A partir de fins do Séc. XIX, imigrantes italianos chegaram para substituir o braço escravo nos campos, cidades. Trouxeram ignota moléstia, anemia hereditária. Gente de sangue fraco! – falavam alguns daqui. Cientista não ouve palavras vãs. Com o persistir da doença, professor Naoum pôs-se em respostas, como fizera em grupos de altos estudos nas Universidades de Cambridge e Roma onde se aprimorara. Fechou-se em laboratórios da Unesp para análises ao que aparecia em lâminas com amostras de sangue. Talassemia. Difundiu-a em aulas, seminários, ensaios acadêmicos. Mais. Solícito, didático, perseverou em estações de rádio, jornais, ministrou palestras onde fosse convidado. “Nosso sangue é um contador de histórias!” – disse-me certa vez. Tornou-se assessor científico da Organização Mundial de Saúde.
Seu jeito afetuoso exprime o afã de traduzir dialetos da biologia a pessoas comuns. E persuasão a governos, autoridades. Nos anos de 1980, devido a gases venenosos que tossiam das chaminés de fábricas, o município de Cubatão era referido como o “Vale da Morte”. Uma tragédia habitava os corpos dos recém-nascidos: a anencefalia (ausência total ou parcial do cérebro). Esse mal, antes de urdir-se no ventre das mães, gestava-se na ação insensata dos homens. Naoum, colegas da Unesp e da Faculdade de Medicina (Santos) analisaram sangues, estatísticas. Inspiraram leis de recuperação ambiental. Reafirmaram que a Ciência é arte do conhecimento, incessante busca de respostas, explicação das maravilhas e dores da existência.
Há tempos, inventei o título de uma conferência que Naoum proferiria num clube da cidade: “O Dia da Criação”. Bíblico, poético? Ouviríamos Vinicius de Moraes recitar em jogral “Porque hoje é sábado?”. Dissertou sobre o prodígio genético no instante em que duas células se unem e se multiplicam em 4, 8,16, 32... no Dia da Criação. Seu ânimo fez o auditório imbuir-se de que no útero da mulher constrói-se o ninho elementar, tambor ancestral dos corações. E o quão sublime é ser gente. Sempre com auxílio de materiais pedagógicos da professora e esposa Alia, Naum agraciou a plateia ao enunciar porque, por normas bioquímicas, o corpo da mãe não rejeita o novo hóspede; ao invés, o protege. “O feto congrega lembranças dos antepassados, rastros e arquétipos da humanidade!” – poetou com inteligência e espiritualidade.
Meu amigo, cientista-escritor, criou o Instituto Naoum de Hematologia, órgão de excelência em estudos de pós-graduação e divulgações do pensamento. Em recente palestra na Faculdade de Ciências da Saúde (Faceres, Rio Preto), abordou o tema “Câncer: Por que Eu?” – resumo de um de seus livros, ora escrito com o filho, o hematologista Flávio Augusto Naoum (Ed. All Print, 2012). Não enfeitou a doença, intimidou ou camuflou informações. Focou o majestoso encanto das zilhões de células em demiurga sinfonia em nosso corpo. Mas, nas teias da vida (síntese da perfeição do universo), algumas são travessas, sorrateiras, amigas do caos. Nos enredos do Mal contra o Bem, Naoum se pôs a mostrar que a ciência é primogênita do Bem, solta no mundo a quem quer fazer o bem (Paulo Cesar Naoum, São Paulo, 1946).
