30 anos, pai de três filhos, Diego, Marcel e Melissa, e avô de Gianlucca, Doriva afirma se sentir realizado e segue valorizando, acima de tudo, sua evolução pessoal e familiar ao longo da vida. “Com toda certeza alcancei profissionalmente todos os meus objetivos e sonhos!”.
Leia a seguir:
BE – Como foi participar da Copa do Mundo? Existe algum momento daquela campanha de 1998 que pouca gente conhece e que ficou marcado para você?
Doriva – Chegar a uma Copa do Mundo é o ápice da carreira de qualquer jogador, e poder viver aquela experiência foi algo incrível. Um momento que ficou marcado para mim aconteceu antes da final, durante a execução do Hino Nacional. Naquele instante, passou um filme pela minha cabeça, lembrando de toda a trajetória até chegar ali. Foi impossível conter as lágrimas.
BE – Você vestiu camisas históricas no Brasil e na Europa. Qual delas mais mexe com sua memória afetiva e por quê?
Doriva – A camisa mais emblemática para mim sempre será a do São Paulo, por todo o valor sentimental que ela carrega: aprendi a ser são-paulino por causa do meu pai, que também torcia pelo clube. Infelizmente, perdi meu pai quando tinha apenas 11 meses, então vestir essa camisa teve um significado muito especial. A da Seleção Brasileira também ocupa um lugar único na minha história, pelo peso e pela representatividade.
BE – Se pudesse voltar no tempo para dar um conselho ao Doriva de 20 anos, qual seria?
Doriva – Sempre acreditei muito no valor dos bons conselhos. Uma das maiores lições que tive foi aprender a ouvir quem estava muitos anos na minha frente no futebol, como o senhor Telê Santana. Ele me deu dicas e orientações que carreguei até aqui e que fizeram diferença dentro e fora de campo. Sendo assim, diria pra mim: “Fique atento quando alguém que já viveu muitas experiências estiver lhe oferecendo ouro. Ouça atentamente”.
BE – Entre talento e disciplina, qual foi mais decisivo para construir sua carreira?
Doriva – Eu diria que os dois. Para você construir uma carreira de sucesso, talento e disciplina são bases importantíssimas e caminham juntos. Mas, no meu caso, a minha disciplina sempre falou mais alto. Conduta, postura e comprometimento foram, sem dúvida, marcas muito fortes da minha construção.
BE – Qual a maior diferença entre o futebol da sua época e o futebol atual? E qual deles você prefere?
Doriva – Bom, para mim o futebol mudou bastante. Não sou nostálgico, embora ainda reverencie sempre nossos craques do passado, prefiro o futebol atual.
As mudanças nas regras deram mais dinâmica ao jogo, que hoje é muito mais intenso, veloz e evoluído taticamente. No mais alto nível, o aspecto estratégico ficou extremamente interessante. Mas uma coisa não mudou: o talento continua fazendo a diferença. E falando da gente nesse momento: o futebol brasileiro, acredito que nossas safras atuais não têm a mesma qualidade técnica de antigamente. Sim, continuamos a produzir talentos, mas não na mesma quantidade e nível de outras épocas. Isso, para mim, é um fato.
BE – Dos grandes craques com quem jogou, quem mais o surpreendeu nos treinamentos?
Doriva – Joguei com o Ronaldo Fenômeno, na Seleção Brasileira, e ele, no auge, era surpreendente. Mas há um treino de que me recordo bem: Ronaldo e Romário estavam juntos, e ver os dois dividindo o campo foi algo surreal. O nível técnico dos dois era impressionante.
BE – Qual foi o estádio mais impressionante em que atuou e qual sensação ele despertava ao entrar em campo?
Doriva – Eu tive o privilégio de atuar em alguns dos maiores estádios do mundo, como San Siro, Santiago Bernabéu e Camp Nou. Mas, se tiver que escolher um, fico com o Maracanã. Desde criança, sonhava em jogar ali, e entrar naquele estádio sempre despertava uma emoção especial. Foi a realização de um sonho jogar no Maraca!
BE – Se tivesse que montar um meio-campo ideal apenas com jogadores que foram seus companheiros, quem não poderia faltar?
Doriva – O Juninho Paulista.
BE – Qual característica um jovem atleta precisa ter hoje para chegar ao futebol profissional e permanecer nele?
Doriva – O jovem atleta precisa ser obstinado, porque a profissão exige isso. Também precisa ser resiliente e mentalmente forte para lidar com os desafios da carreira. Além disso, é fundamental se cercar das pessoas certas, que possam orientar, apoiar e contribuir para o seu crescimento dentro e fora de campo.
BE – Ao olhar para sua trajetória, existe alguma decisão que mudaria ou você acredita que cada passo foi importante para sua história?
Doriva – Acredito que cada passo da minha trajetória foi muito importante. No entanto, coloco o casamento em primeiro lugar, pois a partir dele veio também a maturidade. Isso influenciou diretamente minhas escolhas, que passaram a ser cada vez melhores e mais conscientes. Sem dúvida, isso fez toda a diferença na minha trajetória.
BE – Fora dos gramados, qual hobby ou hábito ajuda você a manter o equilíbrio e o bem-estar?
Doriva – Na minha vida privada, eu gasto, ou melhor, ganho meu tempo quase sempre com a minha família. Além disso, a pescaria é um hobby que me encanta.
BE – Quando as pessoas falarem de Doriva daqui a muitos anos, o que você gostaria que elas lembrassem primeiro: o jogador, o profissional ou o ser humano? Por quê?
Doriva – A história a gente não apaga, e o futebol foi muito importante para construir o homem que sou hoje. Mas, sem dúvida nenhuma, gostaria que as pessoas se lembrassem do ser humano.
Todos nós precisamos sempre aprender. Hoje, aos 54 anos, enxergo muito mais do que quando tinha 30, e percebo o quanto melhorei e cresci como homem, filho, marido e pai. Acredito que, com a ajuda de Deus, ainda posso continuar melhorando e sendo frutífero por toda a vida.
