Segundo Mário de Andrade, a canção popular é a mais completa, totalmente nacional, a mais forte criação do povo. Romancista, poeta e ensaísta, acreditava que a conquista da modernidade pressupõe a valorização das marcas profundas de nossas vertentes etnoculturais. Essa fortuna imaterial de impulsos gregários, mais que em qualquer outra manifestação artística, revive intensamente em várias canções. E despertam fenômenos de coesão social, pois percebemos dentro de nós aquilo que é de todos. Algumas músicas, mesmo não sendo concepções de um autor, reúnem indícios que retratam a memória coletiva viva, levando o povo a alembrar-se de si mesmo.
‘Saudades de Matão’ é uma dessas valsas sentimentais e dolentes com o papel funcional de avivar lembranças de um tempo e lugar onde não estivemos, mas os sentimos como se lá estivéramos. É expressão nostálgica nas execuções instrumentais ou em linguagem poemática com versos do trovador popular Raul Torres: “Neste mundo eu choro a dor, / por uma paixão sem fim, / ninguém conhece a razão / por que choro num mundo assim...”. Reparemos que o cantador em primeira pessoa não se refere diretamente ao “mundo” do ser, mas, universal e intemporal, à nostalgia do ser no mundo.
O nome original da música era ‘Francana’, composta em 1904 pelo “oriundi” ítalo-paulista Jorge Gallati (1885-1960), maestro da banda musical de Araraquara, SP. Ano seguinte, era executada em cassinos do Rio de Janeiro sem menção ao compositor. Após, o uberabense Antenógenes Silva requereu-lhe a autoria. E a ele se seguiram Antônio Carreri (São Paulo), Biagi Cimini (Jaboticabal) e Pedro Perches de Aguiar (Taquaritinga). Talvez nem almejassem benefícios por direitos autorais, mas a primazia de terem esboçado imagens tão autênticas de ideias e sentimentos.
Nos anos de 1910, com a sensação de que “isto me pertence”, os moradores de Matão a batizaram com o nome da cidade. Em 38, a melodia recebeu os versos emotivos de Raul Torres que a gravou com o parceiro Serrinha. Logo, a dupla Mariano e Caçula (da Turma Caipira Cornélio Pires). E, enlevados, entoaram-na sertanejos do Nordeste e violeiros paulistas, mineiros, maestros de orquestras, músicos e cantores urbanos do rádio como Luiz Gonzaga, Tonico e Tinoco, Benedito Lacerda e Pixinguinha, Inezita Barroso, Carlos Galhardo, Radamés Gnattali e orquestra, Ângela Maria e Aguinaldo Timóteo, Renato Andrade, Dilermando Reis, Paulo Freire e Roberto Correa, Mario Zan, Pereira da Viola, Chitãozinho e Xororó...
Poucas canções exprimem com tão funda sinceridade a mediação de valores rurais e urbanos em virtudes e desejos. ‘Saudades de Matão’ é tão familiar que rara atenção lhe prestamos. Semelha o irmão que, de tão próximo, mal lhe dizemos “bom dia”. Criada num consenso de emoções e delicados queixumes, realiza imaginária viagem de regresso a terras-natais que nos redimem e nos reedificam. O país cresceu a escutá-la, nas alegorias de um povo apaixonado e criativo, poetizando com palavras e melodias o que fomos e seremos como pessoas, neste estar no mundo.
